Especial: Tensões e instabilidade se intensificam na Venezuela

O país sul-americano enfrenta uma de suas piores crises desde a morte de Hugo Chávez em 2013

Julia Gonçalves

No dia 24 de fevereiro, o estudante de 14 anos, Kluiver Roa, foi assassinado com um tiro na cabeça por um policial durante um protesto contra o presidente Nicolás Maduro, em San Cristóbal, oeste da Venezuela. O motivo da morte ainda não foi definido. Alguns jornais alegam que o jovem caminhava pela rua quando foi abordado e outros, que ele fazia parte de uma manifestação estudantil na Universidade Católica de Táchira quando entrou em conflito com os policiais. O policial responsável pelo disparo foi detido e o Ministério Público abriu um inquérito para investigação do caso.

A morte do jovem Roa ocorreu cinco dias após a prisão do prefeito de Caracas Antonio Ledezma. A causa da prisão, segundo o presidente Maduro em discurso à rede nacional, é que Ledezma “cometeu crimes contra a paz do país, a segurança e a Constituição” e teria sido participante de uma tentativa de golpe de Estado contra o atual líder venezuelano.

A conjuntura destes acontecimentos intensificou o número de protestos no país inteiro, que vem acontecendo desde 2014. “Os protestos se inserem em contexto ambivalente de deterioração da governabilidade do país após a morte de Hugo Chaves e a insatisfação de porção da sociedade com as dificuldades econômicas enfrentadas”, explica o doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, Thiago Gehre.

Body of 14-year-old student Kluiver Roa is carried after he died during a protest in San Cristobal

O jovem Kluvier Roa foi uma das vítimas da repressão policial na Venezuela (Créditos: Reuters)

Para tentar conter as manifestações da oposição, o Ministério da Defesa permitiu o uso de armas de fogo por parte dos policiais. Segundo o doutor em Ciência Política pela Universidad de Salamanca, João Botelho, “as reações de Maduro estão no limiar entre o legal e o cerceamento da oposição, assim como as ações da parcela radical da oposição se situam na corda bamba entre o legal e a incitação da violência e do golpe de Estado”.

No entanto, segundo a Procuradoria Geral, somente em um mês e meio de protestos, 39 pessoas foram mortas, além de 550 feridos e 81 investigações abertas por violações dos direitos humanos. O doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, Alexandre Barbosa, completa que “Maduro de fato está se defendendo de golpes, mas ao tentar reagir à altura aos movimentos de desestabilização, as forças de segurança geram confrontos violentos. A oposição aposta nisso para enfraquecer ainda mais Maduro, para ela, quanto mais sangue melhor”. Na opinião do doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo, Valter Pomar, “uma parte da oposição de direita está tentando criar as condições para algum tipo de golpe”.

Crise

A situação socioeconômica na Venezuela, país ao norte da América Latina, tem sido instável há mais de uma década. O governo de 15 anos de Hugo Chávez implantou uma reestruturação da política interna: os dividendos da PDVSA, a estatal de petróleo do país, foram voltados para programas sociais de redistribuição de renda e de fortalecimento do estado. O contexto internacional de alta do petróleo do momento favoreceu e permitiu tais medidas, gerando renda para a Venezuela. Em contrapartida, o governo de Chávez passou por momentos críticos como a tentativa de golpe estatal em 2002 e alta inflação constante. Para tentar conter a saída de capital do país, o então líder aplicou medidas como congelamento de preço e controle de câmbio.

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Em protesto, estudantes se deitam no chão (Créditos: AFP)

Com a morte do governante chavista em 2013, Nicolás Maduro foi então eleito como presidente. No entanto, o momento de sua posse não foi favorável. O petróleo passava por uma crise que influiu diretamente na renda do país, que representa cerca de 95% das receitas de exportação do país e mais de 40% do orçamento do governo. “O petróleo é essencial no funcionamento da economia venezuelana” explica Pomar e com a queda de US$ 100,00/barril para menos de US$ 50,00 a situação não poderia ser pior.

Maduro “sem a liderança política e carismática de Chávez, com um contexto internacional de crise e menos dividendos para uma economia muito dependente da exportação de petróleo” sofreu o ataque das oposições venezuelanas, “que conseguiram se articular e levar parcela da população a criticar o governo”, comenta o doutor Alexandre Barbosa.

A crise tem mudado a vida dos venezuelanos que sofrem em fazer compras no país.  Agora, a população tem que ficar horas em filas de supermercados para comprar seus suprimentos básicos como papel higiênico, fraldas, leite, congelados, medicamentos, que se tornaram escassos. A escassez é resultado da queda de produção interna e ao fechamento para o mercado externo. O “esperar em filas” se tornou tão comum que virou profissão, algumas pessoas vendem seus lugares, enquanto outras – 65% segundo a consultoria Datanalisis, revendem os produtos por um preço bem maior.

Em meio a esta situação, surge o mercado paralelo. Gehre frisa que “mercado paralelo existe em qualquer economia do mundo seja capitalista ou socialista”. Em momentos de crise essa prática se torna mais comum: “há vários mercados paralelos na Venezuela, como o de dólar e o de gêneros de primeira necessidade, que se originam dos controles sobre câmbio e preços”, relata o doutor João Botelho.

Com a proximidade das eleições venezuelanas, se Maduro não conseguir reverter a atual crise, as chances de algum partido da oposição ser eleito são grandes e significariam o fim do Socialismo no país.

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Protestos com vítimas ocorrem principalmente no norte e oeste do país (Créditos: Estadão)

Impacto

A crise na Venezuela preocupa o mundo inteiro. Em nota publicada na página do Partido dos Trabalhadores, o partido relata que condenam os fatos e ações com vistas a desestabilizar a ordem democrática venezuelana  e que somam à rede de solidariedade mundial para informar e mobilizar os povos do mundo em defesa da institucionalidade democrática no país.

O Brasil e a Venezuela vivem uma conjuntura política similar. Segundo o doutor Alexandre Barbosa, “sem a carismática liderança de Lula e com a crise econômica afetando a economia e alguns programas sociais, somada à articulação da oposição que deseja voltar ao poder, está mais fácil promover protestos contra o governo no Brasil”. Além disso, soma-se a essa equação as denúncias de corrupção do governo.

Com o neoliberalismo dominando a América Latina, é difícil para a Venezuela encontrar parceiros dentro do continente. Barbosa conclui que “os países do continente ou caminham para rupturas mais agudas em relação ao capital para dar conta dessas necessidades de transformação ou vão se voltar para políticas liberais que buscam reverter o estado a um tamanho mínimo priorizando o capital privado. Infelizmente, parece que esta última situação é que se mostra no horizonte”.

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