Quando um presidente do Uruguai se torna astro pop

José Mujica deixa o governo com alto índice de popularidade dentro e, principalmente, fora do Uruguai; senador mais votado na eleições, seu sucesso fora do país, porém, não o livrou de críticas internas

Vinicius Passarelli

No último dia 1º, Tabaré Vázquez tomou posse na presidência do Uruguai, onde exercerá o cargo de chefe de governo nos próximos cinco anos. Vázquez será o sucessor daquele que em 2010 o sucedeu na presidência do país. José “Pepe” Mujica encerrou seu mandato se ostentando como um dos líderes políticos mais populares e carismáticos do mundo. Seu estilo de vida simples, humilde e, como o próprio político gosta de dizer, próximo de seu povo, aliado com políticas civis progressistas e discursos inspirados sobre a vida e contra o consumismo que viraram virais nas redes sociais, alçaram Mujica a um reconhecimento internacional nunca antes alcançado por um governante uruguaio.

AFP Photo - Miguel Rojo

Milhares de uruguaios compareceram na despedida de José Mujica da presidência, realizada no último dia 27 na principal praça de Montevideo (Créditos: AFP)

Assim como outros líderes sul-americanos desta década, Pepe iniciou sua vida política fora da constitucionalidade de Estado, quando ajudou a fundar o grupo de guerrilha urbana Movimento de Libertação Nacional Tupamaros no fim dos anos 60. Em 1972, já em meio a uma ditadura militar, Mujica foi preso e permaneceu em cárcere durante 13 anos, sendo 11 deles em regime de solitária. Solto em 1985, trabalhou como floricultor até 1995, quando ingressou na carreira política sendo eleito deputado pela coalizão de esquerda Frente Ampla. Em 2000, elegeu-se senador. No primeiro mandato da Frente Ampla na presidência, em 2005, Mujica se tornou ministro da Agricultura, Pecuária e Pesca no governo liderado por Tabaré Vázquez, que volta ao cargo nesse ano.

Em 2010, como um dos políticos mais populares do país, se tornou presidente da República para dar continuidade ao governo social-democrata da Frente Ampla, marcado pelo pragmatismo econômico e pela política de redistribuição de renda. Durante seu mandato, Pepe Mujica implantou uma série de medidas no campo dos direitos civis que colocaram o Uruguai no radar do noticiário internacional.

Em dezembro de 2012, o aborto foi descriminalizado no pais, possibilitando que mulheres possam realizar a interrupção da gravidez até os 12 meses de gestação, fazendo-o em clínicas seguras e regularizadas. Um ano depois, o país aprovou o casamento civil entre homossexuais e se tornou o segundo país do continente a realizar tal ato – o primeiro foi a Argentina. Seguindo a tendência progressista, o então presidente regulamentou a produção, a venda e a distribuição da maconha. Essa série de medidas fizeram do governo de Pepe Mujica um governo conhecido nos outros países e colocou o Uruguai na vanguarda da agenda progressista.

Jose Mujica, Lucia Topolansky

Com sua esposa em seu Fusca; “Eu vivo como vive a maior parte de meu povo, na política o normal teria que ser o meu modo de vida” (Créditos: AP – Matilde Campodonico)

“Ninguém é mais do que ninguém e, por isso, os presidentes devem viver como a maioria que os elegeu e não como a minoria.”

Apesar de significativa e de grande repercussão, essa política agressiva no campo social não foi a única razão do enorme sucesso e visibilidade do presidente ao redor do globo. Mujica nos apresentou uma imagem de governante completamente distinta da qual estamos a acostumados. “Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade”, disse certa vez. Devido a seu estilo de vida simples, Mujica é frequentemente apontado como o “presidente mais pobre do mundo”. Ele rejeitou a residência oficial da presidência para continuar morando na chácara localizada na zona rural de Montevideo, onde vive há décadas junto com sua esposa – a senadora Lucía Topolanski, que se canditará como prefeita da capital – e de sua cadela de três patas Manoela.

Muijca possui um jeito simples de viver e se vestir. Frequentemente aparece em ocasiões formais trajando sandalhas e dispensando o tradicional terno. 90% de seu salário é doado para o fundo de moradias do governo. Seu conhecido Fusca azul 1978 é o veículo que usa para se locomover e seu único bem declarado. Pepe já recusou a vendê-lo por ofertas milionárias.

A junção de seu jeito de ser e viver com sua maneira de governar deu a ele uma aprovação de 64% no fim de seu mandato e a votação para senador mais expressiva do país. Mujica continuará exercendo sua função parlamentar a partir deste mês.

Mujica será senador na próxima legislatura; “Assim como tem gente viciada em cigarro, outros em ganhar dinheiro, eu sou viciado na militância política". (Créditos: brasil247.com)

Mujica será senador na próxima legislatura; “Assim como tem gente viciada em cigarro, outros em ganhar dinheiro, eu sou viciado na militância política”. (Créditos: brasil247.com)

Resistências

Mas o governo, no entanto, encontrou resistências dentro do país quanto a suas decisões. A maioria da população uruguaia é contra a legalização da maconha – somente 24% é a favor, segundo uma pesquisa da consultoria Equipos Mori de dezembro de 2013. O projeto também vem sendo criticado pela oposição, sobretudo quanto à venda da erva realizada em farmácias, prevista na lei aprovada, porém que ainda não foi implementada e definida em seus detalhes.
Leandro Couto, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasíla (UNB), acredita que essa postura influencia apenas de forma indireta os outros países, sobretudo latino-americanos, a adotarem medidas nesse sentido. “Na medida em que mais países vão avançando nessas agendas, se cria condições para iniciar o debate em outras sociedades. Todavia, os grandes avanços nesses questões conseguidos no Uruguai não tem força suficiente para incitar mudanças substancias no curto prazo na vizinhança”, completa.

As principais críticas tecidas ao governo de Mujica está nas suas políticas em educação, infraestrutura e segurança pública, que consequentemente, tornam-se os maiores desafios para o novo governo de Tabaré Vázquez. No campo da política externa, o mandato de Pepe Mujica também mostrou-se corajoso e não esteve longe das polêmicas. Em março de 2013, o Uruguai aceitou o pedido dos EUA para receber prisioneiros da base militar de Guantánamo, localizada em Cuba. Além disso, o Uruguai concedeu asilo humanitário a 42 sírios em outubro de 2014 após Mujica oferecer ajuda às vitimas da guerra civil na Síria.

Integração latino-americana

Sob o mandato do ex-guerrilheiro Tupamaro, o Uruguai exerceu um papel importante também na condução da integração latino-americana, atuando em várias frentes, inclusive nas decisões do Mercosul. “Dentro da Frente Ampla, da qual Mujica é parte, há muitos líderes que tiveram posições conflituosas com a integração”, explica o doutor em Ciência Política, Maurício Santoro. Para ele, a atuação do ex-presidente foi importante para reduzir esses conflitos e manter uma boa relação com os líderes regionais, como Brasil, Argentina e Venezuela. “Por exemplo, no governo do presidente Tabaré Vázquez houve um sério confronto com a Argentina por conta da construção de fábricas de celulose. Outro expoente da Frente, Danilo Astori, queria negociar um tratado de livre comércio do Uruguai com os Estados Unidos, à revelia do Mercosul”, explica Santoro.

Reuters - Andres Stapff

“Não é bonito legalizar a maconha, mas pior é dar pessoas ao narcotráfico. O único vício saudável é o amor” (Créditos: Reuters – Andres Stapff)

Quanto a relação especificamente com o Brasil, o cientista político acredita ter sido boa e que Mujica “aprofundou projetos de cooperação e citou muito as políticas sociais brasileiras e a atuação do ex-presidente Lula como exemplos de moderação para a esquerda latino-americana, numa época conturbada marcada pelo acirramento dos conflitos políticos em muitos países da região”.

Diferenças

Apesar de partidários, Mujica e Tabaré Vázquez possuem divergências políticas e na maneira de governar, o que pode resultar em mudanças no governo que se inicia em relação ao recém acabado. “É importante salientar que dentro da Frente Amplia há duas correntes que dividem Mujica e Vázquez”, explica o doutor em Ciência Política da USP Pedro Feliú. “A primeira, liderada por Mujica, defende mais protagonismo estatal no âmbito econômico (empresas estatais) e social, além de estabelecer a integração regional, especialmente o alinhamento ao Brasil, prioridade na política externa. Já a corrente mais pragmática da Frente Ampla, representada pelo atual presidente Vázquez, compartilha a preocupação social, mas defende um Estado mais regulador e menos empresário, assim como uma política externa menos dependente do Mercosul”, completa Feliú.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s