Caso “Queimados” da ditadura chilena é reaberto após testemunho de ex-militar

Novos documentos sobre crimes foram divulgados por organização dos Estados Unidos

Gabryella Ferrari

No último dia 31 de julho, cinco documentos confidenciais sobre crimes executados e acobertados durante a ditadura do Chile foram divulgados pela “National Security Arquive”, organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos (EUA). Os casos foram reabertos e publicados após o ex-militar chileno Fernando Gúzman testemunhar contra as ações, quebrando o pacto de silêncio feito pelos soldados em troca de benefícios concedidos pelo governo ditatorial.

Os relatórios falam sobre o caso “Queimados” e trazem nomes de dois manifestantes que protestavam contra a ditadura no ano de 1986, Carmen Gloria Quintana e Rodrigo Rojas, queimados com gasolina pelos militares. Quintana, com 18 anos na época, teve seu corpo desfigurado pelas queimaduras e Rojas, fotógrafo de 19 anos, morreu.

Segundo os documentos, após terem seus corpos queimados, os manifestantes foram jogados em um beco na cidade de Santiago, capital do Chile. Ambos os casos foram registrados, mas foram arquivados e encobertos pelo próprio Pinochet já no hospital para onde as vítimas foram levadas, que tentou amenizar o ocorrido e a infração dos carabineiros (Polícia Militar do Chile) responsáveis.

A política de austeridade fiscal implantada durante a ditadura e mantida durante a redemocratização traz resultados positivos para a economia chilena. (Foto: Pixabay)

A política de austeridade fiscal implantada durante a ditadura e mantida durante a redemocratização traz resultados positivos para a economia chilena. (Foto: Pixabay)

Augusto Pinochet era chefe das Forças Armadas quando realizou um golpe militar contra o governo de Salvador Allende, político marxista e representante da Unidade Popular, dando início à chamada Ditadura de Pinochet. Ele se manteve no poder de 1973 a 1990 e foi acusado pelos EUA, através de vários documentos revelados, de esconder crimes liderados pelos militares que serviam a sua ditadura, que ia contra os ideais de Allende. Oficialmente, a Ditadura de Pinochet provocou 3.197 mortes e os registros contam com 30 mil vítimas de tortura.

André Lopes Ferreira, doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) com ênfase na História da América Latina comenta que os EUA interferiram no Chile antes e durante a ditadura. “No período imediatamente anterior ao golpe de 1973, os EUA atuaram direta e indiretamente na tentativa de desestabilizar o governo da Unidade Popular, presidido pelo socialista Salvador Allende. Nos anos 1980 o governo americano havia revisto seu apoio às ditaduras no continente, sobretudo aquelas que atentavam contra direitos humanos, e isso causou grande mal-estar entre os dois países”.

Segundo ele, a justiça chilena processou e condenou várias pessoas envolvidas com mortes e torturas, após a redemocratização do país no início dos anos 1990. “Mesmo que a lei de anistia tivesse deixado impunes os crimes cometidos por agentes do Estado nos primeiros anos do regime, acredito que os militares que participaram do fato serão julgados, condenados e punidos, mesmo porque isso aconteceu com o próprio Pinochet, que passou os últimos anos de sua vida preso, mesmo que em prisão domiciliar devido a sua idade avançada”, afirma.

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