Eu preciso, tu precisas, ela precisa: feminismo para quê?

Desde que surgiu, o movimento feminista enfrenta diversas interpretações equivocadas. Afinal, para quem e para que ele serve?

Thamires Motta

As últimas eleições para a presidência testemunharam um momento inédito no Brasil: uma mulher foi reeleita ao cargo mais importante da República. Entre toda a população, 62% dos votantes no país são mulheres. Isso significa que são seis milhões de mulheres a mais do que homens tendo a oportunidade de digitar suas posições nas urnas. A quem devemos esse direito? Ao movimento feminista.

Você provavelmente deve conhecer uma amiga, prima ou irmã que tem relações sexuais com o parceiro ou parceira apenas pelo prazer. Seus pais provavelmente já não fazem mais sexo com o objetivo de “aumentar a família”. Hoje é possível se prevenir usando métodos contraceptivos como o preservativo ou anticoncepcional. E sim, nós também devemos isso ao movimento feminista.

O feminismo não é só um movimento social, é um método de luta e uma grandiosa ferramenta para fortalecer mulheres, mas que muitas vezes é desacreditado ou confundido como um “discurso de ódio” por aqueles que não compreendem ou não querem conhecê-lo a fundo. A militante Stephanie Ribeiro, negra e feminista, foi vítima de diversas situações racistas na universidade em que estuda em São Paulo. “O machismo é todo um sistema no qual os homens são privilegiados das mais diversas formas, desde poder sair sozinhos numa madrugada sem ficar temendo um estupro, até ganhar salários maiores”, explica ela.

O movimento feminista possui diversas correntes e concepções, mas muitas das lutas são centralizadas na busca por igualdade e fortalecimento. (Créditos: Thamires Motta)

O movimento feminista possui diversas correntes e concepções, mas muitas das lutas são centralizadas na busca por igualdade e fortalecimento. (Créditos: Thamires Motta)

Mas, o feminismo não é o contrário de machismo?

Pode contar para os seus amigos, família e pro pessoal do trabalho: não, o feminismo não é o mesmo que machismo. O primeiro remete a um segmento da sociedade – as mulheres – que lutam por um princípio básico: a igualdade. O machismo é um conjunto de atitudes e ideias que supõe a “superioridade” do gênero masculino. O problema é que o machismo está enraizado em milhares de atitudes do cotidiano, como ridicularizar as mulheres por sua condição. Quem nunca ouviu “dirige mal, só podia ser mulher mesmo” ou “lugar de mulher é na cozinha”?

A ideologia machista é parte também do comportamento violento de muitos homens, que usam essa relação de poder para, por exemplo, forçar uma garota a beijá-lo. Essa relação de poder significa que o homem tem liberdade para agir dessa forma sem sofrer punição ou crítica. Quantas vezes você já viu uma garota sendo forçada a ceder, a beijar, levando puxões de cabelo ou um apertão no braço caso ela se recusasse? E quantas vezes já viu um homem nesse tipo de situação?

As mulheres sentem o machismo desde a sua face mais cruel - que pode ser o assassinato - até os pequenos resquícios dele na sociedade, como as piadas sexistas. (Créditos: Reprodução/Vítor Teixeira)

As mulheres sentem o machismo desde a sua face mais cruel – que pode ser o assassinato – até os pequenos resquícios dele na sociedade, como as piadas sexistas. (Créditos: Reprodução/Vítor Teixeira)

Machismo mata, feminismo não

Camila Portela também é militante feminista e, como mulher negra, reconhece que a luta é ainda mais árdua nesse caso. “Hoje, existe um ímpeto humanista das pessoas em igualar as opressões, não para combatê-las, mas sim para anulá-las”, afirma. Ela explica que é mais simples acreditar que os homens sofrem tanto quanto as mulheres porque isso evita o pensamento crítico, como se todos tivessem os mesmos direitos. Na teoria, a Constituição prevê igualdade, mas, na prática, a situação é desoladora.

Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revelaram que de 2009 à 2011 ocorreram em média 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano. Significa que uma mulher foi assassinada a cada uma hora e meia. Já o 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou que no ano de 2013 mais de 50 mil casos de estupro foram registrados no país. Significa uma pessoa estuprada a cada 10 minutos. Apesar dos avanços da Lei Maria da Penha, apurou-se que, mesmo depois da lei, as taxas de violência permaneceram altas. Significa que é preciso mudar a mentalidade, aplicar e ampliar a lei, preparar todos os profissionais possíveis para auxiliar no combate a violência e unir-se em prol do feminismo.

As mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil apenas em 1933. Somado a isso, outras conquistas vem se acumulando e são muito importantes para as novas gerações. (Créditos: Thamires Motta)

As mulheres conquistaram o direito ao voto no Brasil apenas em 1933. Somado a isso, outras conquistas vêm se acumulando e são muito importantes para as novas gerações. (Créditos: Thamires Motta)

Posso ser feminista e não odiar homens?

Ultimamente, vem surgindo com maior frequência nas redes sociais a utilização do termo “misandria”, cujo significado pode ser relacionado à raiva, ódio ou hostilidade ao sexo masculino. Para Stephanie, a atenção tem que ser voltada para uma palavra análoga à essa: a misoginia, que indica o ódio às mulheres. A militante reforça que esta, sim, tem o poder de matar todos os dias. “Mulheres não odeiam homens e por isso são feministas, mulheres são feministas porque odeiam o sistema opressor que tira direitos delas”, explica. Já Camila opina que misandria e feminismo podem se relacionar e acabar indicando um comportamento defensivo da mulher. “O comportamento misândrico requer atenção, pois pode ser resultado de uma opressão sofrida, pode revelar traumas”, diz.

Para ambas, a prioridade é informar e fortalecer mulheres, principalmente as que se encontram às margens da sociedade. “Enquanto mulheres estiverem sendo agredidas, estupradas ou mortas, principalmente aquelas que carregam mais de uma opressão, como ser transexual ou negra, não se pode falar que não se precisa do feminismo”, conclui Stephanie.

Qual é o seu feminismo?

As vertentes do movimento feminista são muitas e cada uma delas possui reivindicações que podem se entrecruzar, mas que em sua essência reforçam a proposta de empoderamento da mulher. O feminismo negro, lésbico, o transfeminismo, o classista, cada um deles se organiza em torno de uma opressão em comum, que é o gênero, e uma opressão diferenciada, que é o recorte de características de um grupo que o coloca em desvantagem perante outro. Por exemplo, mesmo que sejam duas mulheres, uma mulher negra sofre racismo, coisa que uma mulher branca jamais passará. Essa mulher negra possui pautas específicas, já que negros no país são os que têm menor escolaridade, menores salários ou acesso à saúde, conforme informou a ONU em um relatório sobre a situação da discriminação racial do Brasil.

O feminismo é para você, para a sua mãe, suas amigas, tias, primas e vizinhas. É para as suas colegas de trabalho, de faculdade, para as mulheres que você conhece no ônibus. O feminismo é, sobretudo, para a sua liberdade, para aumentar sua voz. Acredite: você nunca vai ficar sozinha, e isso te fará cada vez mais forte, pois fortes e unidas é que as mulheres têm mudado o mundo.

Historicamente o 8 de março é "Dia da Mulher", mas para os movimentos organizados, é um dia de manifestações e visibilidade para as lutas, como no ato ocorrido em São Paulo em 2013. (Créditos: Thamires Motta)

Historicamente. o 8 de março é “Dia da Mulher”, mas, para os movimentos organizados, é um dia de manifestações e visibilidade para as lutas, como no ato ocorrido em São Paulo em 2013. (Créditos: Thamires Motta)

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