Passeata reivindica fim da violência contra mulheres na Espanha

Evento reuniu milhares de pessoas no centro da capital do país, incluindo representantes de partidos políticos

Luis Henrique Negrelli

Milhares de pessoas de toda a Espanha participaram de um protesto na cidade de Madri, no último dia sete. A manifestação pediu mais rigor no combate à violência contra a mulher, exigindo que o assunto passe a ser visto como uma questão de Estado. Mulheres e homens vestidos de roxo percorreram as ruas do centro da capital espanhola, depois de serem convocados por mais de 400 coletivos feministas do país.

Na linha de frente do movimento havia um cartaz com o lema “contra as agressões machistas”. Pessoas em meio à passeata gritavam frases, tais como “não estamos todas, faltam as mortas” e “a luta será feminista ou não será”. O protesto teve a intenção de expor a indignação ante os assassinatos de mulheres. Dados divulgados pelo governo mostram que, desde o começo deste ano, 41 foram mortas por parceiros e ex-parceiros no país – somente sete delas tinham feito denúncias anteriormente.

A Espanha possui uma das legislações mais avançadas do mundo no que diz respeito ao combate à violência contra a mulher. Em 2004, o então presidente, José Luis Zapatero, aprovou uma lei pioneira nesse quesito. O texto propunha medidas de assistência, proteção e políticas para igualdade de direitos. Desde então, os casos de morte diminuíram: foram de 71 em 2003 para 54 no ano passado.

LUIS HENRIQUE Passeata reivindica fim da violência contra as mulheres na Espanha - Imagem 1

Desde 2003, foram mais de 800 vítimas fatais de violência contra a mulher na Espanha. (Créditos: Samuel Sánchez)

O doutor em Direito e Sociologia pela Universidad de Salamanca (USAL), Wladimir Cerveira de Alencar, destaca que passeatas como esta mostram que não há conformismo, que é necessário discutir o tema e que as vítimas não devem se calar. “A importância [da passeata] está na ideia de que é preciso reconhecer que a violência contra a mulher é um problema social real que exige medidas públicas concretas de combate”, completa.

Em campanha para as eleições legislativas de dezembro, membros de todos os partidos políticos compareceram à marcha, como o esquerdista Pablo Iglesias e o socialista Pedro Sánchez. Caroline Kraus Luvizotto, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), comenta sobre essa participação. “É importante o envolvimento de partidos políticos nessas mobilizações: não enquanto promotores, mas como atores sociais, eles devem se aproximar das demandas populares e participar de ações que visem mudança política e social”, explica.

Segundo Alencar, as grandes organizações têm desempenhado um papel importante na luta pela igualdade de gênero. “A Organização das Nações Unidas e a União Europeia têm se empenhado em incentivar os países a adotarem políticas públicas e legislações específicas para combater a violência contra a mulher, assim como pautas de igualdade entre gêneros”, declara. Para Luvizotto, mais ações devem ser tomadas para “minimizar a desigualdade, a discriminação, a violência”. Ela ainda complementa que a participação popular é essencial e deve ser considerada uma vitória, já que é muito difícil mobilizar pessoas em torno de uma causa.

A Espanha, desde 2007, tem sido uma das nações que mais sofre com a crise econômica na Europa. Juntamente com Grécia e Portugal, o país enfrentou períodos de recessão, aumento da dívida e desemprego. Esses fatores trouxeram mais dificuldades para mulheres que sofrem violência doméstica, já que muitas não conseguem deixar seus agressores por falta de recursos e de um local para onde ir.

 “Com a crise financeira, o orçamento público espanhol sofreu cortes em várias áreas sociais – inclusive os setores dedicados a este tema [da violência contra a mulher]”, afirma Alencar. “Isso reforça a importância da mobilização popular com o apoio de representantes políticos, para mais uma vez colocar o assunto como pauta política de destaque do governo”, reitera.

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