Rádio se adequa ao novo panorama da era digital

Mudanças de plataforma, de dial e de conteúdo fazem parte da nova realidade radiofônica no Brasil

Aressa Muniz

Desde a chegada da TV, o rádio – um dos meios de comunicação mais antigo – vem sofrendo alterações para se manter vivo no Brasil. Mesmo aparentemente esquecido, o rádio ainda é muito utilizado por grande parte da população brasileira. Com as novas tecnologias, a radiodifusão continua tentando a se adaptar e se manter presente na vida dos brasileiros.

O fitoterapeuta anônimo, o físico italiano e a Voz do Brasil

No dia 10 de junho de 1893, um jornal do Rio de Janeiro relatava a experiência do padre gaúcho Roberto Landell de Moura, que fizera diversas descobertas sobre a propagação do som. Sem recursos financeiros, ele jamais patenteou seus inventos. Terminou sua vida como um fitoterapeuta frustrado. Cinco anos mais tarde, Guglielmo Marconi patenteava o telégrafo e a radiodifusão.

No Brasil, o rádio nasceu oficialmente apenas em 1922, nas comemorações do centenário da independência, com a voz do então presidente, Epitácio Pessoa, ressoando a distancia e sem fios. Em apenas dois anos, já eram muitas as emissoras em operação. A regulamentação da atividade, porém, só chegou com o primeiro governo de Getúlio Vargas. O então presidente tomou medidas como adotar integralmente o modelo de radiodifusão norte-americano, a concessão de canais a particulares e a legalização da propaganda comercial. Vargas muda o panorama radiofônico ao transformá-lo em um meio de comunicação de massa.

Em 1934, Getúlio Vargas institui o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Era uma forma de controle de informações feita pelo Estado. Através do rádio (Hora do Brasil), Vargas dava forma ao marketing político, criando sua imagem com a população. Nos dias atuais, a Hora do Brasil passou a se chamar “Voz do Brasil”, atuando como programa sobre as principais notícias do país.

Após a dissolução do congresso em 1937 e a implantação do Estado Novo, o rádio ganha novo espaço. Com a revolução constitucionalista, ele se mostra importante meio de integração da sociedade. Com a Segunda Guerra em andamento, o rádio se torna um veículo com grande influência ideológica e cultural.

Em 1938, o Brasil para de ouvir transmissões da Copa do Mundo e se volta para as transmissões jornalísticas. Afinal, era a Segunda Grande Guerra logo ao lado. A criação de um código Brasileiro de Radiodifusão havia sido esquecido, e foi retomado apenas em 1962 com o presidente João Goulart que sancionou o primeiro Código Brasileiro de Telecomunicações.

Rádio: um importante meio de comunicação no Brasil (Foto: Getty Images / Thanasis Zovoilis)

Rádio: um importante meio de comunicação no Brasil (Foto: Getty Images / Thanasis Zovoilis)

O velho hábito

O rádio alcança a maioria dos lugares e pessoas, basta querer ouvi-lo. Seja na ida ao trabalho, na caminhada matutina ou no almoço de domingo, lá está ele. O rádio informa de forma rápida e favorece a comunicação, além de ser um meio de fácil aquisição.Segundo dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República , o rádio representa o segundo meio de comunicação mais utilizado pela população brasileira. Cerca de 30% da população ouve o rádio todos os dias da semana, geralmente das 6h às 9h, durante quase 4 horas.

Desde a era Vargas, quando o rádio era usado como um difusor de ideologias, e até mesmo de aproximação do estado com a população, esse meio vem se modificando. Temos programas culturais, ouvimos músicas, ficamos sabendo como está o transito, nos informamos e até nos comunicamos através dele. Uma pesquisa Ibope, realizada em julho deste ano, mostra que 89% da população de 13 regiões metropolitanas do país são ouvintes do veículo.

O Brasil possui um dos maiores índices de analfabetismo do mundo. Segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao ano de 2012 , cerca 13 milhões de brasileiros são analfabetos e, portanto, não leem os jornais ou blogs. O rádio atende essas pessoas, assim como a televisão. Mas a televisão não pode estar em todos os lugares, alem de possuir um valor mais elevado.

Concorrentes à altura

Desde seu surgimento, o rádio tem enfrentado ‘concorrentes’, tais como a televisão. O páreo, agora, é o mundo digital, com a internet, o celular e outras tecnologias que surgem numa velocidade incrível”, declarou o doutor Moacir Barbosa De Sousa, Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

No Brasil, o rádio ainda se mostra um importante meio de comunicação em massa. Mas há sempre a necessidade de se reformar. Afinal, com a chegada da televisão, o rádio perdeu um pouco do seu espaço. E, com a ascensão das novas tecnologias, o rádio precisa não só conquistar um novo espaço no cotidiano das pessoas, como também aprender a penetrar em uma realidade cada vez mais digital.

Com uma visão mais positiva, Francisco Brinati, professor no curso de Comunicação Social na Universidade Federal de São João Del Rei, comenta que essa intersecção entre as mídias digitais e os meios radiofônicos já vêm acontecendo: “A abrangência do rádio e a convergência com as novas tecnologias têm contribuído para que ele alcance uma parcela significativa da sociedade e se mantenha como influente meio de comunicação.”

A realidade radiofônica pautada por Moacir alerta sobre a criação de novas linguagens adaptadas ao meio radiofônico.  “Acredito que haja o perigo da extinção do rádio. O que restará, porém, serão traços de suas características absorvidas pelas novas tecnologias”, afirma o professor.

No atual contexto da população brasileira, que possui o hábito de escutar o rádio arraigado em sua cultura, a extinção do veículo em um futuro próximo é pouco provável. Segundo Brinati, “o rádio se reinventou e, ao contrário de muitos ‘apocalípticos’ que previam o fim de veículo, se fortaleceu e vem encontrando o seu lugar nessa nova “organização” dos meios de comunicação na sociedade.”.

A mudança de hábito

Segundo o Ministério das Comunicações, aproximadamente 80% das emissoras do país já transmitem sua programação pela rede mundial de computadores. Ouvir o conteúdo das emissoras através de sites, podcasts e aplicativos para smatphones já virou um hábito recorrente para muitas pessoas, principalmente da nova geração.

A interação do conteúdo radiofônico com o conteúdo digital demonstra uma forma eficiente de se criar um território em que os novos meios tecnológicos atuem de maneira a reinventar a realidade desse meio.

Além de terem que lidar com a nova realidade digital, as emissoras que atuam nas estações de amplitude modulada (AM) agora precisam migrar para a frequência modulada (FM). A mudança ocorreu para fortalecer essas estações, uma vez que a dificuldade de sintonização por parte dos ouvintes acarretou certo abandono do dial.

Moacir explica que “a Frequência Modulada era restrita a música erudita, devido à potencialidade do som estéreo. Os programas irradiados em Amplitude Modulada seguiam os modelos que existiam no rádio até então e eram mais populares. Com o decorrer do tempo, por questões principalmente comerciais e de pouca audiência, as estações FM passaram a irradiar programas na linha dos que eram veiculados pelas AM.”.

Como toda mudança, a migração acarreta aspectos positivos e negativos. Segundo Francisco Brinati, “se por um lado, melhora a qualidade do sinal, por outro, teremos a perda de audiência em lugares mais remotos do país. Por mais que o acesso às estações FM seja mais fácil hoje, alguns aparelhos AM terão que ser adaptados”.

Segundo Luciano Victor Barros Maluly, professor doutor em Comunicação Social, com ênfase em Radiojornalismo na Universidade Estadual de São Paulo, “a questão não é o meio, se AM ou FM, mas o conteúdo. Se as emissoras de rádio começarem a prestigiar a diversidade e se livrarem da ditadura editorial imposta pelos grandes meios e das agências internacionais, o rádio encontrará um caminho e sobreviverá por anos”.

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