Líbano é palco de manifestações contra “Governo do Lixo”

Centenas de pessoas ficaram feridas durante conflitos entre policiais e civis

Mariana Cajado

Entre os dias 22 e 23 de agosto, manifestantes libaneses protestaram contra o atual governo em Beirute, capital do país.  E concentração de pessoas foi em frente ao escritório e residência do primeiro-ministro do LÍbano, Tamamm Salam. Os manifestantes criticaram a corrupção no sistema político e reivindicaram uma solução na crise do lixo pela qual o país passa, o que explica o nome de “Governo do Lixo” utilizado nos protestos. A polícia reagiu de maneira violenta com jatos d’agua, pedras e gás lacrimogênio. Em discurso à televisão local, Salam disse que quem abusou da violência será punido.

O problema com o lixo teve início quando o despejo de Naame foi fechado e não houve renovação de contrato com a empresa coletora por falta de consenso do parlamento. A sujeira começou a ficar acumulada nas ruas, o que gerou a revolta da população. No primeiro dia, a manifestação foi pacífica e o primeiro-ministro afirmou que a situação poderia levá-lo a renunciar. Os manifestantes rejeitaram a declaração com violência e tentaram atravessar a cerca de arame farpado em frente à sede do ministro.

Jorge Mortean, mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio pela “Escola de Relações Internacionais do Ministério de Relações Exteriores do Irã”, afirma que a crise mostra a conturbada estrutura governamental que o país dispõe porque reflete que nenhuma parte do Estado libanês conversa entre si. “Seja ela a sociedade ou o governo, os políticos libaneses, por uma questão de apoio e popularidade, acabam priorizando a alocação de recursos onde geralmente estão seus eleitores pertencentes à sua religião, e essa política reflete o quão corruptível é todo este jogo de poder naquele país”.

Um dos grupos líderes das manifestações tem formação online e é chamado de "Você fede". (Crédito: AP Photo / Hassan Ammar).

Um dos grupos líderes das manifestações tem formação online e é chamado de “Você fede”. (Crédito: AP Photo / Hassan Ammar).

O Líbano não tem um presidente desde 2014 pois o Parlamento não consegue um número suficiente de votos em comum. Isso acontece por conta do chamado “Pacto Nacional” que decreta que todos os segmentos religiosos do país deves ter representação igualitária dentro do sistema político. Mortean afirma que o sentimento nacional libanês é inconstante e o poder distribuído entre as diferentes fés acabam enfraquecendo o país. “Muçulmanos sunitas tendem a querer uma aproximação ideológica com vizinhos sunitas; os xiitas, com o Irã e os cristãos, melhor educados e que agora são minoritários, acabam emigrando em busca de melhores oportunidades profissionais e menos conflitos, deixando ainda mais desproporcional todo este jogo sociopolítico”, completa.

Ele também ressalta que a origem das divergências religiosas no país está na guerra ocorrida entre 1975 e 1991. O conflito surgiu pela divergência entre cristãos (contra a permanência palestina no sul do Líbano), muçulmanos (defensores da permanência dos palestinos) e o Hezbollah, grupo palestino fundamentalista. Como consequência, houve a devastação da capital e o enfraquecimento da economia do país – que, atualmente, possui uma dívida externa de 143% do seu Produto Interno Bruto. Tal fator foi amplificado com a interferência dos problemas da Síria, país próximo e aliado econômico, que se encontra em guerra civil desde 2011.

“O Líbano não só carece de uma conciliação doméstica como também sofre fortemente influências dos países vizinhos, virando meio que um ‘campo neutro’ para disputas e rivalidades regionais, acabando por agravar ainda mais sua situação política”, comenta Mortean. Além disso, o especialista também destaca que as manifestações atuais podem ser positivas para uma reforma geral nas instituições libanesas e para uma maior consciência da população como detentora do poder público.

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