Crise na TV Cultura chama atenção para a importância da televisão pública no Brasil

Demissões em massa e cortes de programas levaram funcionários a criar a campanha “Eu Quero a Cultura Viva”

Aressa Muniz

A TV Cultura foi lançada em junho de 1960, após 10 anos da chegada da televisão no Brasil. Nasceu como uma iniciativa privada, filiada do Diários de Emissoras Associados de Assis Chateaubriand. Apenas em 1967 a emissora passa para o controle do estado e começa a ser administrada pela Fundação Padre Anchieta.

Desde o seu nascimento, porém, era claro seus objetivos: informar e educar de forma divertida. A TV Cultura marcou época, principalmente com programas infantis como “Castelo Rá-Tim-Bum”, “X-Tudo”, “Confissões de Adolescente”, “Mundo da Lua”, “Cocoricó” e outros. Programas como “Roda-Viva” e “Ensaio e Vitrine” também servem de referência à qualidade da emissora.

Seu melhor momento ocorreu na gestão do jornalista Roberto Muylaert, que conseguiu realizar mudanças importantes como transformar a Cultura em uma emissora pública, inspirando-se nos modelos televisivos norte-americanos. A audiência nesse período foi grande, a emissora ganhou alguns prêmios e estava bem organizada.

Débora Burini, professora doutora do Departamento de Artes e Comunicação na Universidade Federal de São Carlos, especialista em informação, democratização e tv pública, enfatiza a importância desse tipo de meio de comunicação público: “O sistema de radiodifusão público possibilita a concretização dos direitos à educação e à cultura por intermédio das televisões educativas”.

Na gestão seguinte, o jornalista Jorge da Cunha Lima teve que lidar com a dívida deixada pelo seu antecessor. Começou então um período delicado, com déficits financeiros e a necessidade de uma reestruturação da emissora. Para obter verbas, o jornalista tentou incentivar a venda de produtos, como VHS de programas do canal e o aluguel de estúdios para gravação. Em 2004, tem fim a sua gestão e se inicia a gestão atual, de Marcos Mendonça.

Nessa gestão, a TV Cultura enfrentou e vem enfrentando algumas modificações, como a entrada de produções terceirizadas e, consequente, enfraquecimento da produção própria além da entrega de horários da programação para meios de comunicação privados.  Esse processo vem acompanhado de alguns cortes de funcionários e a extinção de diversos programas como Zoom, Viola Minha Viola, Vitrine, Cocoricó, Pé na Rua e Bem Brasil.

Em resposta a esse processo, funcionários da emissora iniciaram a campanha “Eu quero a cultura viva”. Organizadores do movimento afirmaram em uma petição online: “queremos a Cultura Viva, refletindo a diversidade e a pluralidade do povo paulista e brasileiro. Queremos a Cultura Viva, mas queremos que ela seja ainda mais pública, que ouça a sociedade, que espelhe de forma criativa a complexidade e a efervescência cultural do nosso estado e do Brasil”.

A professora Débora Burini chama a atenção para o papel da televisão pública: “o direito e o acesso à informação multifacetada e produzida por diferentes atores sociais tem um papel fundamental para garantir a diversidade cultural e contribuir para a formação crítica do cidadão”. Segundo Marcos Mendonça, para enfrentar a atual crise financeira e o corte efetuado pelo governo, a emissora busca mais publicidade, patrocinadores e uma reestruturação na programação, buscando o aumento da audiência.

Com o advento da Era Digital, a televisão, tanto pública quanto comercial, precisa de reformulações. “Os novos ambientes de comunicação vão unir cada vez mais soluções textuais, visuais e audiovisuais em uma forma integrada e atraente, que altera os conceitos clássicos de emissão, recepção e produção, e que está em constante construção e reelaboração. Estamos vivenciando a Era Digital, um momento de transformação da lógica de comunicação de massa, para uma comunicação multilateral e colaborativa” afirma Débora sobre essas mudanças.

Campanha "Eu Quero a Cultura Viva" coloca em debate a situação da TV pública no Brasil. (Foto: Divulgação)

Campanha “Eu Quero a Cultura Viva” coloca em debate a situação da TV pública no Brasil. (Foto: Divulgação)

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