Especial mulheres na arte: Sara Donato conversa sobre rap e feminismo na UNESP Bauru

A MC são carlense também fez pocket show no tradicional evento “Quinta no Bosque”

Yuri Ferreira

O mês da mulher traz consigo um paradoxo: se, por um lado, há o tradicional incentivo ao culto da beleza feminina e o fato da sociedade reduzir as mulheres a meras expectativas sociais, por outro, debates são levantados, visando desconstruir essa imagem superficial articulada pelo machismo.

Antes de cantar, Sara conversou um pouco com os presentes sobre rimas, hip hop e preconceitos sociais. (Foto: Yuri Ferreira)

Antes de cantar, Sara conversou um pouco com os presentes sobre rimas, hip hop e preconceitos sociais. (Foto: Yuri Ferreira)

O CACOFF, Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes, juntamente com o coletivo Feminista de Bauru, Abre Alas, organizaram mais uma edição do Quinta no Bosque – evento que promove integração cultural e debates políticos. É realizado no bosque, um ambiente de convivência do campus da UNESP Bauru e não há restrições de participantes. O evento, que é gratuito, foi realizado na quinta-feira (12) e contou com uma oficina de rap oferecida pela MC são carlense, Sara Donato.

Sara começou trocando uma breve ideia sobre rap e rimas com os presentes e seguiu com um pocket show, apresentando músicas do seu álbum “Made In Roça”, lançado no ano de 2013. O ponto alto foi quando cantou o single “Peso na Mente”, cuja letra confronta a gordofobia e questiona o padrão branco e magro de beleza imposto pela sociedade. “Tire seus padrões do meu corpo”, diz o refrão.

O público ouvia atentamente, mas também falaram sobre suas impressões acerca dos temas. (Foto: Yuri Ferreira)

O público ouvia atentamente, mas também falaram sobre suas impressões acerca dos temas. (Foto: Yuri Ferreira)

Depois de empolgar o público com suas rimas fortes, Sara usou o microfone para contar sobre o seu envolvimento com o feminismo e a relação das mulheres com o Hip Hop. O movimento, formado em maioria por homens, ainda sofre grande influência machista. Ela contou que, neste meio, os homens acreditam que as mulheres devem ser backing vocals e que “se elas não têm voz para isso, então elas não podem cantar rap”, afirma Sara.

Confira agora, na íntegra, a entrevista exclusiva que Sara concedeu ao WebJornal:

Como se deu o seu contato com o Hip Hop? Quando você começou e o que te motiva a fazer rap?

Eu comecei influenciada pela família. O meu irmão já cantava, meus primos também gostavam muito de rap, aí a influência veio da família mesmo – eu morei um tempo com a minha tia. E o que me motiva é usar isso como maneira de transformação, né, porque isso transformou a minha vida. Abriu a minha visão pro mundo, pra realidade que a gente vive. Porque eu já via essa realidade, mas até então achava normal e não é normal, né? A gente sofre muita opressão, muito preconceito… E a gente se arma contra isso, no caso, a gente usa o rap.

Em 2013 você lançou o “Made In Roça”. Qual foi a sua inspiração para compor esse material?

Na verdade eu saí do grupo que eu cantava e comecei a fazer um som. E o menino que grava comigo, que é o meu produtor, o Lincoln da Correra Records, ele falou: “não Sara, tem que lançar, vamos lançar, temos que mostrar pro povo”. E aí eu comecei a gravar e, quando a gente foi ver, (eu) já tinha treze faixas e a gente resolveu lançar, sim. E a ideia foi aceita, a ideia de mostrar o interior e que ele tem voz sim, e levar a visão feminina do interior pro Brasil inteiro.

Trecho de “Flores”, canção que também trata sobre a dificuldade de ser mulher na sociedade atual, que faz parte do álbum “Made In Roça”

Sendo feminista declarada, como foi esse processo de autodescobrimento? O que te levou a se posicionar desta forma?

Na verdade, eu sempre fui feminista, mas eu não sabia que era. Porque desde pequena eu sofro com o machismo, tipo na minha família, com ele forte na minha vida, e aí, através do Mulheres no Hip Hop, as meninas já tinham essa discussão e eu descobri que não é normal isso que as mulheres passam. E aí eu fui procurar e desconstruí essa ideia dentro de mim mesma, porque eu reproduzia o machismo e eu estou em fase de desconstrução ainda… Só que ainda é muito forte, porque de onde eu venho, da quebrada, de dentro do movimento que é extremamente machista, é complicado, e a gente tem que ser forte o dobro pra continuar lutando. Eu acho que o feminismo me ajudou muito, no meu empoderamento como mulher, porque se descobrir e se afirmar mulher por mais que pareça fácil, não é. Porque a gente sempre tenta seguir os dogmas da igreja, o que é certo, a moral do bom costume…

No ano passado, você lançou um clipe para “Peso na Mente”, que traz à tona a gordofobia e questiona o padrão de beleza imposto pela sociedade. O que te inspirou a escrever essa música? As pessoas ainda recorrem a isso para te ofender e tentar te desestruturar?

A ideia do som surgiu como um basta pra tudo que acontece com as mulheres. A gente sofre essa parada desse padrão que é colocado pra gente, que a gente tem que seguir pra ser perfeita, pra estar na mídia, em qualquer outro espaço. E esse som foi mais um desabafo mesmo, e acabou interferindo na vida de outras pessoas também, as pessoas me procuram pra falar… Tem um relato de uma mulher que o marido dela a tratava mal porque ela engordou depois de ter filho e tal, e ele pediu desculpas para ela depois que ele ouviu o som, sabe? Porque as pessoas não têm noção do quanto machucam, algumas coisas… E eu acho que a música serviu pra isso, para as pessoas ouvirem e desconstruírem isso.

Pra finalizar, o movimento do Hip Hop é essencialmente de periferia e, por isso, muitas pessoas ainda encaram com preconceito. Como é isso na sua cidade? As pessoas são mais abertas ou desaprovam?

Hoje em dia tá bem mais fácil. Não tanto ainda, porque ainda existe preconceito nas pessoas, mas eu acho que a gente consegue dialogar mais. Mas antigamente era bem pior… As pessoas achavam que era coisa de bandido e não entendiam realmente que é um manifesto periférico e que vai falar de crime e de droga porque é o que a gente vive, tá ligado? Então eu acho que hoje em dia tá bem mais fácil sim, porque algumas coisas evoluíram, outras nem tanto, mas eu acho que ainda tem um certo preconceito, mas a gente vem pra desconstruir isso. E tá aí, o rap tá aí na mídia, toca nas rádios… Algumas pessoas acham que por estar no mainstream, por estar na moda, eles acabam aceitando.

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