A mulher negra muito além do samba

Temas abordados no carnaval de 2015 geraram algumas polêmicas e nos fazem refletir sobre questões como o papel e representação da mulher negra nessa tradição

Juliana Borges

O carnaval é hoje uma tradição lucrativa para o ramo do turismo e do entretenimento no Brasil. Mas levou um bom tempo para que ela chegasse aonde chegou. Uma das primeiras manifestações carnavalescas era praticada pelos escravos no período colonial, passando por várias modificações durante os séculos seguintes até chegar ao que conhecemos hoje: afoxé, frevo, marchinhas, escolas de samba, trios elétricos e também uma importante atividade comercial.

Carnaval em 1975: as protagonistas eram mulheres mais reais. (Créditos: Catraca Livre)

Carnaval em 1975: as protagonistas eram mulheres mais reais. (Créditos: Catraca Livre)

O carnaval e o feminismo
Nessa época do ano, algumas mulheres aproveitam o momento de festa para levar à sociedade algumas questões como o empoderamento da mulher e o combate à violência. Nesse ano não foi diferente: muitos blocos feministas saíram às ruas. No Rio de Janeiro, grupos como o Mulheres Rodadas e o bloco Comuna que Pariu – com o enredo “Lugar de mulher… É onde ela quiser” – desfilaram contra o machismo. Esse movimento vem crescendo ao longo dos últimos anos, e agora se repete em outras cidades com alguns blocos que saem às ruas pela primeira vez, e outros que já completam dez anos de existência.

Mulheres do Think Olga durante protesto feminista no Carnaval (Créditos: BBC Brasil)

Mulheres do Think Olga durante protesto feminista no Carnaval. (Créditos: BBC Brasil)

As mulheres negras são destaque nessa época do ano, e um bom exemplo disso é a tão famosa Globeleza, mulher negra que samba nas vinhetas da emissora com o corpo pintado apenas. Porém esse tipo de destaque faz com que haja uma “hiperssexualização” e ainda maior objetificação dos corpos dessas mulheres, que já sofrem com isso fora do período carnavalesco.
São pouquíssimas as mulheres negras realçadas pela televisão brasileira, e aquelas poucas que aparecem são retratadas como a mulata do samba, a morena fogosa, “da cor do pecado”, ou a empregada doméstica.
A psicóloga Jarid Arraes, jornalista e colunista da revista Fórum é também fundadora do FEMICA – grupo Feminista da região do Cariri, interior do Ceará – e fala um pouco da sua visão sobre o assunto: “Na minha perspectiva, não há avanços na forma como a mulher negra é vista no carnaval. A Globeleza é o símbolo maior do racismo misógino direcionado contra as mulheres negras: representa o que a sociedade pensa das mulheres negras – que são hipersexuais, mais provocantes, que são um tipo diferente das mulheres brancas porque são mais sexualmente disponíveis e, portanto, representam o carnaval, que é a festa onde tudo é permitido. É terrivelmente sintomático o fato de que nossa cultura ainda tolera esse tipo de manifestação racista que trata mulheres negras como meros objetos sexuais ou de piada”.

Tradições e contradições

A atriz brasileira Cacau Protásio quebra estereótipos e sai fantasiada de Branca de Neve pela escola de samba União da Ilha do Governador. (Foto: Julio César Guimarães/UOL)

A atriz brasileira Cacau Protásio quebra estereótipos e sai fantasiada de Branca de Neve pela escola de samba União da Ilha do Governador. (Foto: Julio César Guimarães/UOL)

No carnaval de 2015, porém, diversos temas foram abordados pelas escolas de samba. A escola União da Ilha do Governador que adotou o tema “Beleza Pura?” fez construções ousadas e irreverentes em seu desfile. Um exemplo disso foi a Branca de Neve negra e gorda na comissão de frente do desfile. Com um samba enredo que dizia “… é beleza pura, vem no tempo, vai no vento, quem vai julgar? O povo sempre deu um jeito de se enfeitar. Cada um é tão bonito quanto possa imaginar”, e “… a beleza tá no seu interior, nos olhos de quem vê, no verdadeiro amor”, a escola mostrou um avanço em relação a representação das mulheres negras no carnaval brasileiro. Mostrou para toda nossa sociedade que sim, aquele lugar é de uma negra.

Por outro lado, totalmente divergente do apresentado, temos o caso da escola de samba Beija Flor de Nilópolis, que adotou a atriz Cláudia Raia para representar uma deusa africana em seu desfile sobre a África e a Guiné Equatorial, ou como estampam algumas capas de revistas e jornais: para “encarnar” o poder africano no desfile.
Jarid Arraes fala um pouco da sua opinião sobre o tema abordado pela escola Beija Flor de Nilópolis: “O equívoco é gigantesco. Os movimentos feministas e o movimento negro lutam há muitas décadas para chamar a atenção da sociedade para a invisibilidade das mulheres negras; denunciamos a ausência de espaço e oportunidades para as mulheres negras, então é ultrajante constatar que nem mesmo quando uma divindade africana é retratada, o espaço não é concedido a uma mulher negra. As escolas buscam destaques famosos, ou seja, pessoas que chamem atenção pela fama que possuem em outros âmbitos para além do carnaval”.

Atriz Cláudia Raia representa uma divindade africana e desfila pela escola de samba Beija Flor. (Foto: Alexandre Durão/G1)

Atriz Cláudia Raia representa uma divindade africana e desfila pela escola de samba Beija Flor. (Foto: Alexandre Durão/G1)

Show business
Por que colocar uma atriz global branca para representar uma divindade africana? Antigamente, as rainhas de bateria das escolas de samba eram da própria comunidade da escola, anônimas ou famosas, mulheres que se dedicavam por anos ao samba. Após uma grande repercussão, a coroa passou a ser muito valorizada e, nos dias de hoje, pode ser também comprada. Isso faz com que muitas mulheres da própria comunidade, em sua maioria negras, percam lugar para mulheres famosas. Isso descaracteriza o desfile e transforma a tradição em um espetáculo de negócios.
A graduanda de psicologia e integrante do Coletivo Feminista Abre Alas e do Coletivo Negro Kimpa da Unesp, Julia Conceição, fala um pouco da sua visão sobre o assunto: “Essa imagem que é passada no carnaval, aliada à falta de representatividade em outros âmbitos, favorece a visão de que nós, mulheres negras, somos apenas fogosas, que não precisamos de amor, que o sexo e o nosso corpo são as únicas coisas que importam, e isso não é verdade. Esse pensamento, que é favorecido, contribui pra solidão da mulher negra, que, segundo estatísticas, é a que menos namora e menos casa. Somos muitas vezes vistas como pessoas que não precisam de cuidados e carinho e isso também prejudica muito nossa autoestima”.

Direto ao ponto
A mulher negra tem um espaço cada vez menor na mídia e na sociedade em geral. O carnaval é um dos momentos, ou talvez o único, em que elas ganham uma repercussão enorme. Mas nem sempre isso se dá da maneira como elas esperavam, com um enfoque positivo, o que acaba por agravar os problemas raciais que elas já enfrentam todos os dias, e também afetar a autoestima de cada uma delas, os seus sonhos e a visão que possuem de si mesmas.
Julia ainda conclui sua opinião com um recado para todas as mulheres negras do país: “Eu desejo que as meninas negras não se vejam apenas como “as negras do samba”, mas quero que elas se vejam como historiadoras, médicas, engenheiras e o que for… Eu quero que o carnaval seja um aspecto da vida da mulher negra, mas não o único. Quero que elas sintam que podem ser o que quiserem, que saibam que são lindas, inteligentes, amáveis, e que podem estudar e trabalhar seja lá com o que for. Esse tipo de representatividade falta e muito, e é isso o que eu quero”.

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