Costumes do século 21: Já fez a sua selfie hoje?

Os avanços da tecnologia inserem novos costumes na sociedade e a selfie é uma dessas práticas

Thais Viana

Na era em que estamos, muita gente perde a noção sobre onde termina a rede social e começa sua vida privada, e que atire a primeira pedra que nunca tirou uma “Selfie”. O termo Selfie é derivado da palavra inglesa self-portrait, que ao pé da letra significa autorretrato. A presença dele na humanidade existe há muito tempo: na pintura diversos artistas reproduziram sua própria imagem, como Leonardo da Vinci, Rembrandt, Francisco de Goya, Claude Monet, Van Gogh e Frida Kahlo.

O avanço tecnológico facilitou o acesso a smartphones, câmeras fotográficas e acessórios ligados a fotografia , e isso porque o custo relativamente caiu. No século 19 para ter um retrato seu e de sua família, tratava-se de um evento. Você deveria contratar um fotografo e não seria por um preço acessível. Caminhando mais alguns anos, na década de 90 já era possível ter sua própria câmera, mas os “filmes”, como eram chamados o rolo da câmera, eram relativamente caros e não podiam ser desperdiçados com tentativas fotográficas. Hoje, quando a acessamos e avistamos tantas fotografias, todo esse trabalho parece ser muito distante da nossa década atual.

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Segundo o jornal britânico “The Guardian”, a cidade com mais selfies no Instagram é Makati, nas Filipinas. (Créditos: Morguefiles)

O selfie é frequentemente relacionado as redes sociais e não se trata mais de uma moda, tornou-se uma cultura, conhecida como a cultura do selfie. Segundo o Oxford Dictionaries em 2013, “Selfie” foi a palavra do ano.

O mercado consumidor também leva a sua fatia nessa cultura, e no início de 2014, o “pau de selfie” ficou bastante popular. O acessório auxilia a realização da foto como uma extensão do braço, dessa forma é possível enquadrar mais pessoas e outros elementos no retrato. Além disso, o mercado oferece centenas de aparatos para acoplar aos smartphones como lentes, flashes, câmera frontal e etc. Na internet estão disponíveis centenas de aplicativos que prometem melhorar a qualidade da foto com filtros e edições de imagens.

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O famoso “pau de selfie”. (Créditos: PixaBay)

A empregada doméstica Patrícia Macedo tem o hábito de compartilhar selfies suas e de suas filhas. Ela é mãe de duas meninas, uma de treze e a outra de três anos. Ela explica que gosta das selfies para compartilhar na rede com os amigos e que sair bonita nas fotos a deixa confiante e feliz.

Débora Alcântara, formada em relações públicas e blogueira do “Tudo Orna”, costuma dar dicas de selfie para seus leitores. Ela tem o hábito de tirar algumas por semana, às vezes quando faz uma maquiagem bonita. Não são todas as fotos que são compartilhadas: “Seleciono bem as que vou postar. Acho cansativo ver muitas selfies”. E completa “Gosto de me ver em ângulos diferentes, ver expressões e me conhecer melhor. Também acho que ajuda na sua autoestima. Adoro autorretrato”.

Essa febre não é exclusiva dos anônimos, a socialite americana Kim Kardashian está inclusa nesse costume. Quando esteve de passagem por São Paulo, ela revelou que tira cerca de 50 retratos por dia até selecionar uma que goste e que tem uma assistente para segurar um flash externo que a acompanha para todos os lugares que viaja. Além disso, ela lançou um livro sobre selfies. O livro tem 352 páginas com fotos suas e esgotou em menos de um minuto. Não é à toa que a sua estátua de cera (no museu Madame Tussauds em Londres) é dela tirando uma selfie.

A antropóloga Niminon Pinheiro comenta que o “autorretrato e autorretrato com grupo é característica do ser humano, um ser social que vive em grupo e que necessita da aprovação do grupo, da identidade do grupo, de se sentir incluído e identificar-se”.

A prática está ligada ao hedonismo, palavra originária do grego, que é uma teoria que afirma que o bem da vida humana é o prazer. Dessa forma quando compartilhamos fotos em que nos sentimos bonitos e recebemos uma aprovação de quem interage conosco nas redes sociais, isso se transforma em prazer, autoestima elevada e aceitação.

Para o doutor em Psicologia Clínica, Damian Kraus, o desenvolvimento das tecnologias contribuiu para o crescimento desta cultura, “penso que influenciou de maneira importante ou, melhor dizendo, decisiva. […] A fotografia não ocupava, no âmbito das relações sociais, isto é, familiares, amistosas, de trabalho etc., nenhum lugar parecido enquanto a sua temporalidade profusa, excessiva, […]: esquecemos rapidamente quando, onde, como, por que registramos esse ou aquele momento que presentifica o que chamarei de eu-de-imagem, instantâneo, efêmero, eletro-laminarizado em pixels”.

Ele acrescenta que, em algumas circunstâncias, a selfie é resultado da sociedade de consumo, “Se a selfie mostra onde comemos; a paisagem que visitamos nas viagens; a camisa da CBF que nos identifica como torcedores; o biquinho que nos erotiza, e o braço e abdômen de igual modo, podemos sim, pensar que a chamada sociedade de consumo está aí, em ato de pertencimento ao momento do registro”.

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