CASO DE RACISMO NA UNESP GERA DEBATES

       No final do mês de julho foram encontradas inscrições racistas dentro do Câmpus de Bauru, o que desencadeou uma série de discussões sobre o tema na universidade

Mariana Mesquita

No dia 24 de julho, sexta-feira, pichações racistas foram encontradas no banheiro próximo ao Departamento de Comunicação Social (DCSO)   da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC), na Unesp Bauru. Ao serem identificadas, as inscrições foram fotografadas pelo docente e chefe do departamento Juarez Tadeu Xavier, por uma funcionária e pela direção, e encaminhadas para investigação.

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Reunião da Congregação, realizada dia 30 de julho, na própria universidade (Foto: Mariana Mesquita)

As pichações foram especificamente contra as mulheres negras da Instituição, ao Coletivo Negro e ao próprio professor Juarez, único docente negro do curso de Jornalismo. Essas manifestações de ódio nos banheiros do DCSO refletem o incomodo causado pela representatividade dos negros, que está crescente, em uma universidade pública. Além dos coletivos, que crescem e recebem o apoio institucional.

Importante evidenciar que o que ocorreu é crime, de acordo com a lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. E possui duas tipificações: injúria racial, que ocorre quando são expressadas ofensas diretas a pessoas ou racismo, quando se menospreza a raça de alguém. No caso, as pichações se encaixam nas duas tipificações de crime racial.

Diante dessa situação, foi realizado no dia 30 de julho, às 14h30, na própria universidade, uma reunião aberta da Congregação, devido a necessidade que a direção da FAAC encontrou de ouvir a comunidade universitária e os grupos organizados sobre a questão.

Nessa reunião foi dado a palavra a representantes do coletivo negro, feminista, professores e representantes, que tiveram espaço para relatar seu repúdio e solicitar propostas para esse problema.

Dentre as propostas estão: a criação de uma Ouvidoria sobre casos de racismo; apoio financeiro a um evento sobre questões étnico-raciais; espaço aos que sofreram discriminação e racismo no Centro de Psicologia Aplicada; apoio as ações afirmativas; acompanhamento do processo investigativo; divulgação de canais de denúncia; elaboração de um documento pela Congregação da FAAC no qual manifesta repúdio aos fatos ocorridos.

Com todo esse contexto, a Reitoria da Unesp divulgou em nota oficial seu posicionamento contrário as manifestações de racismo contra as mulheres negras, o coletivo e ao docente ocorridas no câmpus de Bauru. Também citou que se trata de um Estado Democrático de Direito, a população afrodescendente e a política de inclusão adotada pela universidade. Além disso, declarou apoio ao caso e está comprometida a promover o debate sobre o tema.

Além das funções burocráticas, o professor Juarez também é coordenador executivo do Núcleo Negro Unesp para Pesquisa e Extensão (NUPE). O docente e pesquisador afirma que estimula constantemente o debate sobre o racismo no meio acadêmico e acredita que seu papel na universidade incomoda.

O professor relata três aspectos importantes sobre os acontecimentos: essas ações são resultado da política pública adotada pela universidade de ampliar a presença dos alunos negros, pardos e indígenas, o racismo institucional e ser um crime. “Você cria uma política de ingresso, mas não consegue desenvolver a tempo uma política para receber esses alunos, então toda a estrutura da universidade reage a isso, na área de pesquisa, gestão, ensino, extensão e convivência, porque passa a ter um grupo humano mais representado na universidade e isso provoca reações”, diz o Professor Juarez sobre o racismo institucional na Universidade.

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Pichações encontradas no banheiro do DCSO (Fonte: Juarez Xavier)

Ainda sobre a questão do racismo dentro da Instituição, completa: “É negativo, não deve acontecer em uma universidade pública. Mas tem um lado paradoxal, porque deu espaço para discutir a questão do racismo”.

Ele ainda relata ser importante informar que teve em todo o tempo apoio da Universidade, desde reitoria a diretoria. “Então, eu tendo a crer que a pessoa colocou meu nome muito mais por eu exercer funções na universidade que não sejam adequadas para um negro. Isso incomoda” diz o militante e pesquisador.

Referente ao NUPE, o núcleo assinou uma nota de repúdio, mobilizando os recursos da universidade com o intuito de denunciar essa situação.

O coletivo negro da Unesp-Bauru, Coletivo Negro Kimpa, também se manifestou diante dos casos ocorridos. Na segunda-feira, 27 de julho, divulgou uma carta de repúdio aos acontecimentos, além de demonstrar indignação e apontar que o “mito foi colocado em cheque”, em contrapartida ao argumento do senso comum que o Brasil seria a terra da miscigenação. Além disso, o Coletivo evidenciou que uma das razões de sua existência é essa: “trazer à tona atos racistas como esses e destruir o mito da democracia racial”.

E em sua nota, ainda completa: “Ofender a comunidade negra com escritos em cabines fechadas é a maior demonstração possível de medo. Sim, a Unesp vai ficar preta. E se você está incomodado, é porque nosso trabalho está sendo bem feito. Pode nos atacar, xingar, ofender. Não vamos recuar. Nem um centímetro. Estamos prontos para o enfrentamento em todas as esferas”.

A opinião dos estudantes sobre a situação também é de indignação. A estudante de Engenharia Civil, Steffani Baroni diz que ficou sabendo das pichações pelo facebook e relata “Eu fiquei chateada, ainda mais por acontecer dentro da faculdade, onde existem as discussões e o coletivo. Ser na FAAC é ainda mais chocante, porque dá para perceber que além do racismo, as pichações foram para provocar o coletivo e o professor”.

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