[Matéria Especial] Quando os muros da cidade falam

O que há por trás dos grafite em Bauru

Amanda Casagrande e Marina Debrino

O cinza do concreto vai se alterando pela cor do spray. Aos poucos, uma imagem viva se forma em meio ao caos urbano. Diversas pessoas transitam por esse mesmo lugar todos os dias, mas hoje algo está diferente. Há uma figura formada na parede que chama atenção, ora com uma crítica social ora com o despertar de um sentimento. O que seria aquilo?  As cores e as formas, às vezes nítidas, às vezes abstratas, se entrelaçam para juntas estamparem ali um recado.

A composição da imagem do Graffiti é feita com diversos materiais, que aplicam diferentes efeitos à figura (Foto: Marina Debrino)

A composição da imagem do Grafite é feita com diversos materiais, que aplicam diferentes efeitos à figura (Foto: Marina Debrino)

Em meio aos que passam apressados, os que param para olhar, mesmo que rapidamente, são contemplados com uma surpresa inquietante, digna de reações distintas. Os estímulos visuais presentes no desenho somam-se à memórias, percepções e experiências de cada um. Inicia ali um processo de diálogo não só externo, mas principalmente interno.  “Tem gente que gosta e vem falar com você, agradecer. Tem gente que nem repara, acho que a maioria passa batido. Ainda assim, gera um incomodo, porque quando eles reparam eles se questionam. Às vezes nem sabem o que é grafite e o que é pichação e acham que é tudo a mesma coisa. Tem os que olham e acham perda de tempo, se perguntam “O que ele ta fazendo aí? Ta gastando a tinta dele pra nada, devia estar pintando a casa dele”.” Lucas Vieira Crepaldi viu no grafite uma forma de escape para extravasar seus sentimentos e indignações desde 2011. Para o rapaz, que tem elefantes como marca registrada nos desenhos, o grafite é sua forma de passar seus sentimentos em comum com outras pessoas. “Eu tento colocar o desenho com alguma ideia/sentimento. Normalmente eu alio o desenho com uma frase ou vice e versa. Mas eu procuro expressar um elefante em dúvida com alguma coisa, ou sugerindo alguma coisa a se pensar” afirma Lucas.

A pichação é uma porta de entrada para o grafite. Por não querer se envolver em desentendimentos com a polícia ou com moradores, os jovens buscam uma maneira legal de se expressar nos muros vazios da cidade e é nesse momento que conhecem a grafitagem. Ambas artes possuem seu papel na sociedade, mas a pichação, considerada um ato de vandalismo, é voltada para a crítica escrita – sem desenhos – e em tinta preta. Os mais leigos podem confundir as duas, mas na realidade os resultados plásticos são totalmente diferentes. A grafitagem é uma arte essencialmente urbana, que envolve cores e desenhos e dialoga com a cidade e seus personagens, propondo uma reflexão e contemplação de uma figura inconstante.“É uma forma de colocar minha indignação ou algum sentimento extravagante em mim para que outras pessoas vejam, que elas possam parar pra pensar sobre aquilo, refletir. Eu sempre tento deixar meus desenhos de uma forma um pouco crítica” conta Lucas. As obras desse estilo se encaixam no cotidiano líquido moderno, são impermanentes, passageiras. Vem e vão conforme o ritmo do seu cenário: um dia podem transformar-se em um novo desenho ou simplesmente em um muro branco.

Junto com o desenho, Lucas normalmente utiliza frases pensando num viés crítico (Foto: Lucas Vieira Crepaldi - Arquivo Pessoal)

Junto com o desenho, Lucas normalmente utiliza frases pensando num viés crítico (Foto: Lucas Vieira Crepaldi – Arquivo Pessoal)

Conhecendo outros adeptos da grafitagem
Foi a partir da ligação com o grafite que João Gabriel Petenussi começou a tatuar: “[O grafite] desenvolveu muito o meu lado artístico”. Fortemente envolvido com o prazer de fazer arte, teve o grafite como fonte de renda por dois anos, mas muitas vezes cobrava apenas a compra da tinta spray. Seus desenhos carregam o peso de uma crítica social, firmado na ideia de que todas as pessoas possuem dois lados: o bom e o ruim. Por isso, seus personagens possuem um só olho, representando o lado bom e a outra metade do rosto escura, que simboliza o mal presente em cada pessoa. A boca coberta por uma bandana, outra marca da arte de João, faz voto de silêncio, podendo ser interpretada de várias maneiras, talvez uma autocensura. É a sensação de gratidão quando vê suas obras no muros da cidade que deixa transparecer a paixão que o grafiteiro carrega pela sua arte: “O que mais me deixa feliz é quando eu termino o trabalho e recebo elogios. Não existe coisa que pague, é muito bom mesmo. Eu realmente faço de coração”.

Um ambiente normalmente colorido apenas por propagandas e gente interessada em estimular o consumismo foi o que bastou para Felipe Gonçales, também conhecido como Fel, grafiteiro desde 2007, tentar transformar a rua em um ambiente melhor por meio do grafite. ”É difícil você achar cor que é arte e tenta transmitir um sentimento bom sem pedir nada em troca”. O traço preto contínuo, marca do trabalho de Fel, é a expressão de algo que define, liga e protege o desenho, como uma família ou um círculo de amizades muito forte. As cores e estampas servem de contraste ao traço grosso e firme, trazendo determinada delicadeza à arte. Apesar de definir previamente o desenho que será grafitado, é só na hora que ele delimita quais traços e estampas serão passados para o muro, numa espécie de feeling momentâneo.

Mais do que só fazer arte, as amizades desenvolvidas também são parte integrante do cenário do grafite. Basta uma ligação de um amigo para Fel e outros grafiteiros se organizarem e saírem, na maioria das vezes sem um muro específico, para pintar. É na conversa com moradores e pessoas comuns que eles conseguem um ambiente para fazer sua arte. Rindo, ele diz que “As pessoas ficam meio desacreditadas que a gente vai fazer alguma coisa bacana no muro delas, mas quando aceitam, a reação é bacana”. Foi a partir de um workshop que ele e outros dois amigos ministraram – Gabriel Hune e Filite (Pedro Massom) -, que surgiu a ideia de interagir os trabalhos dos três, como uma extensão da amizade que eles construíram.

Em um quarto repleto de telas, tintas, canetas, sprays e cores – espalhadas por todos os cantos do ambiente – do chão ao guarda-roupa – Gabriel desenvolve seu lado artístico. Dono de uma sensibilidade incrível, o garoto que descobriu o grafite em 2011 graças a uma oficina no SESC, já participou de exposições e grafitagens em Jaú, Lençóis Paulista e São Manuel. Dentro de sua casa, farta em obras tanto dele, quanto de amigos e conhecidos, Gabriel explica, com a voz tranquila e muita paciência, sobre os materiais que usa na pintura das telas e no grafite: quais as melhores marcas de tintas nacionais e importadas, como são os formatos dos bicos de spray e qual efeito cada um atribui na arte, quais canetas são usadas para fazer cada detalhe, cada contorno. As telas ocupam a maior parte do seu quarto, e ele mostra cada uma com detalhamento sobre a sua produção e seu estilo. “Eu gosto de abordar temas provocantes, de amor, paixões e sensibilidade”. Rapidamente destaca-se uma marca que percorre toda a obra de Gabriel: homens com nariz de madeira – que muitos associam livremente com o Pinóquio –  caracterizando seu “personagem”.  Fora isso, âncoras e outros objetos que remetem ao mar também possuem seu espaço nos desenhos. “Meu avô era pescador”, justifica Gabriel.

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A grafitagem é, de certa forma, a fonte de renda de Hune, mesmo que indiretamente, pois ele atua há um ano como agente educacional da Fundação Casa, ministrando o projeto de grafite. A venda de suas pinturas em tela são também parte da renda. Em seu sketchbook (caderno de esboços e anotações) ele planeja antes de pintar os desenhos no muro e explica a importância de pensar bastante antes de grafitar diretamente em algum local e fazê-lo com calma. Uma parte dos seus grafites estão espalhados em lugares mais afastados, mas a maioria encontra-se na Vila Cardia, bairro onde Gabriel reside.

A arte que ninguém vê
Além de ocupar espaços urbanos como viadutos e avenidas movimentadas, o grafite aparece em lugares abandonados, rejeitados pela sociedade. O Urbex, como denomina-se o estilo de pintar nesse contexto, é uma forma de revitalizar um ambiente que está em ruínas. É assim que o grafite vai além de uma manifestação cultural que busca transmitir uma ideia ou uma imagem. Esta arte colore lugares nos quais a cor já não atingia. “No meu ponto de vista esse tipo de arte acaba decorando espaços esquecidos, lugar em ruínas e, na maioria das vezes, esses lugares são habitados por moradores de rua, pessoas que não tem onde morar, que acabam ficando lá dentro, fazendo parte deste cenário também. Essa arte não vai ficar para ninguém, vai ficar lá, somente para os moradores de rua” diz Gabriel Hune.

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