Hollande anuncia estado de emergência econômica na França

Anúncio foi feito a menos de um ano e meio de eleições presidenciais de 2017

Maria Clara Novais

No dia 18 de janeiro, François Hollande, presidente da França, declarou “estado de emergência econômica” no país. O presidente ainda afirmou que é hora de uma redefinição do modelo econômico francês. Também foi anunciada uma série de propostas econômicas, que fazem parte de um plano cujas principais intenções são estimular o crescimento econômico e reduzir a taxa de desemprego. Atualmente, cerca de 3,57 milhões de pessoas estão desempregadas na França.

As propostas do plano, que fizeram parte das promessas de campanha do presidente em 2012, foram expostas em discurso anual ante líderes empresarias. O Estado pretende investir mais de € 2,2 bilhões (cerca de R$ 8,8 bilhões) na economia. Entre as propostas, há a previsão de qualificação profissional de 500 mil desempregados, principalmente nas áreas digitais e de energias limpas, além de incentivos fiscais para empresas que realizem a contratação de desempregados por pelo menos seis meses. Hollande garantiu que os dois bilhões de euros serão financiados sem criar novos impostos de nenhum tipo, ou seja, serão retirados das economias do governo.

MARIA CLARA Hollande anuncia estado de emergência econômica na França - Imagem

“Além da segurança dos franceses, o emprego é a única questão que importa”, ressaltou Hollande. (Créditos: Ministério das Relações Exteriores do Peru)

Doutor em Ciências Sociais e Políticas pela European University Institute, Stefano Guzzini interpreta as medidas. Ele diz que a premissa principal do governo é a de “elevar o valor do ‘capital humano’, na medida em que valoriza a educação e a capacitação e tira os desempregados das ruas sem fazer com que percam a experiência profissional que haviam tido antes”.

Ao anunciar o plano, o presidente francês também destacou que é urgente uma reformulação do modelo trabalhista da França por conta da economia globalizada e digital, mas não colocou em questão o limite de 35 horas de trabalho por semana. O dirigente ainda declarou que o sistema de bem-estar social para os desempregados precisa estimular a volta dos cidadãos ao mercado de trabalho e sugeriu também afrouxar medidas trabalhistas para encorajar novas contratações, mas não mencionou quais seriam essas medidas.

“A política trabalhista francesa segue as tendências mundiais, mas com particularidades”, explica Luiz Felipe Brandão Osório, doutor em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele ainda declara que as relações trabalhistas no país são “flexibilizadas” aos poucos, para “precarizar” a situação do trabalhador perante as empresas. “Apesar de fragilizadas, as organizações de trabalhadores demonstram força, se comparadas com as de outros países”, acrescenta.

Brandão também diz que a esquerda socialdemocrata, mais próxima do governo, exalta a iniciativa por ela dar uma guinada na aproximação entre o governo e suas bases eleitorais e a priorização dos problemas sociais. Já a esquerda mais distante questiona a timidez das medidas e desconfia que a aparente mudança gere alguma transformação estrutural. Quanto à situação da população, o pesquisador afirma que as medidas não gerarão alterações substanciais na vida do cidadão francês, mais especificamente do trabalhador e, na melhor das hipóteses, pode gerar uma melhora paliativa nos índices de desemprego – no entanto, elas não tocam as questões sociais fundamentais.

Analisando a reação de outras nações europeias ao anúncio de emergência econômica de Hollande, o doutor em Economia Política Internacional avalia que a Europa não fez grandes manifestações contrárias e que é possível que as medidas inclusive sejam vistas com certa aprovação, uma vez que o índice de desemprego francês está acima daquele da União Europeia (10,6% contra 9,8%). “Desde que pontuais, as reformas serão aceitas sem resistência”, finaliza Brandão.

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