ESPECIAL MULHERES NA ARTE: Uma cultura que resiste

A história do Brasil ainda é carregada de preconceito. A estranheza ao fenótipo da pele escura, ao cabelo volumoso, forte e crespo, são farpas de um conservadorismo da classe dominante. 

Matheus Ferreira 

O berimbau estalava, em sons agudos, no prelúdio do jogo da capoeira. Somada aos tambores pulsantes do terreiro, incomodava a elite. Foi até proibida por lei, em 1890, e os capoeiristas foram tachados de vagabundos e desordeiros. Mas os elementos afro alcançaram uma aura de requinte anos a frente. Em 26 de novembro de 2014, a roda de capoeira foi considerada como “patrimônio histórico” pela Unesco. Valorizou-se a cultura. Esqueceu-se, porém, quem a carregou e a resguardou: os negros.

Nesses ares de esquecimento, o Coletivo Negro Kimpa da Unesp de Bauru se insere. Na palavra de Solon Neto, 23, membro do grupo: “é um lugar para os negros se apoiarem e questionarem as razões disso [falta de representatividade]”. Apenas 3% dos alunos são afrodescendentes, num cenário no qual, segundo o IBGE, mais de 50% da população brasileira é negra.

Coletivo negro da Unesp Bauru que tem como objetivo a discussão d. (Foto: Divulgação/ Coletivo Negro Kimpa)

Coletivo negro da Unesp Bauru, que tem como objetivo a discussão dos negros na sociedade. (Foto: Divulgação/ Coletivo Negro Kimpa)

O Coletivo propôs para esse mês de março, um ciclo de debates para externalizar a situação da mulher negra e exigir reconhecimento tanto na faculdade quanto no país. A discussão percorreu os campos das políticas de embranquecimento social, identidade afro e apropriação cultural.

As pessoas sambam, usam dred, cantam rap, acham refinado o jazz. Para Giovana Amorim de 19 anos, participante do Kimpa, o problema da apropriação da cultura afro é o contínuo exílio do negro, sempre subjulgado por estruturas já calcificadas. “Não deixam o negro usar o espaço social, a cidade, a universidade, mas as pessoas se utilizam das coisas deles”, completa.

“O problema é o descolamento do projeto político de resistência da cultura”, comenta Solon. No contexto de exclusão cultural, o negro resistiu com seus santos, seus batuques, toques e mandingas. “Há um teor muito político até mesmo nas vestimentas afro”, termina.

Antimusas

A representação da mulher negra nos meios de massa também entrou na pauta da discussão. A aparição negra se resume em alguns estereótipos: a empregada, a pobre, o objeto sexual. “As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira porque o modelo estético de mulher é a mulher branca”, escreve a ativista e doutora pela USP, Sueli Carneiro.

A beleza única do cabelo afro. (Foto: divulgação)

A beleza única do cabelo afro. (Foto: Divulgação)

É comum ver um terceiro descrevendo a negra, e não ela mesma. No poema Passado Histórico, da escritora negra, Sônia Fátima Conceição, datado no final dos anos 90, a preta se descreve. Um retrato do antigo (escravidão) até o panorama de agora. Ele – o poema – diz: Do açoite/ Da mulata erótica /Da negra boa de eito/ E de cama /(Nenhum registro). Os versos são uma visão próxima da negra, diferente das outras caracterizações.

Iniciativa

 Um projeto chamado Faça Amor, Não Faça Chapinha pontua a força da negra e do seu cabelo, com o objetivo de “enaltecer a beleza e a cultura dos cabelos naturais e desmistificar a ideia de que o cabelo liso é o verdadeiro cabelo bom”. A negra deve assim, segundo o site, buscar a autoaceitação, escapando do padrão esmagador e branco da sociedade. “Pra que química, chapinha, escova nos seus cachos, ondulados, crespos? Viva a liberdade de expressão capilar!!!”

“Pra que química, chapinha, escova nos seus cachos, ondulados, crespos? Viva à liberdade de expressão capilar!!!" Manifesto da página Faça Amor, Não Faça Chapinha. (Foto: divulgação/ Faça Amor, Não Faça Chapinha)

“Pra que química, chapinha, escova nos seus cachos, ondulados, crespos? Viva à liberdade de expressão capilar!!!” Manifesto da página Faça Amor, Não Faça Chapinha. (Foto: Divulgação/ Faça Amor, Não Faça Chapinha)

Houve também um espaço nos debates para troca de experiências sobre o processo de aceitação das heranças africanas como, por exemplo, pele e cabelos enrolados e crespos ou envoltos em turbantes.

“Se eu quero pixaim, deixa. Se eu quero enrolar, deixa”. (Respeitem Meus Cabelos, Brancos – Chico César)

À margem

Os dados censitários já dizem: a mulher negra apresenta menor nível de escolaridade, trabalha mais e ganha menos. Esse é um problema de herança escravocrata que se arrasta por anos, escondido pelo bastião da Democratização Racial.

A questão negra é de importância cabal porque um genocídio acontece. Segundo o Mapa da Violência de 2014, mais de 30.000 jovens foram mortos. E desses, cerca de 80% se declaravam negros ou pardos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s