Islândia retira pedido de entrada na União Europeia

Governo eurocético havia prometido a desistência de fazer parte do bloco nas eleições de 2013; a decisão, porém, não deve afetar acordos já existentes entre as partes

Vinicius Passarelli

O ministro da Relações Exteriores da Islândia, Gunnar Bragi Sveinsson, anunciou no dia 12, quinta-feira, a anulação do pedido de adesão de seu país à União Europeia. Ele afirmou em nota oficial publicada no site do ministério que os interesses da Islândia estariam melhor representados fora da UE. O pedido foi apresentado à Letônia, que ocupa a presidência rotativa da UE, e esta, por sua vez informou a Comissão Europeia da desistência.

A anulação do pedido para fazer parte do bloco é um cumprimento de uma proposta de campanha do governo de centro-direita e eurocético que assumiu o poder na Islândia em 2013. A coalizão vencedora nas eleições é formada pelo centrista e agrário Partido do Progresso, do primeiro ministro Sigmundur David Gunnlaugsson e que defendia a desistência imediata da adesão à UE, e pelo Partido da Independência – favorável à realização de um referendo para decidir a questão.

O processo de pedida de entrada da Islândia na União Europeia teve início em 2009, sob o comando de um governo de esquerda. Com a crise financeira mundial que explodiu em 2008, a entrada do país no bloco e a possibilidade em usar o Euro como elemento de estabilização de sua moeda eram bem vistas dentro da Islândia, como uma forma de estabilizar a economia frente a uma forte queda do valor da coroa islandesa.

HALLDOR KOLBEINS - AFP

Líderes dos partidos da coalizão governista Partido do Progresso e da Independência; partidos divergiam quanto à realização de um referendo para decidir sobre a entrada na União Europeia (Créditos: Halldor Kolbeins/ AFP)

Apresentado o pedido formalmente em 2011, as negociações para a entrada definitiva emperraram graças a divergências entre as partes frente às questões da pesca e da agricultura, atividades que sustentam a economia islandesa. Esse assunto, no entanto, nunca foi discutido durante os encontros entre as diplomacias.

O governo seguinte, de centro-direita, havia decidido – mediante um acordo entre os partidos coligados que o compunha – que seria feito um referendo para decidir a retirada ou não do pedido de entrada na UE. A decisão da retirada, feita pelo Parlamento, sem a realização do referendo surpreendeu até mesmo alas governistas que preferiam uma iniciativa tutelada pela aprovação popular.

Segundo o governo, a não-entrada da Islândia na UE não deve interferir nos acordos já existentes entre o país e o bloco, representados pela Associação Europeia de Livre Comércio (AELC) e pela Convenção Schengen, que prevê a livre circulação de pessoas.

Integração europeia e o euroceticismo

A doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, Cinthia Campos, não acredita que a decisão do governo Islandês configure uma crise e um enfraquecimento da integração europeia, uma vez que, em sua história, a retirada de um país do bloco não é uma novidade. “Certamente a recuperação econômica em tempo recorde da Islândia e a política europeia de subsídios no setor de Pesca contribuíram para uma desistência na adesão. No entanto, não creio que o fim precipitado do processo se traduza em um enfraquecimento da legitimidade da União Europeia, explica Cinthia. Ela acrescenta que os Estados são soberanos para decidir quando acordos nesse nível de profundidade trará mais benefícios do que prejuízos.

Sobre a relação entre a orientação ideológica dos governos e o euroceticismo, a professora argumenta que este sempre existiu no continente, independente do espectro político a que pertence os governos. “Como evidência, basta observar a configuração do Parlamento Europeu em que partidos opostos ideologicamente, porém eurocéticos, votaram em conjunto, a exemplo do GUE (European United Left) e UEN (Union for Europe of Nations), em meados dos anos 2000”.

Para ela, o que precisa ser observado é se haverá uma virada ideológica nos governos nacionais e no Parlamento Europeu, uma volta da esquerda, impulsionada pela chegada do esquerdista Syriza na Grécia. “Na Espanha, movimento semelhante ganha força com o Podemos. Na Itália, o Movimento 5 Estrelas, partido de centro-esquerda liderado por Beppe Grillo teve votação expressiva nas últimas eleições. O que há de comum? São países em crise que estão escolhendo a via da esquerda eurocética para representar suas insatisfações com a integração europeia, ao passo que os países ao norte europeu, os menos atingidos pela crise, flertam com partidos da extrema direita eurocética e anti-imigrante”, argumenta a professora.

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