ATO DE ALUNOS DA UNESP DE RIO CLARO SOFRE INTERVENÇÃO DA PM

Movimentos estudantis apontam uma luta entre classes, a qual a PM pode ser associada ao processo de repressão

 

Wesley Anjos

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Manifestantes afirmam que não desistirão de suas causas. (Fonte: Portal JC Rio Claro)

Na sexta-feira (19), um grupo de alunos que retornava de uma manifestação da Unesp de Rio Claro foi abordado por agentes da Polícia Militar – PM. O ato ocorreu em prol da segurança no bairro Bela Vista. Três estudantes foram detidos. O momento foi registrado em vídeo por outros integrantes do grupo. Com a chegada de mais manifestantes e mais viaturas, houve um confronto. A organização do protesto não teve vínculo com nenhum movimento estudantil.

“A manifestação estava marcada para o dia dezenove às catorze horas em frente à Unesp. Estudantes contrários à presença da Polícia Militar se dirigiram para o local marcado com bandeira e cartazes, manifestando suas posições políticas. Ao chegarem ao local, percebendo que não havia qualquer movimentação, decidiram voltar para casa onde foram abordados pela PM durante o trajeto” – afirma em Nota de Repúdio a comissão de membros de movimentos estudantis montada para tratar do caso. A comissão diz que mesmo sem terem cometido qualquer delito que os incriminassem, os três discentes receberam voz de prisão por desacato, o que gerou revolta no grupo. Os integrantes preferem não ter os seus nomes citados por receio de retaliações.

Eles acreditam que a violência policial incide principalmente sobre a juventude negra, socioeconomicante carente ou setores contrários às medidas tomadas na gestão do governador Geraldo Alckmin. “Mais uma vez a PM do Estado de São Paulo demonstrou seu despreparo, conduzindo uma abordagem com doses exageradas de coerção e tortura, distribuindo violência gratuita. Os três estudantes abordados foram agredidos e tiveram os seus direitos violados pelos policiais, fato que foi testemunhado e registrado em aparelhos celulares por outros estudantes que estiveram no local durante a ação”.

Rio Claro, segundo levantamentos da Secretaria de Segurança Pública, é o município com o maior índice de violência da região. O Bela Vista, bairro em que a ação ocorreu, possui um grande número de assaltos registrados. Por conta disso há uma demanda de alunos pedindo o aumento do policiamento na área, inclusive no campus. Já os manifestantes ligados aos movimentos estudantis, estavam no ato contra a presença da PM, pois julgam que não seja essa a solução, visto que a corporação costuma ser associada a intervenções também violentas.

A comissão explica ainda que uma das medidas pensadas na universidade foi a de obrigar os estudantes a usarem crachás, de modo que pessoas estranhas não seriam bem-vindas. “Entendemos ‘estranhas’ como pobres e negras, até porque o campus é aberto para a classe média do bairro ao lado entrar para caminhar e nisso não há nenhum problema”. O campus fica entre bairros periféricos e trechos com moradias de classe média, como é o caso de parte da Vila Alemã. Para a comissão a medida seria classista e construir mais muros entre a comunidade e a academia não seria a solução.

Posicionamento da Polícia Militar

Questionada a respeito do ocorrido, a assessoria da corporação alega que a equipe que patrulhava o bairro Bela Vista, abordou os estudantes por considerar suspeita a movimentação.  “Houve desobediência às ordens emanadas, inclusive com questionamentos à abordagem. Durante a intervenção, os abordados começaram a desacatar a equipe, proferindo palavras de baixo calão, sendo que um deles se desvencilhou da equipe e após retornou com outros trinta indivíduos, aproximadamente; e nesse tumultuo, um deles, com um pedaço de madeira, agrediu um dos policiais”.

Segundo a PM, com a chegada das demais viaturas, as partes foram conduzidas ao Plantão Policial, onde foi elaborado o Termo Circunstanciado por desacato e lesão corporal.

 

Reivindicações 

A luta entre classes, a oposição à presença da PM e o distanciamento da academia com relação à comunidade não são as únicas pautas tratadas no momento,  esclarece a comissão. O projeto Atha tem sido outro alvo de preocupações.

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Aula aberta do dia 14 serviu para debater questões estruturais. (Fonte: Coletivo Atha)

O Cursinho Atho era o maior projeto de extensão da Unesp de Rio Claro. Em 2015 o projeto deixou de ser extensão para se tornar um programa institucionalizado. O edital n°7/2015 passou a dividir os programas em rankings. Segundo os critérios, o Atho ficou em quinto, o que gerou um corte de verbas. O projeto antes possuía vinte bolsas voltadas para os membros do cursinho, com duração de doze meses. Atualmente restam treze bolsas com duração de dez meses.

No dia 14 de abril teve o “Atho pela Reflexão”, uma aula aberta para debater o problema da queda de investimentos juntamente aos discentes do campus. Anteriormente, segundo a comissão, houve um trancasso de duas horas na principal portaria de acesso à universidade, que gerou congestionamento. A manifestação seguiu para os outros blocos, para tornar pública a situação do cursinho.

A precarização e superlotação da moradia estudantil também tem sido discutida. “Para o coletivo de professores e colaboradores, a questão da permanência estudantil é completamente ligada ao cursinho, pois nossos alunos são oriundos de escola pública e economicamente carentes, ou seja, eles até podem entrar na universidade, se passarem por essa barreira que é o vestibular, mas não terão como se manter nela ou se conseguirem serão atacados até o momento como nós vemos acontecer no nosso dia a dia, como vimos acontecer na terça-feira (dia 19) por aqui”.

Em 2016 as universidades estaduais de São Paulo têm sofrido um corte de bolsas de auxílio financeiro para alunos com comprava carência socioeconômica. Na Unesp, a Bolsa de Apoio Acadêmico e Extensão – BAAE I equivale a 425,00 reais.  Sem ela, muitos estudantes não têm condições de se manter. Esse é o caso da aluna Stephanie Larissa Brito, do curso de Ciências da Computação. Ela quase se viu obrigada a trancar a sua matrícula ao perder a bolsa.

 

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