Dia Mundial da Água e uma problematização sobre o uso desse recurso

Entenda como o uso consciente pode fazer a diferença na manutenção deste recurso natural

Luana Brigo

A responsabilidade está em nossas mãos (Crédito: Passaporte A)

A responsabilidade está em nossas mãos (Crédito: Passaporte A)

No dia 22 de março comemora-se o Dia Mundial da Água. A data pode ser lembrada de forma mais singela diante de outras como Dia dos Namorados ou Dia das Mães, mas denota um significado maior do que se dá importância. Ela foi instituída pela ONU em 22 de fevereiro de 1993, quando medidas cautelosas foram elaboradas a favor da água, impondo uma consciência ecológica em relação a este vital recurso natural.

A importância da água é tamanha que ela atua mantendo nosso corpo hidratado, colabora para o transporte de substâncias, regula a temperatura corpórea, participa de reações químicas entres outras funções. A questão é que, mesmo diante da abundância do recurso no planeta, somente uma pequena parte dele está à disposição para consumo, pois aproximadamente 97% é água salgada, e a quantidade restante está distribuída entre geleiras, aquíferos, lagos e rios.

Muitas crianças ainda sofrem para conseguir água potável adequada. (Créditos: Rádio Sentinela)

Muitas crianças ainda sofrem para conseguir água potável adequada. (Créditos: Rádio Sentinela)

Embora o volume de água própria para nosso consumo seja limitado, isso não tem impedido atitudes danosas a sua manutenção. A poluição da água decorrente de atividades humanas diminui ainda mais a água adequada ao consumo. Segundo estudo realizado este ano pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 748 milhões de pessoas têm dificuldade em obter água própria para consumo. Outros atos cotidianos como lavar louça, tomar banho, dar a descarga e escovar os dentes, se não feitos de modo consciente, podem significar um desperdício de água.

Pequenos cuidados no uso consciente da água podem causar impactos tanto na manutenção do recurso quanto na economia. Para o Prof. Carlos E. M. Tucci, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, o melhor uso da água se dá mediante a otimização de sua eficiência e conservação: “Ambos são instrumentos que permitem que um número maior de usuários faça uso deste recurso atendendo a um número maior de objetivos. A eficiência do uso da água é o mecanismo de tecnologia de uso eficiente como redução de perdas na distribuição na rede, uso de tecnologias de gotejamento na agricultura, que utilizam água somente quando necessário para a planta. Já a conservação da água é papel do usuário que pode reduzir o tempo no banho, evita lavagens constantes de veículos, ou se assim fizer, reaproveitar a água”.

Tratamento de água também é questão econômica (Créditos: ACIEG)

Tratamento de água também é questão econômica. [Clique para ampliar]. (Créditos: ACIEG)

Em tempos de crise
A conservação e proteção da água ainda se faz mais importante nos anos atuais. O país vem enfrentando uma crise hídrica em função do prolongado período de escassez em várias regiões, em especial pela diminuição drástica no nível do Sistema Cantareira no Estado de São Paulo, um conjunto de represas criado na década de 1970 em resposta ao rápido crescimento populacional em São Paulo.

O forte período de escassez tem como um de seus fatores a redução das precipitações, que no caso do Cantareira, vem diminuindo desde 1992 e se agravou de forma significativa em 2014.  Outro fator seria, no caso da Região Metropolitana de São Paulo, a relação entre disponibilidade versus demanda muito próxima desde 2000, o faz com que qualquer redução na disponibilidade afete grande número de pessoas.

Represas que compões o Sistema Cantareira e as cidades atendidas. (Crédito: Portal Metodista)

Represas que compões o Sistema Cantareira e as cidades atendidas [clique para ampliar].(Crédito: Portal Metodista)

Carlos Tucci aponta mais dois fatores: “A contaminação dos mananciais, reduzindo a qualidade de água disponível, representa outro fator. Podemos também considerar a falta de capacidade institucional de gerenciar esta crise de forma sustentável, levando em conta o sinal que o clima vem dando há mais de quinze anos”.

As permanentes condições críticas dos reservatórios em quase todo o país não se devem necessariamente à escassez de quantidade, mas contaminação, ou seja, é também um a questão de qualidade. “Devido à falta generalizada de tratamento de efluentes pela falta de investimentos no país, o esgoto escoa para os reservatórios na medida em que a bacia hidrográfica afluente ao reservatório é ocupada pela população, contaminando a qualidade da água usada no abastecimento da população”, afirma Tucci. Uma das consequências deste fato é a formação de algas que podem gerar toxinas, que não podem ser retiradas por nenhum tratamento de água utilizado no país.

Gestão e infraestrutura

A crise da água afeta os seguintes setores: abastecimento, alimentos, produção industrial, animal e produção e energia, além do meio ambiente. Crises assim estão mais relacionadas a incapacidade de gestão destes recursos do que a uma questão da natureza. Os quase 3% de água que temos própria para consumo se dividem entre a indústria, agriculta e uso individual. Para Carlos Tucci, a gestão de tal recurso é possível, o problema é que a prática tem sido projetar a infraestrutura para condições favoráveis e não ter um plano para os cenários de risco.

Com relação à gestão de riscos existem prioridades estabelecidas em lei, onde a principal é o abastecimento humano. Na prática, isto não necessariamente ocorre, devido à falta de capacidade gerencial. “A gestão de recursos hídricos deve buscar a segurança hídrica que envolva investimentos para aumentar a garantia do atendimento da demanda, minimizando os riscos e desenvolvendo um Plano de Emergência com finalidade na maior resiliência da sociedade de eventos de baixa disponibilidade”, conclui Tucci.

A água no Brasil. (Crédito: Innovare pesquisa)

A água no Brasil [clique para ampliar]. (Crédito: Innovare pesquisa)

Água: propriedade privada

Antes que a água acabe, ela ficará rara. Em algumas regiões do mundo, este recurso natural é tão valioso quanto ouro.  A água deixou de ser simplesmente um recurso natural público para virar um produto, tornando-se uma commodity ambiental.

As commodities são mercadorias, bens que não sofrem processo de alteração e podem ser consideradas matérias-primas também. São de quatro tipos: minerais, financeiras, ambientais e agrícolas. A trajetória da água como commodity se inicia nos anos 1990, quando o Banco Mundial convenceu alguns países que privatizar a distribuição de água era uma boa forma de arrecadar fundos.

O Estado permaneceria como proprietário deste recurso, porém seriam as empresas privadas as responsáveis pela distribuição. Isso acarretou, posteriormente, numa elevação dos preços da água que chegava às torneiras das pessoas. Como resultado, por exemplo, 40 municípios franceses, incluindo Paris, tornaram a água um bem público novamente.

A água engarrafada, item considerado “um luxo” nas décadas anteriores, se tornou uma moda a partir dos anos 1990. Os chamados water tradings representam uma forma de privatização. Um país pode emitir uma licença para o acesso à água, que em seguida é convertida em direitos à propriedade. Logo, empresas podem comprar e vender esse direito à água no livre mercado. À exemplo disso, temos o Chile e os EUA.

Edições limitadas de garrafas de água da Evian personalizadas pelos designers Paul Smith e Jean Paul Gaultier. (créditos: Harper’s Bazaar)

Edições limitadas de garrafas de água da Evian personalizadas pelos designers Paul Smith e Jean Paul Gaultier. (créditos: Harper’s Bazaar)

Ouro Azul – uso consciente para mantê-lo

O livro “Ouro Azul”, lançado em 2003 pelos ativistas canadenses Maude Barlow e Tony Clarke, discute justamente a questão sobre a privatização e mercantilização da água e como corporações se apoderam da água doce do planeta, degradando o meio ambiente e afetando diversas comunidades. Em 2008, o livro foi adaptado dando origem ao documentário “Ouro azul – As Guerras Mundiais pela Água”.

É preciso ter em mente que mesmo os mais singelos atos – diminuir o tempo de banho, as lavagens de automóvel e varrer a calçada em vez de usar a mangueira – significam muito para a manutenção da água.

Uma prova de conquista, segundo relatório da UNICEF e da Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) foi atingido: reduziu-se pela metade a proporção de pessoas no mundo sem acesso a água de potável segura. A meta tinha como prazo final este ano, mas foi atingida em 2012. Entre 1990 e 2010, mais de dois bilhões de pessoas passaram a ter acesso a fontes de água melhoradas, tais como abastecimento canalizado e poços protegidos.

Ainda há um longo percurso para que todos tenham o acesso à água de qualidade. (créditos: Justificando)

Ainda há um longo percurso para que todos tenham o acesso à água de qualidade. (créditos: Justificando)

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