Soninha: uma história de vitórias e superação proporcionada pelo esporte

Hoje com 37 anos, Sônia Benedito, a Soninha, conta sobre as passagens marcantes da carreira e o que espera de seu futuro.

Lucas Marques

A liderança de Soninha na campanha vitoriosa de Bauru na Superliga B foi crucial na campanha. (Foto: Marina Beppu / Vôlei Bauru)

A liderança de Soninha na campanha vitoriosa de Bauru na Superliga B foi crucial na campanha. (Foto: Marina Beppu / Vôlei Bauru)

A equipe feminina de vôlei de Bauru teve no dia 29 de março de 2015, num domingo, sua maior conquista: o título da Superliga B e a vaga inédita na elite do esporte. Com o ginásio Panela de Pressão lotado, a torcida ensandecida viu a vitória de 3 sets a 0 Vôlei Bauru/Concelig sobre o Sogipa/Capemisa, do Rio Grande do Sul.

Assim como toda a vitoriosa temporada, o nome mais pronunciado pela torcida era da veterana ponteira Soninha, que sempre retribui com liderança dentro de quadra e não esconde a emoção e o agradecimento na conquista. Hoje com 37 anos e acostumada a jogar nos times de elite, Sônia Benedito, a Soninha, venceu, com o título da Superliga B, mais etapa de uma carreira bem sucedida, mas sofrida.

Como um trem desgovernado

Garra e força de vontade são características da ponteira desde o ínicio. (Foto: Washington Alves/VIPCOMM)

Sucesso no Brasil, ida à Rússia e conquista na Itália. Soninha voltou depois de longos anos na Europa, chegando a ser quarta maior pontuadora do Brasil pelo SESI. (Foto: Washington Alves/VIPCOMM)

Para estender melhor a trajetória de Soninha precisamos voltar na sua juventude no Jardim Damasceno, periferia da zona norte de São Paulo, quando ainda nem sonhava em jogar voleibol. Na verdade, a paixão inicial de Sonia era a queimada, que jogava no Núcleo Sócio Educativo Ozen. “Como minha mãe trabalhava direto, ficava no projeto na parte da manhã e depois eu ia pra escola para não ficar na rua”, diz a jogadora.

Desde o começo com um “braço pesado”, Soninha teve o primeiro contato com o vôlei quando a monitora Dália a questionou se desejaria ocupar uma vaga no time do núcleo. Sônia primeiro foi contra, mas aceitou a proposta graças a insistência da monitora. Já treinando, ao executar um ataque forte, Dália teve certeza do futuro da atleta e passou a incentivar dizendo que poderia ter uma vida bacana e ajudar a família humilde.

Soninha passou a se destacar nas competições entre núcleos e almejar uma carreira profissional. Nessa mesma época, Sonia contou com a ajuda de outro técnico do núcleo, Luís, e de sua vizinha, que treinava no São Paulo Futebol Clube com o técnico Índio, passando a fazer testes em clubes. Mas foi com a figura do professor Amilton que, por indicação, a jogadora teve sua primeira grande chance, no Nacional da Barra Funda.

A partir desse ponto a carreira de Soninha seguiu como um “trem desgovernado”, como classifica a atleta. Nesse início teve passagens pelo Ypiranga, São Paulo FC e BCN/Osasco, onde pôde jogar com duas de suas maiores inspirações, Hilma e Márcia Fu, além de conhecer o treinador Luizomar de Moura.

Luizomar sempre acreditou na jogadora, ainda muito nova e entrando do banco de reservas, sugerindo que ela deveria treinar os outros fundamentos do esporte além do ataque, principalmente o passe, o que se provou se muita valia no futuro. O técnico levou Soninha para o chamado “time dos sonhos” do Flamengo da temporada 2000/2001, composto por Virna, Leila, Valeskinha, Tara Cross, entre outras.

Soninha acompanhou a mudança de Luizomar para o clube de Campos de Goytacases, onde firmou a titularidade e ganhou destaque no país entre 2001 e 2003. A jogadora ainda jogou duas temporadas pelo Minas (entre 2003 e 2005) e uma pelo badalado Finasa Osasco (2005/2006). Sônia então se deparou com um novo desafio: uma proposta excelente para jogar no time russo Odintsovo.

A jogadora não conseguiu se firmar no país e após apenas 3 meses saiu do clube. Ela conta que não conseguiu se acostumar ao frio, à alimentação e estava “sozinha” no time, entretanto foi uma experiência positiva, pois acostumou a jogar em outro país. Tanto que alcançou uma passagem bem mais feliz na Itália: dois anos pelo Tena Santeramo, onde conquistou o prêmio de melhor passadora da Liga A1, e outros dois pelo Castellana Grotte.

Troféu de melhor passadora da Liga A italiana (Foto: Soninha / Acervo pessoal)

Troféu de melhor passadora da Liga A italiana (Foto: Soninha / Acervo pessoal)

Tragédia e renovação

Soninha voltou para o Brasil para jogar a temporada 2009/2010 pelo Pinheiros. Na temporada seguinte jogou pelo Sesi e foi a quarta maior pontuadora da Superliga A. Contratada para o Amil/Campinas, que contava com um projeto ambicioso liderado pelo técnico José Roberto Guimarães, Soninha enfrentou o maior desafio da sua carreira.

Uma hérnia na cervical, que já vinha se manifestando desde os tempos de Sesi, se agravou a ponto de deixar todo o lado direito do corpo paralisado. A ponteira foi logo hospitalizada e contou com a ajuda do clube para se recuperar – em especial de Rubens Rizzo, Paulo Cocco e Zé Roberto.

Soninha ficou seis meses parada, época de maior sofrimento de sua carreira, mas também de realizações. “Estava tão feliz, entrei em depressão e não sentia nada. Foi muita dor, para te falar a verdade”, diz a jogadora. Entretanto esse tempo de recuperação mostrou à Soninha o quanto era querida pelos fãs e o quão forte era seu lado religioso.

Aliada à religião, aos fãs e à família, a atleta foi deixando a depressão de lado e se focando no árduo processo de recuperação. “Reaprendi a andar aos 35 anos”, relata Sônia, que complementa depois “Sempre fui uma pessoa muito agitada, muleca, ativa. Quando aconteceu isso fiquei sem chão”. Ela diz também que apesar de ser de família católica, nunca foi de ir a Igreja, mas é “na dificuldade que você tem mais contato com deus” e, deste modo, passou a orar frequentemente. Hoje, depois de recuperada, Soninha se considera uma pessoa melhor.

A Amil não renovou o contrato, mas Soninha entendeu a situação e até agradece pelo tempo no clube. A jogadora, com esperanças de voltar a ganhar ritmo de jogo, foi contratada pelo Jacareí, porém o sonho do retorno foi atrasado pelo dirigente Robson Guerreiro, que abandonou o projeto sem pagar o elenco.

Desanimada, Sônia voltou para casa, em Osasco, e aproveitou o tempo sem equipe para terminar sua recuperação tanto fisicamente – através de pilates e fisioterapia – e psicologicamente. A ponteira voltou as quadras pelo São Bernardo, equipe na qual jogou 6 meses e é muito agradecida por ser o única a abrir as portas naquele momento tão difícil. “Eu tive que mostrar primeiramente a mim mesma que poderia jogar. E consegui jogar, buscando sempre a melhora.”, relata Soninha.

Soninha pelo Vôlei Amil, momento crítico em sua carreira. (Foto: Leandro Ferreira/AAN)

Soninha pelo Vôlei Amil, momento crítico em sua carreira. (Foto: Leandro Ferreira/AAN)

Passagem por Bauru

A ponteira então recebeu a proposta para jogar o campeonato paulista pelo Bauru, a qual aceitou e ficou até a campanha vitoriosa da Superliga B. Muitos questionavam a atleta por estar jogando em um time fora da elite, mas ela não estava preocupada com isso, pois “precisava jogar, sentir o meu corpo”.

Sônia conta que a cidade a recebeu com muito carinho, sempre a apoiando. Por ter um time muito jovem, Soninha foi uma peça fundamental ao time graças a experiência, assim como a levantadora Camila Adão. A equipe a escolheu como líder dentro de quadra e a retribuição veio com o esforço do time.

37 anos e com muita vontade de jogar

Hoje com 37 anos e em processo de negociação com clubes, Soninha pretende jogar “mais 2, 3 anos, até o corpo aguentar”. “Não bebo, sou uma pessoa caseira. Cuido da minha dieta”, relata a jogadora, que deseja se sentir realizada e terminar a carreira bem, jogando.

Com diversas passagens pela seleção brasileira, principalmente na primeira metade da decide de 2000, Soninha traça um balanço sobre sua carreira e diz que “só tenho que agradecer. Sou muito feliz por tudo que conquistei até hoje. Sou muito grata ao voleibol. Ele buscou a minha força de vontade, disciplina, educação” e complementa que não sabe “o que seria hoje”, pois veio de uma vida complicada na periferia e só estudou até a oitava série.

Soninha, como em toda carreira, está se focando no momento, mas almeja algumas conquistas no futuro: na parte pessoal quer se casar e ter filhos; na profissional estuda possibilidades para continuar em contato com o esporte, em especial ajudando a garotada que está começando.

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