AGRO-SUSTENTABILIDADE: BENEFÍCIOS AMBIENTAIS E FINANCEIROS

Luís Henrique Negrelli

Falar em agricultura brasileira significa abordar um dos pilares que sustentam a economia do país e que tem se mostrado cada vez mais importante e robusto, constituindo uma das áreas que mais cresce no território brasileiro. O avanço não está somente em aumentar os espaços para sua prática, mas em aproveitá-lo melhor, aprimorando técnicas de produção e investindo em novas perspectivas do agronegócio

Em julho de 2016, o Ministério da Agricultura, informou que as exportações brasileiras do agronegócio chegaram a 45 bilhões de dólares, no primeiro semestre desse ano. O número simboliza um aumento de 4% em relação ao mesmo período de 2015, totalizando 49,9% de todas as exportações brasileiras.

Com as exportações aumentando e a demanda do país em ascensão é necessário expandir a produção agropecuária. Num contexto de escassez de recursos naturais, exigência de investimentos e crise financeira, como fechar a conta? Como produzir mais com menos gastos e mais aproveitamento? A resposta está na sustentabilidade.

O modo de produção moderno gera impactos ambientais que prejudicam os ecossistemas. A emissão de gases do efeito estufa, a poluição do solo, a contaminação hídrica, o uso de agrotóxicos e a utilização de fontes de energia não-renováveis, são ações que contribuem para aumentar os índices ambientais alarmantes no Brasil e no mundo.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o estudo “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável” em 2015. De acordo com a pesquisa, “os agrotóxicos […] estão entre os principais instrumentos do atual modelo da agricultura brasileira, centrado em ganhos de produtividade”.

O estudo aponta um crescimento na comercialização anual de agrotóxicos por área plantada. Em 2000, eram aproximadamente 3kg por hectare de ingrediente ativo, passando para quase 7kg por hectare em 2012. A partir dessa perspectiva, empresas e produtores têm optado por processos produtivos mais limpos e livres de substâncias prejudiciais para o solo e o ser humano.

MEDIDAS SUSTENTÁVEIS

Bactérias fixadoras de nitrogênio presentes no solo ou adicionadas a ele se associam às raízes das plantas, captando e transformando o nitrogênio do ar. A chamada Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) gera maior troca de nutrientes e reduz o uso de adubos químicos.  O solo se torna mais fértil, áreas degradadas passam a ter nutrientes e diminui o gasto com produtos para melhorar o cultivo, causando maior rendimento da produção, além da redução da emissão de gases do efeito estufa.

A FBN demanda um investimento que, para o pequeno produtor, pode não ser de fácil implantação. Com outras ações, como o tratamento de resíduos animais, é possível incrementar a produção. Os resíduos são possíveis contaminadores, afinal o descarte no solo ou em rios ocasiona poluição. Tratar essa matéria resulta em fertilizantes naturais para adubação e combustível para gerar energia, como o biogás.

Solo coberto por palha no Sistema de Plantio Direto. Foto: Secretaria de Abastecimento do Estado de São Paulo.

Solo coberto por palha no Sistema de Plantio Direto. Foto: Secretaria de Abastecimento do Estado de São Paulo.

Outra alternativa é o Sistema Plantio Direto conhecido como um dos mais sustentáveis. Consiste em não arar o solo antes de plantar, cobrí-lo com restos vegetais ou plantas vivas ao longo do ano e estabelecer uma rotação de culturas. Empresas sucroalcooleiras têm adotado o sistema no plantio da cana-de-açúcar. Com o solo coberto, há uma menor exposição ao sol e à chuva,  conservando os nutrientes no solo e evitando erosões. Aumenta-se a produtividade e diminuem os custos com adubos.

Ao estabelecer seu modo de produção, o produtor pode investir em criação de gado, em florestas para corte da madeira, em plantação nas lavouras, etc. Porém, por que não escolher as três? A chamada Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) permite ao produtor ter um sistema estratégico e sustentável, juntando numa mesma área agricultura, pecuária e floresta. A ILPF aperfeiçoa o uso do solo com as plantações e a madeira, melhora a produtividade das pastagens e aumenta a oferta de nutrientes e matéria orgânica.

Área reservada à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Foto: Gabriel Rezende Faria

Área reservada à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Foto: Gabriel Rezende Faria

O produtor pode lucrar com a produção de grãos, carne, leite, madeira ou pomar, tudo em um mesmo espaço. Além disso, o animal que cresce na área de sombra das árvores tem uma melhora na produção do leite e no ganho de peso. Os grãos plantados na área podem servir também como alimentação para o gado, reforçando a série de vantagens do sistema.

“Sustentabilidade, Economia Verde, Produção Mais Limpa, são todos sinônimos e vão se sucedendo e se substituindo ao longo do tempo. Isto também é válido para o termo ILPF (que) vem do conceito de agrossilvicultura”, diz Luiz César Ribas, coordenador do Grupo de Pesquisas em Sistema Integrado de Gestão aplicado à agropecuária da UNESP de Botucatu. Ele acrescenta que “precisamos definir o conceito de ‘melhor aproveitamento da terra’, e, para tanto, precisaríamos de uma política agrícola, agrária e fundiária bem definida”.

A energia é um instrumento necessário para os processos produtivos e a pesquisa “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável” do IBGE, destacou que, em 2012, cerca de 43% do total de energia vinha de fontes renováveis. Os números não se referem exclusivamente ao setor agrícola, mas demonstram o avanço de energias alternativas para a produção.

O uso de combustíveis fósseis danifica o meio ambiente e são fontes não-renováveis. Investir em energia renovável mostra-se vantajoso para produtores, como as empresas do ramo sucroalcooleiro que têm utilizado a biomassa como fonte, um resíduo do processamento da cana ao se tornar etanol e açúcar. Com essa ação, encontram uma forma de reutilizar um resto da produção, sem desperdício de material e dinheiro, gerando energia limpa e sustentável. Além disso, algumas usinas têm utilizado esse modo renovável como matriz energética para suprir seus próprios gastos.

A professora do Mestrado Acadêmico em Economia Rural da Universidade Federal do Ceará, Patrícia Lima, destaca os benefícios dessa agroenergia. “Do ponto de vista econômico são destacados o uso comercial de substâncias de elevado valor agregado presentes nos resíduos, as quais podem ser convertidas em produtos comerciais ou matéria prima na fabricação de outros bens”, comenta.

Sobre os benefícios sociais, Lima espera que o aproveitamento de resíduos reduza doenças provocadas pela poluição, seja pela produção de combustíveis limpos, seja pela redução de resíduos acumulados em áreas habitáveis. Além disso, a medida diminui a emissão de gases causadores do efeito estufa e os riscos de contaminação de recursos hídricos.

A agro-sustentabilidade trata-se de um meio de produzir mais com menos impacto ambiental. O compromisso está em implantar sistemas ecologicamente corretos, economicamente viáveis, socialmente justos e culturalmente diversos. “Ou optamos pela mudança de atitude por meio da adoção de hábitos e práticas menos agressivas ao ambiente ou mantemos o mesmo padrão de produção e consumo. No caso da segunda opção os resultados esperados já começam a ser definidos e se mostram uma ameaça ao meio ambiente em uma perspectiva de médio e curto prazo”, declara Lima.

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