Transição capilar: sobre cabelo e identidade

Aceitar o seu cabelo natural é ir contra os padrões de beleza impostos

Amanda Costa

O período de transição capilar é difícil, mas quem passou confirma que vale a pena. (Crédito: Pinterest)

O período de transição capilar é difícil, mas quem passou confirma que vale a pena. (Crédito: Pinterest)

Já imaginou passar boa parte da vida ouvindo comentários, de até familiares e amigos, sobre como seu cabelo é “ruim” e que você ficaria melhor com ele liso? Por anos várias pessoas foram obrigadas a lidar com isso. Elas sentiam vergonha de seus cabelos e entendiam que para serem bonitas precisavam ter o cabelo mais próximo possível do liso. Não é difícil entender essa realidade, afinal, ainda hoje temos algumas capas de revistas e propagandas publicitárias ditando que  os cabelos para serem bonitos devem ser lisos, compridos e com movimento.

A universitária, Marina Coelho, 22 anos, acha difícil o fato de que todas as garotas consideradas “bonitas” possuam cabelo liso, e isto já a fez pensar que nunca seria bonita, desejável ou aceita pelas pessoas. “Uma das coisas que mais pesou na minha decisão é que, na minha cabeça, as meninas que tinham cabelo liso eram mais felizes, tinham mais amigos e eram mais facilmente aceitas em qualquer roda de amigos”, revela a universitária.

Partindo dessa premissa, ter o cabelo liso passou a ser o sonho de muitas meninas, pois estas acreditavam que assim finalmente seriam aceitas e consideradas bonitas. Quem decide voltar a ter o cabelo natural passa pelo processo de transição capilar, ou seja, acontece quando uma pessoa resolve parar de utilizar qualquer procedimento químico, tendo como objetivo transformar a estrutura natural do cabelo. Logo, se você já fez qualquer química transformadora e decidiu voltar a ter seu cabelo natural, você está passando por esse processo.

Mas porque passar pela transição?

São muitos os motivos que levam essa tomada de decisão. A mais importante de todas, sem dúvidas, é a aceitação do cabelo natural e em seguida, a ideia de que todo o sofrimento devido às constantes químicas não vale a pena. As meninas que optam por alisar o cabelo desde cedo, não tiveram incentivo para que vissem seus cabelos de outra forma.  Nesses casos, é comum que mães e tias de tais garotas também alisem seus cabelos,  o que faz com que as crianças não entendam o motivo de seus cabelos  serem crespos ou cacheados. “Eu vi que o cabelo da minha filha começou a arrolar e na semana passada quando percebi isso assisti uma reportagem sobre crianças que não eram felizes por conta do cabelo enrolado”, conta a universitária, Nina Moreira, 25 anos. Nesse momento ela decidiu amar seu cabelo para assim ensinar a filha a fazer o mesmo.

Além disso, a mídia vinculou  com frequência que os cabelos lisos eram componente de um padrão de beleza ideal. O fato é que no Brasil, um país com boa parcela da população negra, o padrão de cabelo liso não pode ser identificado na maioria das pessoas. Assim, muitas mulheres escolheram passar por processos químicos, transformando a textura real de seus cabelos.

Outro motivo relevante para enfrentar a transição é a saúde do cabelo. Na verdade não só a do cabelo, mas a do corpo também. A longo prazo, os vários processos químicos tendem a destruir a estrutura dos fios, sendo que os cabelos ficam frágeis, secos, opacos e sofrem com a queda. Durante o alisamento, muitas vezes são utilizados produtos que contém amônia, o que  é prejudicial a saúde. No momento da aplicação do produto, por exemplo, é comum sentir ardência nos olhos, dor de cabeça e até tontura.

A importância do processo

Quando se passa pela transição capilar, o cabelo vai aparentar ter duas texturas. Nesse período a raiz vai nascer com o formato natural do seu cabelo, enquanto a parte das pontas permanecerá lisa. É difícil dizer que o cabelo vai ficar “bonito”, por isso é tão complicado de se lidar com ele nesta fase. Logo, optar pela transição capilar não é somente uma questão de parar de usar química e voltar ao seu cabelo natural, é também uma questão de finalmente descobrir sua identidade. É um ato político e de resistência aos padrões de beleza impostos pela sociedade.

Ao contrário do que a mídia publicitária teima em dizer, assumir o cabelo crespo ou cacheado não está na moda. Definir esse movimento como uma tendência momentânea é diminuir o significado de um ato político de luta e resistência. Aceitar seu cabelo como ele realmente é significa abrir caminhos para discussões que coloquem em pauta a valorização da estética negra e o empoderamento feminino diante de padrões preestabelecidos. Do ponto de vista da estudante, Ane Yume, 23 anos, a transição capilar nada mais é do que aceitação. “É você se amar da forma que é, e não se amar somente pela metade usando uma ‘máscara lisa’ por cima dos caracóis dos cabelos”.

Como passar pela transição capilar

Lidar com o cabelo durante esse momento é complicado, em especial por causa da insegurança, e assim a autoestima vai lá para baixo e vem a vontade de desistir. Porém nem tudo está perdido. Existem alguns cuidados que você pode ter que irão tornar essa fase menos difícil:

Texturizações: existem de vários tipos, sendo que elas podem ajudar a igualar a textura do cabelo. Na internet é possível encontrar vídeos de tutorias.

– Tranças sintéticas: é uma ótima opção para passar pela transição. Elas são práticas e estilosas.

– Babyliss/chapinha: é uma boa opção para igualar a textura do cabelo, porém é preciso ter cuidado redobrado com os fios, pois o uso constante de fontes de calor acaba danificando o cabelo.

– BIG CHOP (grande corte): ao invés de esperar todo o cabelo crescer e cortar as pontas aos poucos, muitas meninas optam por tirar todo o cabelo alisado de uma vez só.

A universitária, Mariana Coelho,  conta que dessas técnicas optou por  fazer o “BIG CHOP” e defende a escolha como uma experiência libertadora. “Diferente da maioria das meninas que passam pelo processo de transição antes de cortar toda a parte quimicamente alisada, eu resolvi raspar todo o meu cabelo de uma vez e passei máquina dois na cabeça. Fiquei careca mesmo”. Coelho explica que algumas pessoas acharam sua atitude extrema, mas para ela fazer aquilo foi um ato de liberdade, pois um tempo antes de raspar o cabelo, ela já sentia que este não lhe pertencia mais. Não só em questões de beleza, mas também de ideologia.

Mariana raspou todo o cabelo com química e diz garante que foi uma escolha libertadora. (Crédito: Mariana Coelho)

Mariana raspou todo o cabelo com química e garante que foi uma escolha libertadora. (Crédito: Mariana Coelho)

 NO e LOW POO

A técnica foi divulgada pela cabeleira Lorraine Massey, fundadora da marca Deva Curl.  O termo “NO POO”, traduzido para o português, significa sem shampoo, enquanto “LOW POO”, pouco shampoo. Segundo Lorraine,  a utilização dos shampoos que contêm sulfato danifica muito o cabelo. Esta é uma substância que realiza a limpeza profunda nos fios e, a longo prazo, pode causar o ressecamento e perda da oleosidade natural do couro cabeludo. Os cabelos cacheados e crespos são naturalmente mais secos, logo o uso constante de sulfato pode gerar extremo ressecamento.

Dessa forma a técnica consiste em utilizar pouco  ou nenhum shampoo para promover a limpeza do cabelo.  No “NO POO” é dispensado qualquer uso de shampoo para lavar os fios. Os adeptos ao “NO POO” não utilizam produtos  que tenham na composição petrolatos, óleos minerais, vaselina, parafina líquida ou silicones não solúveis em água. Para realizar a limpeza, é utilizada a técnica conhecida como CO-WASH. A  lavagem dos fios é feita com condicionador que possui agentes limpantes, porém ele não pode conter petrolatos ou silicones insolúveis, ou seja,  o produto promove uma limpeza mais suave no cabelo. Outra alternativa é fazer enxagues com vinagre ou bicarbonato de sódio.

Já no “LOW POO” o shampoo ainda é utilizado para lavar os cabelos, porém ele não pode conter sulfato em sua composição.  Portanto, a limpeza dos fios é feita com um shampoo mais suave e que não irá agredir tanto os fios como os produtos que contém sulfato. Assim como no “NO POO”, não é permitido também a utilização de produtos que possuem petrolatos, óleos minerais, parafina líquida e silicones  insolúveis em água.

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