Especial Mulheres na Arte: “Nós importamos. Surpresa, América!”

O debate sobre a desigualdade de gêneros mostra-se necessário

Ana Flávia Cézar

“Nós importamos. Surpresa, América!”. Com esta fala, a atriz Patricia Arquette encerrou seu discurso na ONU, dias após vencer o Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em “Boyhood – Da infância à juventude”, de Richard Linklater. Na premiação da estatueta, Patricia discursou em prol da igualdade de gêneros e ressaltou a importância de mulheres e homens receberem salários igualitários ao exercerem as mesmas funções. Mas ela não é a única que luta pela causa.

Entre os dias seis e nove de março, o Centro Acadêmico de Psicologia (CAPSI) da Unesp Bauru, organizou o evento “Herdeiras desta sina”, que promoveu discussões cujas pautas eram o lugar ocupado pela mulher na sociedade contemporânea de nosso país.

herdeirasdestasina

Nome do evento foi inspirado na poesia “8 de Março”, de Mauro Iasi, relembrando a violência e injustiças sofridas por 130 mulheres trabalhadoras que morreram carbonizadas devido à um incêndio de uma fábrica têxtil de Nova York, em 1911. (Foto: Divulgação)

Dois eventos tão distintos – Oscar e roda de conversa universitária – comprovam uma mesma urgência: debater as formas de desigualdade entre os gêneros e buscar superá-las.

A visibilidade destes discursos em eventos de maior ou menor proporção é o que promove o empoderamento de cada vez mais mulheres e, assim, a constante busca pela igual valorização dos sexos em termos jurídicos, econômicos e sociais. Além de atentar homens, instituições e organizações empresariais para o debate de reconhecimento de mérito diferenciado entre os sexos.

Brasil ocupa a 71ª colocação na lista. (Foto: bbc.co.uk)

Brasil ocupa a 71ª colocação na lista. (Foto: bbc.co.uk)

O discurso pró-igualdade, de Patricia em uma premiação, não foi o primeiro. Ano passado, no Video Music Awards (VMA), premiação da música feita pela MTV americana, a cantora Beyoncé provocou furor com a canção “Flawless”, cuja letra possui falas da escritora nigeriana e feminista Chimamanda Ngozi Adichie, autora de “Americanah”, livro que narra a vida de uma imigrante nigeriana, mulher e negra, nos Estados Unidos:

“We teach girls to shrink themselves to make themselves smaller /We say to girls, you can have ambition but not too much /You should aim to be successful but not too successful o herwise you will threaten the man”.

(Nós ensinamos as meninas a se retraírem para diminuí-las /Nós dizemos para as garotas: você pode ter ambição, mas não muita /Você deve ser bem sucedida, mas não muito, caso contrário ameaçará o homem).

No Brasil, também possuímos artistas que usam sua voz na mídia para promover maior conscientização sobre o tema. Valesca Popozuda o faz no funk e Pitty, no rock, por exemplo. Valesca assina uma coluna no Jornal Extra e em uma publicação recente, destacou a importância da mulher denunciar a violência doméstica. Pitty utiliza sua conta nas redes sociais para debater o tema constantemente através de falas próprias ou de respostas a usuários que se opõem ao seu discurso.

pitty-twitter

Em uma exibição do programa Altas Horas, da Globo, as cantoras Pitty e Anitta se posicionaram distintamente quanto aos discursos machistas da sociedade e depois de muita polêmica, Pitty se pronunciou em seu twitter. (Foto: Twitter da Pitty /@pittyleone)

Longe dos palcos e telas de cinema, as mulheres brasileiras também vivenciam a desigualdade. Pesquisa feita em 2002 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), indica que as mulheres encontram-se mais concentradas, proporcionalmente, em trabalhos informais e precários do que os homens. Das mulheres ocupadas com 16 anos ou mais, 17% são empregadas domésticas, e, dentre estas, a grande maioria são mulheres negras. Por outro lado, enquanto apenas 2,6% são empregadoras e 26% tem carteira assinada, entre os homens essas proporções sobrem para 5,5% e 33,3%, respectivamente. Em média, as mulheres possuem 7,8 anos de estudos contra 6,8 do sexo masculino (a média brasileira era, em 2003, de 7,2 anos), o que não lhes garantiu melhores condições de trabalho, ou ao menos as mesmas condições de trabalho, ofertadas a eles. Em 2003, os homens recebiam, em média, R$695,4 ao mês, enquanto as mulheres recebiam apenas R$439,9, o que equivale a cerca de 2/3 do salário masculino.

A diferente valorização intelectual e sexual das mulheres nas telas de cinema e estúdios. (Foto: New York Film Academy /Tradução: Getro.com.br)

A diferente valorização intelectual e sexual das mulheres nas telas de cinema e estúdios. (Foto: New York Film Academy /Tradução: Getro.com.br)

Diante este quadro, a reflexão do lugar que a mulher ocupa na sociedade se mostra relevante em variados espaços, como da mídia à universidade, para além do mês de março ou “mês da mulher”.

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