Agroflorestas como alternativa ao desmatamento

Técnica concilia a preservação de espécies florestais com o cultivo agrícola e pecuária

Nathane Agostini

O desmatamento é um dos problemas que mais preocupa no Brasil atualmente. Só na Amazônia, o nível de devastação cresceu em 24% entre 2014 e 2015 – segundo dados coletados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – alcançando 6.207 km² de corte raso na floresta, ou seja, a eliminação de toda e qualquer vegetação da área.

As principais razões do desmatamento das florestas nacionais estão ligadas à atividades econômicas, como por exemplo exploração de madeira, pecuária, agricultura e extrativismo vegetal. Assim, mais do que combater o desmatamento, é preciso encontrar alternativas. E é aí que as agroflorestas entram em cena.

Agrofloresta em Masaka, Uganda. Foto: MARCO SCHMIDT/ Wikipedia.

Agrofloresta em Masaka, Uganda. (Foto: MARCO SCHMIDT/ Wikipedia)

Os Sistemas Agroflorestais, SAFs como são conhecidos, referem-se a prática de conciliar espécies florestais com culturas agrícolas e/ou pecuária. São estudados no Brasil ao menos desde a década de 1980 e passaram a atrair mais atenção a partir do momento em que assumiram caráter de uma nova ciência.

Caracterizam-se pelo manejo sustentável da terra, ao combinar pelo menos uma espécie florestal arbórea ou arbustiva, com culturas agrícolas e a criação de animais em uma mesma área de forma simultânea ou sequencial. São classificados em: sistema silviagrícola – associação de árvores com cultivos agrícolas; sistema silvipastoril – associação de árvores e atividade pecuária; e sistema agrossilvipastoril – associação de árvores com cultivos agrícolas e atividade pecuária.

Mas quais as vantagens da aplicação dessa técnica? Bem, elas são inúmeras, a começar por questões ecológicas. Os SAFs imitam a regeneração natural de florestas e os nutrientes são reciclados pelo próprio ambiente, ou seja, as próprias árvores plantadas oferecem adubo e sombra para os cultivos e, assim, não é necessário o uso de químicos. Além disso, agroflorestas conservam recursos do solo e água e, também, mostram-se mais ‘saudáveis’, com menor incidência de pragas, portanto, não exigem uso de agrotóxicos. E mais do que isso, melhoram a biodiversidade no local, tanto da flora (plantada), como passam a atrair diferentes indivíduos da fauna nativa.

As agroflorestas também despertam o interesse dos produtores rurais por trazerem diversos benefícios econômicos. Ao permitir o plantio de diferentes espécies em uma mesma área, os SAFs aumentam a produtividade do agricultor. Essa diversidade no plantio pode garantir colheitas no ano todo, dependendo das épocas de produção de cada cultura, e reduz ao menos dois riscos: o de impacto econômico devido à possíveis flutuações de preços no mercado e de perda total da colheita (o que tem chances maiores de ocorrer em casos de plantios de cultivo único). A longo prazo, a própria floresta plantada passa a gerar outros produtos comercializáveis, como frutos e madeira.

No Brasil, sistemas agroflorestais já são encontrados de norte a sul do país. Na região Sul, predominam os sistemas silvipastoris. No Paraná, uma avaliação realizada em 2009 em 43 propriedades da região noroeste do estado, apontou que a prática é utilizada principalmente em fazendas de pecuária de corte, conciliando a criação dos animais com o plantio de bracatinga – árvore aproveitada como lenha e na construção de móveis –  e erva mate. A própria Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária) realizou pesquisas no município de Imbituva (PR) ao introduzir bovinos em pasto natural de Pinus elliottii; os resultados apontaram a redução na altura da vegetação, consecutivamente reduzindo os riscos de incêndio e os custos de manutenção florestal, além de uma grande produção de carne.

Cultivo de alimentos orgânicos em Agrofloresta na região de Brazlândia, no DF (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Cultivo de alimentos orgânicos em Agrofloresta na região de Brazlândia, no DF (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Já no sudeste, no Rio de Janeiro, os SAFs são encontrados principalmente em Paraty, no Maciço da Pedra Branca (zona oeste da cidade do Rio) e na região de Casimiro de Abreu, onde agricultores estão sendo capacitados para adotar esta prática. Em uma propriedade em Silva Jardim, no interior do estado, a variedade de produtos é notável, pés de limão, açaí, manga, acerola, caju, banana, laranja, dividem o espaço com a vegetação nativa.

Na região, a adoção dos sistemas agroflorestais tem ainda um outro objetivo: uma parceria entre produtores e a Associação Mico-Leão-Dourado visa proteger 25 mil hectares de floresta integrada para garantir a sobrevivência de dois mil animaizinhos que dão nome à entidade e que estão ameaçados de extinção.

E, curiosamente, a prática das agrofloresta tem chamado mais atenção ultimamente por estar sendo debatida na novela ‘Velho Chico’, transmitida pela Rede Globo. Na trama, um dos personagens busca recuperar um solo desgastado por meio da implementação de um SAF. O engenheiro agrônomo de Minas Gerais, Lucas Faria Machado, que atua como consultor técnico em manejo de agroflorestas, afirma estar recebendo, em média, o dobro de pedidos por mês pelas palestras sobre o tema. Fica claro, assim, que o desmatamento pode ser evitado e que, muitas vezes, o que mais faltava era conhecimento sobre o assunto.

 

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