Distúrbios do sono: a transformação do sonho em pesadelo

Entenda as causas e os tratamentos dos impactos gerados pelos transtornos do sono

Thais Modesto

Dormir é uma necessidade fisiológica. Além de renovar a saúde física e mental dos indivíduos, o sono melhora o humor e a capacidade de raciocínio e concentração, reduz o estresse e os riscos de doenças cardíacas e vasculares, promovendo também um maior desempenho do sistema imunológico. Durante o sono, ocorre o descanso e reparo de células que trabalharam o dia todo e a eliminação de hormônios e outras substâncias, responsáveis também pela melhoria da qualidade de vida.

A professora da disciplina de Neurologia, Luciane Carvalho, da Unifesp, diz que os distúrbios do sono são quaisquer alterações que “perturbam a homeostase (estabilidade) do sono-vigília” e afetam o bem-estar. “São doenças que impedem que o período do sono tenha as funções esperadas. Uma pessoa tem distúrbio do sono quando não consegue dormir direito ou dorme demais, afetando seu desempenho diurno e trazendo prejuízos e sofrimento. Existem mais de 80 doenças do sono que impactam de maneiras diferentes a saúde das pessoas”.

De acordo com dados levantados pelo Instituto do Sono, 63% da população adulta do Brasil queixam-se de problemas relacionados ao sono. Na cidade de São Paulo, 36% da população têm dificuldade de manter o sono, 27% acordam antes do tempo necessário à reposição de energias e 25% apresentam dificuldade em adormecer.

“O paciente com distúrbios do sono pode ter queixas noturnas em relação aos roncos, pausas respiratórias e movimentos das pernas durante a noite. Entre os brasileiros, as queixas mais comuns se referem à insônia e à Síndrome da Apneia Obstrutiva do sono (SAOS), que é marcada por pausas respiratórias parciais ou completas, intermitentes, que ocorrem à noite”, ressalta a professora Silke Weber, da disciplina de Otorrinolaringologia, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) de Botucatu.

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A área da saúde que estuda as funções do sono é reconhecida por quatro especialidades médicas: psiquiatria, otorrinolaringologia, neurologia e pneumologia. (Créditos: Thinkstock)

Diagnóstico

Para diagnosticar esses distúrbios e tratá-los posteriormente, clínicos gerais e médicos do sono procuram submeter seus pacientes a exames específicos. Entre os procedimentos existentes, a polissonografia, é o mais solicitado. “É o monitoramento do sono por meio de aparelhos eletrônicos, realizado em laboratório especial, durante uma noite inteira”, explica Luciane.

Segundo ela, a polissonografia registra, de forma contínua, as variáveis fisiológicas durante o sono, tais como o eletroencéfalograma (EEG), o eletromiograma (EMG), eletrooculograma (EOG) e o eletrocardiograma (ECG), oxigenação do sangue e movimentos respiratórios. “O exame testa a atividade elétrica cerebral, os movimentos dos olhos e das pernas, o esforço respiratório, os batimentos cardíacos, a oxigenação sanguínea e alterações respiratórias”.

A combinação de EMG, EEG e EOG possibilita a caracterização da vigília, do sono e de seus estágios. O sono tem fases, sendo cada uma delas responsável por uma atividade diferente. “Ele é classificado em sono REM (Rapid Eye Movement) e sono não-REM (Movimento Não Rápido dos Olhos). O sono não-REM é ainda dividido em três fases: R1, R2 e R3. A fase R1 é o começo do sono, transição entre o sono-vigília. Fase R2 já é o sono propriamente dito, com características específicas. O sono R3 é o sono de ondas lentas, conhecido como sono profundo, no qual são liberados os hormônios do crescimento e o corpo tem o maior repouso. O sono REM, é o estado de sono em que mais nos lembramos dos sonhos e o estágio em que a memória e aprendizado são organizados”, diz Luciane.

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Para os especialistas, a boa qualidade do sono é tão importante quanto a qualidade da alimentação e a prática de exercícios físicos. (Crédito: Thinkstock)

Insônia

A insônia é o distúrbio do sono que mais acomete a população brasileira, especialmente as mulheres e as pessoas de idade avançada. Cerca de 36% dessas pessoas apresentam dificuldades em adormecer ou de permanecer dormindo durante a noite toda. Mesmo não sendo considerado um problema sério de saúde, o distúrbio pode desencadear diversas consequências, entre as quais estão o cansaço, depressão, dor, ansiedade e a mudança de hábitos. “A principal característica da insônia são os pensamentos que não desligam e atrapalham o sono”, explica Carvalho.

Diferentemente do que muitos pensam, a insônia não é definida pelo tempo que uma pessoa dorme ou demora a cair no sono, mas sim pela frequência com que ocorre. Existem três tipos “insônias”, que podem ser classificadas em: transiente (curto prazo), intermitente e crônica (duradoura). A insônia transiente geralmente dura de uma noite a algumas semanas, enquanto a crônica acontece na maioria das noites e tem duração maior que um mês. A insônia intermitente, por fim, ocorre de tempos em tempos, isto é, vai e volta.

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É importante evitar cafeína, celulares, internet e atividades físicas antes de dormir a fim de melhorar o sono. (Crédito: Thinkstock)

As causas desse distúrbio do sono são, em geral, orgânicas e psíquicas. As principais estão relacionadas ao estresse e ao desgaste cotidiano. Pacientes que sofrem de insônia costumam estar mal-humorado, irritados, cansados e com a sensação de insatisfação constante. Isso provoca um baixo rendimento profissional e um prejuízo no convívio social, tornando difíceis as relações interpessoais no ambiente de trabalho e fora dele.

Com o objetivo de acabar com o desconforto causado pela insônia, é recomendado que a pessoa procure um médico do sono para diagnosticar o transtorno e tratar os possíveis problemas médicos ou psicológicos que possam tê-lo provocado. Feito isso, é importante identificar também comportamentos que agravam a doença, a fim de reduzi-los. Outras opções de tratamento envolvem terapias de restrição do sono e de relaxamento, medicamentos e recondicionamento, sempre com acompanhamento médico adequado.

Sonambulismo 

O sonambulismo é uma parassonia que acontece na fase R3 do sono não-REM, o estágio do sono mais profundo, caracterizado por uma maior limiar para o despertar. “É comum na infância, até os sete anos de idade, período de maturação do sistema nervoso. No adulto torna-se mais rara, mas pode aparecer em situações de estresse ou causadas por alguma outra doença que desencadeia um despertar parcial, como a Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono”, diz Luciane Carvalho.

Além do estresse, outros fatores podem desencadear o sonambulismo e aumentar a frequência desses episódios, como a privação de sono, ansiedade, febre, medicamentos e a apneia do sono. Pessoas com esse distúrbio realizam atividades motoras (sentar na cama, levantar, andar, falar sem nexo) sem terem consciência do que estão fazendo. Esses comportamentos costumam acontecer no terço inicial da noite, devido ao estágio de sono profundo, em um estado de transição entre o sono e a vigília. De forma geral, essas atividades duram poucos segundo até meia hora e são esquecidas ou pouco lembradas pelo sonâmbulo na manhã seguinte.

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O sonambulismo não está relacionado a problemas mentais ou psicológicos, mas pode ter ligação genética. (Crédito: Getty Images)

O odontologista do sono, Eduardo Rollo, revela que o sonambulismo em si não traz prejuízos ao sono e ao indivíduo, mas requer cuidados, especialmente por parte da família. “O distúrbio deve ser monitorado para que o sonâmbulo não se machuque ou provoque acidentes”. Ainda sobre os cuidados e as medidas de segurança, a professora Silke Weber explica: “É difícil acordar uma pessoa nessas condições. Além disso, ao despertar, ela pode acordar confusa, assustada e, até mesmo, meio violenta. O certo é acordar o sonâmbulo, tentar acalmá-lo e conduzi-lo a cama, principalmente se for criança”.

Apneia

A apneia é uma doença crônica caracterizada pela obstrução parcial ou total das vias aéreas, que causa a ocorrência de paradas temporárias durante o sono. Nesses episódios, as vias colapsam, cessando a respiração e, consequentemente, dificultando a chegada do ar até os pulmões. No Brasil, a apneia obstrutiva do sono afeta aproximadamente 30% da população, sendo mais comum em homens obesos de meia-idade. O distúrbio pode ser causado por vários fatores: obesidade, falta de coordenação dos músculos respiratórios, malformação da mandíbula ou da faringe, crescimento das amígdalas e relaxamento maior que o normal dos músculos da garganta e da língua.

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Roncos frequentes podem ser indícios de um problema mais grave, como a apneia do sono. (Créditos: Thinkstock)

Luciane Carvalho diz que o ronco é o início da SAOS, mas não atinge todas as pessoas que têm a doença. Além do ronco, o distúrbio pode gerar ainda sonolência diurna, irritabilidade, ansiedade, impotência sexual, falta de disposição, dificuldade de concentração, desconforto, dor de cabeça, tendência à depressão, hipertensão e arritmias cardíacas. “A apneia pode trazer redução cognitiva, agravamento de doenças metabólicas, neurológicas e cardíacas, baixa qualidade de vida e sonolência excessiva diurna, causa constante de acidentes de trânsito”.

Apesar de ser um problema médico grave, esse distúrbio é facilmente detectado pela polissonografia e seu tratamento ocorre de forma efetiva. A partir do procedimento, os roncos começam a cessar e a respiração volta a ter um ritmo regular. O sono se torna tranquilo, o que melhora a qualidade de vida.

A alteração de hábitos também pode contribuir para a melhoria da apneia. Perder peso, dormir de lado, evitar o fumo, o consumo de bebidas alcoólicas e comidas pesadas antes de se deitar são medidas aliadas no combate ao distúrbio.

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