Branco Sai, Preto Fica: o que significa a cor da pele no Brasil?

Filme do diretor Adirley Queirós debate a temática racial e de classes em uma mescla entre realidade e ficção científica

Logo nas primeiras cenas é explicado o título do filme: “Puta prum lado e veado pro outro! (…) Tô falando que branco pra fora e preto aqui dentro! Branco sai e preto fica, porra!”.

Tal frase foi pronunciada por um policial em março de 1980, em um baile popular de black music, o Quarentão, na cidade satélite de Ceilândia – Brasília. É neste quadro que se configura a obra do diretor goiano que cresceu na cidade, Adirley Queirós. Um misto de documentário e ficcção científica, na busca de recriar, através de uma proposta reflexiva e inventiva, um passado – e presente – constituído pela segregação racial, de classes e pela violenta repressão policial que se utilizou, na época, de bombas e gás de pimenta.

Os dois protagonistas, Marquim e Sartrana,  e as respectivas deficiências. (Foto: Divulgação)

Os dois protagonistas, Marquim e Sartrana, e as respectivas deficiências. (Foto: Divulgação)

O enredo se desenvolve a partir de três personagens. Dois rapazes, Marquim e Sartana, eram dançarinos e estavam no baile. As consequências da invasão policial no fatídico dia estão estampadas nas condições físicas dos personagens: um deles está em uma cadeira de rodas e o outro usa perna mecânica. Um terceiro personagem – que constitui o inesperado da trama e retira da obra o fator melodramático e piegas – é Dimas Cravalanças, policial negro vindo do futuro (2073), com o objetivo de buscar provas da responsabilidade do Estado brasileiro nos eventos do baile popular que vitimou os rapazes negros.

O filme contém traços característicos de uma produção feita por quem está imerso na vida da comunidade: as gírias utilizadas pelos personagens, a presença na trilha sonora do rap – ritmo representativo das periferias – e atores que representam a si mesmos nas telonas.

Em entrevista para o canal Curta, o diretor Adirley ressalta a composição da memória do fato.

O cenário da cidade-satélite de Ceilândia é feio, escuro, sujo. Em contraponto, há a sensibilidade dos enquadramentos explorados pelo diretor, expondo o contraste entre a alegria dos adolescentes inventivos em seus passos de dança e a tristeza dos atuais deficientes físicos.

A obra é um manifesto protagonizado pelas classes pobres sobre o Estado do Brasil. Um documento sobre o encontro entre nosso “apartheid” e a democracia racial à brasileira. É, segundo Inácio Araújo, crítico de cinema do jornal Folha de São Paulo, um “filme de terror verdadeiro”.

O personagem cadeirante preso aos limites da periferia. (Foto: Divulgação)

O personagem cadeirante preso aos limites da periferia. (Foto: Divulgação)

O longa recebeu prêmios no Festival de Cinema de Brasília, Prêmio Especial do Júri e o Prêmio da Crítica Internacional no 55º Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, na Colômbia.

Além dos aspectos cinematográficos da obra, o debate que ela traz sobre a discriminação étnica no Brasil é ponto relevante. A periferia, conforme dito pela escritora Maria Carolina de Jesus*, é “o quarto de despejo dos pobres”. Ou, ainda, como escreveu o poeta Sergio Vaz* do movimento da literatura marginal: “calçadas frias da senzala moderna chamada periferia”.

Trailer do filme:

Mas seria mesmo a periferia espaço de opressão social, política e policial? Principalmente para os moradores negros? A pergunta complexa – tal como se desenvolve a montagem de cenas de “Branco Sai, Preto Fica” – requer reflexão para a resposta. No entanto, sabe-se de Amarildos*, Cláudiase Eduardos* e, pode ser que a resposta venha da análise desses e de inúmeros casos que acontecem todos os dias nas margens dos grandes centros.

DIREÇÃO: Adirley Queirós

ELENCO: Marquim do Tropa, Dilmar Durães e Gleide Firmino

PRODUÇÃO: Brasil, 2015, 12 anos

QUANDO: estreou em 19/03/15

Aqui disponibilizamos a trilha sonora com a maioria das canções da década de 80, tempo presente da obra:

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