Registros da nudez: a exposição do corpo como arte, estilo de vida e arma política

A fotografia,o naturismo e os novos movimentos sociais propõem uma perspectiva não lasciva da nudez

Thais Modesto

Na Grécia Antiga, o corpo nu era considerado um objeto de admiração. A exibição e expressão do nu bem proporcionado representavam saúde, fertilidade e capacidade atlética, sendo constantemente apreciadas por sua beleza. Durante o Império Romano, o posicionamento da população acerca da nudez se assemelhava ao dos gregos. Nessa época, os banhos públicos romanos eram comuns, vistos não apenas como uma necessidade de higienização do corpo, mas também como uma oportunidade de relaxar, encontrar amigos e conhecer novas pessoas.

Ao longo do tempo, o conceito de “nudez” passou por diversas mudanças, deixando para trás a ideia de beleza e naturalidade das expressões corporais. Com a crescente influência das religiões cristãs na sociedade, o nu passou a receber conotações relacionadas à perversão e à malícia, sendo, por essa razão, condenado e repudiado. Na Idade Média, a Igreja influenciou o homem medieval, exercendo controle sobre seu corpo. Censurado pelo dogmatismo religioso, o corpo feminino começou a ser associado ao desejo e ao prazer da carne, que precisavam ser renunciados para que a alma fosse capaz de conquistar a salvação.

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Na Grécia Antiga, a nudez era tratada com naturalidade. (Créditos: Olhar Direto)

No processo de colonização do Novo Mundo, os jesuítas se depararam com indígenas nus e seus “maus costumes”. De acordo com a concepção europeia do período, verificada também nos primeiros relatos dos missionários, os problemas que impediam a boa conduta dos nativos tinham relação com o uso que eles faziam de seus corpos. O nu indígena representava, então, um ato de ofensa a Deus e deveria ser domado. Para salvar as almas de seus cativos, os jesuítas procuraram providenciar algo que pudesse cobrir suas vergonhas.

A recusa da nudez e a necessidade de cobrir o corpo, principalmente a genitália e os seios, exprimem a herança cultural cristã, que ainda faz parte da sociedade brasileira. Embora seja conhecido como o “país da libertinagem” e do Carnaval, o Brasil ainda vê o nu como tabu. O ato de expor o corpo é visto como algo negativo e socialmente reprimido, associado também ao pudor e à vulnerabilidade. Na tentativa de modificar tais percepções, os novos movimentos sociais, a fotografia e o naturismo propõem, à sua maneira, outra perspectiva da nudez, sem preconceitos e tabus.

Nudez e protesto

O nu como ferramenta política se tornou um fenômeno recorrente nos dias atuais, especialmente em movimentos feministas. Tudo aquilo que a cultura colocou como algo a ser escondido e reprimido, é usado como forma de expressão de grupos minoritários para chamar a atenção da mídia, do governo ou de uma instituição para suas causas, que são diversificadas e podem abarcar a desigualdade (social ou de gênero) ou, até mesmo, problemas rotineiros, como o desrespeito aos ciclistas no trânsito.

Na discussão sobre a questão do embate entre nudez e protesto, é importante evidenciar duas manifestações feministas de grande destaque na atualidade: o Femen e a Marcha das Vadias. O grupo feminista Femen, criado na Ucrânia em 2008, tem adotado o topless como “arma de campanha”. O objetivo é mostrar que o nu feminino não é um objeto sexual, uma mercadoria para o consumo masculino. Além disso, a nudez é empregada, nesse contexto, como modo de protesto contra o turismo sexual e a prostituição. Considerado uma das mais importantes organizações feministas em atividade na Europa, o Femen tem hoje fama mundial e representação em 27 países, entre os quais está o Brasil.

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Pedidos de legalização do aborto e denúncia ao feminicídio motivam manifestantes a se reunirem pela Marcha das Vadias 2015, em São Paulo. (Créditos: Reinaldo Canato/UOL)

Já o movimento Slut Walk, a Marcha das Vadias no Brasil, teve início no Canadá. No território brasileiro, esse protesto não diz respeito somente ao combate à culpabilização das mulheres pelo estupro, mas também à igualdade de gênero, ao fim do machismo e da violência doméstica, física e sexual.

Tanto a Marcha das Vadias quanto o ativismo do Femen usam o corpo para questionar as normas sociais de gênero e sexualidade, principalmente àquelas de apresentação do corpo feminino em locais públicos. As pessoas que apoiam esses movimentos acreditam que as mulheres, ao usarem a exposição do corpo como armas, inventaram um novo feminismo. Mas, para os críticos, esse ato é compreendido de maneira diferente, como a transformação das mulheres, que fazem uso dessas armas, em pornografia e promiscuidade.

Para o fotógrafo Sérgio Costa Vincent, o corpo nu adquire um sentido não lascivo como ferramenta de protesto e é eficaz na medida em que transmite uma mensagem. “A nudez deixa de ser vulgar e banal. Quando exerce um papel de protesto, ela torna-se inquietante, porque algo está sendo dito. Existe nela um fundamento, uma mensagem, que deve ser compreendida pela sociedade e pelos governos ou órgãos. O uso da nudez, enquanto arma política, torna-se efetivo se a causa e a mensagem são inteligíveis e coesas. Como instrumento de agressão ou choque, acredito que o nu não seja a melhor alternativa”, afirma.

Visão do corpo desassociada ao sexo é a proposta de manifestantes que usam a nudez como arma política. (Créditos: Sérgio Costa)

Responsável pelo projeto Abandonados, que reuniu voluntários nus para o protesto contra o fechamento de alguns espaços culturais públicos de Brasília, Sérgio comenta a mensagem que deseja passar com a sua obra: “Busco, acima de tudo, que meu trabalho seja reconhecido como arte. Quero que seja harmônico e belo, e espero que as pessoas façam sempre uma leitura artística e separem os (pré)conceitos imorais da beleza existente no nu. Desejo também que os meus nus sejam vistos como mensagens sólidas, tendo fundamento em causas artísticas e culturais”.

Nu artístico

Nas artes plásticas, no cinema e na fotografia, o nu também é muito presente. Apesar de ser vista como um ato embaraçoso e condenável, a exposição do corpo de forma artística tem recebido, nos dias atuais, mais espaço e aceitação, o que favorece a quebra de preconceitos e paradigmas que nos são impostos pela sociedade. “A cultura nos condiciona a pensar a nudez como algo anormal ou muito íntimo para ser mostrado a qualquer um. No entanto, essa questão de moralidade estabelecida, que visa algum controle social, não cabe. Não faz mais sentido”, diz o fotógrafo Jefferson Ramos.

Conduzido pela completa liberdade corporal, o nu artístico pretende desatar essas amarras sociais e trazer outra perspectiva da nudez, capturando a essência do corpo em sua totalidade, sem fazer apelo direto à pornografia e à erotização. Nesse sentido, o registro da nudez significa a produção de imagens que não representam as pessoas como objetos sexuais. A ideia é olhar o nu como uma obra de arte, exaltar a beleza humana e admirar sua sensualidade, sem recorrer ao que é vulgar.

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Atualmente, ainda existe a tendência de associar o nu artístico ao erotismo. (Créditos: Jorge Bispo)

Ramos explica que a decisão de trabalhar com o nu artístico partiu de sua admiração pelas peculiaridades dos corpos, especialmente do feminino. “O que me admira nas mulheres é, além da beleza, outras coisas que as acompanham, tais como a elegância, a leveza e a delicadeza. Essas características podem ser vistas também em corpos masculinos, mas não com a mesma intensidade ou sentido. Em uma sociedade que cresceu machista, a minha obrigação básica é valorizar as mulheres”.

Atualmente, as pessoas sentem vergonha do próprio corpo. Parece que são aceitos apenas os corpos que se encaixam na padronização da beleza disseminada por cada uma das sociedades. A tendência é então a busca incansável pela forma física ideal, geralmente baseada em ícones do mundo da música, da televisão e do cinema. No nu artístico, a percepção de nudez se transforma, podendo ganhar um sentido contrário, a de aceitação do corpo.

“O objetivo do meu trabalho está mais próximo dessa aceitação. Muitas mulheres procuram fotógrafos de nu para melhorarem seus egos, por curiosidade ou para desafiar familiares, amigos e namorados. Todas são motivações válidas. A meu ver, a mais encantadora está ligada à mulher que sabe exatamente o que está fazendo e o faz porque ama pura e simplesmente, sem levar em consideração os padrões de beleza atuais”, conta o fotógrafo.

Naturismo

Em meio a tantos rótulos e privações, várias pessoas decidem adotar o naturismo, um estilo de vida ao ar livre em que homens e mulheres, de faixas etárias variadas, praticam o nudismo, consomem alimentos naturais e incorporam a sua rotina um conjunto de princípios éticos e comportamentais, no qual o autorrespeito, o respeito ao próximo e ao meio ambiente são favorecidos. A proposta é permitir que seus adeptos vivam da maneira mais espontânea possível, deixando de lado os padrões de beleza que movem a maior parte das sociedades contemporâneas.

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Para os naturistas, estar nu em um ambiente público é um excelente exercício de liberdade e de aceitação do próprio corpo. (Créditos: Brasil Naturista/Divulgação)

Além de manterem uma relação harmônica com a natureza, os praticantes do naturismo recebem diversos benefícios físicos, espirituais, psicológicos e sociais. No plano social, o modo de vida cria um sentimento de abertura em relação a outras pessoas e muda a concepção de que o nu é símbolo de depravação; no psicológico e espiritual, possibilita a aceitação do corpo e a expressão da individualidade, sem que, para isso, se faça necessário o uso de roupas. Para os nudistas, a nudez também promove o bem-estar, tornando a pele nua um instrumento de percepção do mundo físico.

Assim como pensam os naturistas, a exposição do corpo em público não é um ato obsceno. Seja em uma praça, uma praia ou um parque, o nu é apenas o corpo de uma pessoa, desprovido de trajes. Não é um ato de natureza sexual, é somente a exibição de uma ou mais partes do corpo. Acima de tudo, corresponde a uma questão de liberdade do indivíduo, não de moralidade, como a mentalidade atrasada o coloca.

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