Photoshop: vilão ou vítima?

Até onde o Photoshop pode ser utilizado como ferramenta de manipulação e influenciar tanto a vida de alguém

Sofia Hermoso

Diariamente a percepção de realidade é alterada em revistas, propagandas e fotografias em geral, devido ao uso do Photoshop e de outros programas de edição de imagens. A utilização desses programas não é o que deve ser questionado, mas sim a forma como são utilizados. Geralmente, o excesso de edição deforma e transforma a aparência de famosos, o que causa um desconforto neles mesmos e também na população comum, principalmente em mulheres jovens, uma vez que acabam caindo na não aceitação do próprio corpo e/ou aparência.

Essa recusa em aceitar a realidade e a busca interminável por certos padrões de beleza é um fator que pode desencadear uma baixa autoestima e uma tendência a desenvolver doenças como depressão, anorexia e bulimia, além da autoflagelação. A estudante em Nutrição da UFPR e autora do blog “Não sou exposição”, Paola Altheia, acredita que o Photoshop é um agravante na ditadura da beleza, uma vez que ele cria, muitas vezes, o impossível. “Acredito, sim, que o uso do Photoshop piora a situação porque cria imagens completamente desprovidas de defeitos e faz o público pensar que tal imagem é possível ou mesmo atingível por meio de esforço e “força de vontade”. Também provocam imagem corporal negativa porque inevitavelmente, irá ocorrer uma comparação entre as imagens digitalmente retocadas e o receptor”, explica a blogueira.

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A diferença entre o real e o manipulado pode causar desconforto e criar uma cultura de busca intensa pela perfeição. (Crédito: Getty Images)

Estrias, celulites, rugas e gordurinhas não são características aceitas na indústria da beleza idealizada e padronizada, por isso, essa indústria não contempla a realidade. A manipulação exagerada vem sendo questionada tanto por mulheres comuns, cansadas de se submeterem a exaustivos e inalcançáveis padrões, quanto por mulheres famosas que tiveram suas fotografias alteradas de forma extrema e estão dispostas a assumir suas imperfeições e acabar com o ideal de perfeição que existe em cima de celebridades.

Em 2014, algumas dessas mulheres foram convidadas a participar de uma campanha em que aparecem sem maquiagem. “Sinto que tais campanhas podem acabar focando na beleza e atratividade do mesmo jeito. É como se elas estivessem dizendo “eu continuo bonita”, fato que transmite a mensagem de que a obrigação e a missão de vida de toda mulher é ser atraente aos olhos de terceiros em todos os momentos da vida (“bonita mesmo sem maquiagem”). Gosto mais de campanhas que focam nas habilidades e talentos das mulheres, sem limitar a mensagem meramente ao aspecto físico. Um exemplo é “like a girl”, da Always”, comenta a blogueira Paola.

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Da esquerda para direita: Sabrina Sato, Ticiane Pinheiro e Paloma Bernardi são algumas das famosas que aceitaram participar da campanha de cara lavada. (Créditos: Reprodução R7/ Cristiano Madureira).

É comum nos depararmos com exemplos de imagens grosseiramente editadas, pois na tentativa de modificá-las, alguns publicitários e editores de revistas acabam deixando a imagem estranha e irreal. Entretanto, essas ferramentas não podem ser vistas simplesmente como vilãs, já que quem as utiliza de forma equivocada é o homem. “Acredito que um dos grandes benefícios do uso destes programas é o aumento da velocidade de pós-produção das imagens”, defende Adriana Ferreira, Mestre em Fotografia e Cinema pela UFMG. “Modificar a realidade não é benefício exclusivo do Photoshop e afins. A partir do momento em que um fotógrafo escolhe o tipo de câmera, objetivas e acessórios que pretende usar para fazer uma fotografia, e quando escolhe o enquadramento, de alguma forma ele já está manipulando a realidade”, completa.

Além disso, a facilidade de editar qualquer foto através de novas tecnologias e aplicativos, torna qualquer tipo de situação manipulável e, quando confrontada com a vida virtual, a realidade pode causar um mal-estar. Sobre a manipulação da fotografia em âmbito pessoal, a blogueira Paola afirma: “É como se o usual fosse a imagem tratada, e a verdadeira aparência, uma exceção. Também contribui para o exibicionismo, individualismo e o desenvolvimento de dependência da aprovação do outro. É se desconhecer. É se afastar de si mesmo. É viver de ilusão”.

Se o Photoshop e outros editores de imagens são os vilões ou as vítimas, cabe a quem as usa determinar. O mais importante é sempre lembrar que tudo aquilo que vemos não é necessariamente real e não precisamos nos comparar a todo instante com uma coisa que não deve e nem precisa ser alcançada. Aceitar cada realidade e incentivar a cultura do “natural”  é a melhor arma contra essa cultura padronizada.

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