Greve dos caminhoneiros aponta a dependência do transporte rodoviário no Brasil

Governo Federal classificou as paralisações como atos políticos

Aressa Joel Muniz

O protesto dos caminhoneiros teve início no dia 9 desse mês e a principal reinvindicação é a cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff, assim como de Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e de Renan Calheiros, presidente do Senado e contam com o apoio de movimentos sociais como Vem Pra Rua, Revoltados Online, Avança Brasil Maçons BR e o Movimento Brasil Livre.

Em um dos vídeos que circulam nas redes sociais, Marcello Reis, do Revoltados Online, aparece ao lado de Ivar Schmidt, um dos líderes do Comando de Transporte Rodoviário (CNT), e defende o “fora Dilma”.

Através de mensagens postadas no Facebook, Ivar deixa claro que a principal reivindicação deste protesto é o impeachment. “Os caminhoneiros acordaram e vão acordar o País também. Não estamos mais fazendo paralisação por nós, agora é pelo Brasil”, diz, em um dos vídeos disponíveis na página do movimento na rede social.

Tradicionalmente, os caminhoneiros defendem, entre outras coisas, o tabelamento dos preços do frete, a redução do valor do diesel e a melhoria das condições das estradas. De acordo com o CNT, há dez reivindicações na pauta grevista, entre eles a redução do preço do diesel, a criação de uma tabela com valor mínimo de frete, aposentadoria com 25 anos de contribuição e anulação das multas relativas à greve de fevereiro.

Caminhoneiros se preparam para manifestação em Brasília

Manifestações se encerraram em Brasília, no último Domingo (Valter Campanato/Agência Brasil)

Grande parte das entidades que representam a categoria dos caminhoneiros autônomos não apoia a mobilização e critica o fato de a principal reivindicação do ato ser política – a saída da presidente Dilma.

A União Nacional de Caminhoneiros  afirma que “respeita os movimentos sociais, mas não apoia a paralisação porque entende que, nesse momento, não é benéfico para o País provocar um caos nas rodovias”. “Entendemos que uma roda de negociações com o governo seria mais vantajosa para a categoria”, expressou por meio de assessoria de imprensa.

A Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo (Fetrabens) também se pronunciou em comunicado oficial: “A Fetrabens e todos os sindicatos filiados no Estado de São Paulo não participam nem apoiam nenhum tipo de movimento paredista ou social, que venha falar em nome da categoria dos Transportadores Autônomos de Carga.”

O governo federal caracteriza a greve como tendo o único objetivo de gerar desgaste político, disse o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Edinho Silva. Como resposta a paralização, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou a aplicação de multas e, se preciso, o uso da força pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) para desobstruir rodovias bloqueadas pelos caminhoneiros. Em entrevista a Folha Nobre, o ministro defendeu o direito de manifestação, mas argumentou que “ninguém tem o direito de se manifestar trazendo prejuízo à sociedade”.

Atualmente, o Código Nacional de Trânsito prevê uma multa de R$ 1.915 para quem promover nas vias públicas competição, eventos organizados, exibição e demonstração de perícia sem permissão da autoridade de trânsito. No caso da obstrução deliberada com o uso de veículo, o condutor será enquadrado em uma infração gravíssima e será aplicada uma multa de trânsito de R$ 5.746, podendo dobrar o valor para R$ 11.492 em caso de reincidência.

Até o dia 9 de novembro, o Boletim da Polícia Rodoviária Federal (PRF), informava a ocorrência de manifestações em 11 Estados: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins.

Segundo boletim da PRF, no dia 13 desse mês apenas um ponto de bloqueio foi registrado, em Colinas do Tocantins (TO). A rodovia estava interditada parcialmente, apenas para caminhões, mas os manifestantes liberaram o trecho por volta das 17h. Neste sábado (14), os caminhoneiros protestaram na BR-020, saída para Formosa (GO). Já para este domingo, dia 15, eles se reuniram, a partir das 10h, em frente ao Congresso Nacional, em Brasília.

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Paralisações anteriores prejudicaram escoamento de produção (foto: pixabay)

Impacto

Trata-se da terceira manifestação do setor neste ano. Em fevereiro, a paralisação em Santa Catarina durou um mês. Os prejuízos no setor leiteiro ultrapassaram os R$ 20 milhões.

O Amazonas também poderá sofrer por conta da greve, nos próximos dias, com o desabastecimento de componentes usados na produção do Polo Industrial de Manaus (PIM), combustíveis e até mesmo alimentos como o frango. A constatação foi feita por especialistas de setores como a indústria e o comércio.

Importância das rodovias

As rodovias representam mais de 90% do transporte de passageiros e mais de 55% do transporte de cargas, aponta o doutor em engenharia do transporte, José Leomar. Dessa forma, atuam como principal forma de escoamento da produção interna. “Quando comparamos com países que nos servem de referência, percebemos que os transportes não ficam concentrados em único modo.” completa.

De acordo com o Gerente de Transportes e Rodovias da AGETRANSP-RJA, José Luiz Teixeira, a paralização das rodovias trazem consequências como o aumento dos custos operacionais e perda de capacidade em um sistema de transporte de cargas que já não apresenta preços competitivos no mercado internacional.

No entanto, as alternativas ao transporte rodoviário são escassas. O Brasil poderia contar com as ferrovias interioranas ligando os portos, bem como a navegação de cabotagem. Porém, com a falta de investimento nessas alternativas, “o Brasil fica sem alternativa para escoamento de cargas e de pessoas”, defende o professor do Departamento de Engenharia de Transportes e Geotecnia  da Escola de engenharia da UFMG,  Nilson Tadeu Ramos Nunes.

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Rodovias são responsáveis por mais da metade do transporte de cargas (Foto:  José Cruz/ Agência Brasil)

Alternativas

Segundo o Ministério dos Transportes , o Brasil possui 28 mil quilômetros de ferrovias. A própria Argentina – bem menor que o Brasil -, possui mais de 35.000 km de ferrovias e os Estados Unidos, mais de 200 mil.

O doutor em engenharia dos transportes Eiji Kawamoto, aponta que outros meios como navios ou aviões requerem portos/aeroportos que não podem ser construídos em qualquer lugar e, além disso, não fazem transporte porta a porta, o que praticamente obriga o uso das rodovias para complementar o transporte.

Já Luiz Teixeira chama a atenção para a falta de capacidade instalada nos demais modos de transporte para suprir de forma adequada as necessidades de carga nos tempos determinados pelo mercado de exportações.

O prejuízo ficará por conta dos próprios transportadores, pois os aumentos nos fretes necessariamente têm que estar considerados no custo de transporte de quem contrata, no caso, o mercado internacional, ou então diminuir as margens dos produtores, que já são muito pequenas na maioria dos casos. Esse aumento não estaria associado a qualquer aumento no valor agregado e sim ao resultado das ineficiências internas de nossa infraestrutura. Será muito difícil repassar esse aumento para os produtores ou para os compradores, esclarece Teixeira.

Não há transporte alternativo que possa dispensar o uso das rodovias. Seu bloqueio acarreta consequências negativas para toda a sociedade, como a paralisação da produção nas fábricas que dependem das cargas, a deterioração de produtos perecíveis e a elevação de preço de mercadorias causada pela sua escassez em alguns mercados, aponta o doutor Kawamoto. Das alternativas existentes, o Brasil encontra-se em desvantagens em todas elas e, principalmente, no setor ferroviário.

 

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