Entrevista: Com prazer, SILVA

Depois do boom de Claridão, hoje SILVA está mais acostumado com a fama

Heitor Facini

Lúcio da Silva Souza, ou simplesmente SILVA, é músico de nascença. Desde pequeno, sempre se viu nesse meio; é como se a música estivesse enraizada nele. Seu talento vem sendo mostrado ao público desde o lançamento de seu EP, em 2009, até “Vista pro Mar”, lançado neste ano, passando pelo trabalho intitulado “Claridão”.

Vindo de um início de carreira conturbado, ele se sente mais confortável com o que vem fazendo agora. O WebJornal acompanhou o show que o músico fez no Sesc de Bauru no último dia 17 de setembro e traz para você uma entrevista exclusiva com ele. Confira:

SILVA, em seu show no Sesc de Bauru. (Foto: Heitor Facini)

SILVA em show no Sesc de Bauru. (Foto: Heitor Facini)

Como foi o seu primeiro contato com a música e como você decidiu entrar nesse meio?

Minha mãe é professora de música, trabalhou na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e hoje trabalha na FAMES (Faculdade de Música do Espírito Santo), então eu sempre tive contato desde pequeno, nem tive opção, era obrigado a ir às aulinhas. Estudei piano, aí fui para o violino, que eu estudei até dois anos atrás quando me formei no bacharelado, entre outros. Só que eu sempre fui muito curioso, nunca gostei de ficar preso a uma galera só. Lembro que um tio meu que morava em Londres e era pianista também trouxe um CD do Gorillaz pra mim. Eu era muito novinho. Foi em 98 ou 99. Fiquei ouvindo o disco e fiquei muito curioso com esses sons de sintetizadores. Aí eu comecei a entrar nesse universo, baixar todos os softwares possíveis de música e ficar brincando, uma coisa meio nerd mesmo. Mas (minha carreira) deu uma reviravolta mesmo quando eu fui morar fora do Brasil. Foi em 2009. Fui morar na Irlanda para ter essas experiências internacionais. Juntei uma grana e fui igual a um maluco, sozinho. Tinha para ficar um mês e acabei ficando 1 ano e meio. Lá eu comecei a fazer minhas próprias músicas. Foi a minha primeira experiência assim. Eu sempre participava de projetos de amigos, tocava como músico de apoio nas bandas, sabe?! Fiquei super empolgado. Comecei a juntar instrumento, gravar em casa, ficar brincando com isso até que saiu o meu primeiro EP. Enfim, vim parar aqui.

O seu primeiro EP foi gravado por sua conta? Como foi o processo de produção?

É um negócio que, quando eu comecei a gravar sozinho, foi uma necessidade. Primeiro que eu não tinha grana para ir para um estúdio grande e poder experimentar um pouco. Bom, se falar pra alguém desse ramo, vão me bater, mas eu tenho uma coisa com experimentalismo. Então, eu nunca conseguiria ir ao estúdio e ficar de hora contada. Tem que ter calma, tomar um café, abrir uma cerveja, fazer uma parte… Eu adorei fazer isso em casa. Ficava manipulando o som até ficar soando bem. Claro que se você me perguntar “Você queria gravar num estúdio grande?”, eu gostaria, mas pra mim não era uma saída viável, sabe?! E até hoje eu faço isso. No “Vista pro Mar” eu fiz uma boa parte do disco em casa.

Depois do lançamento do EP, você tocou no Sonár, em 2012. Como foi tocar em um festival tão grande com tão pouco tempo de carreira?

Foi assustador. Eu lembro que tinha ficado super ansioso, dormindo meio mal. Meu EP foi lançado não tinha nem dois meses, aí recebi um e-mail do curador do Sonár. Eu já ia ao Festival, tinha várias bandas que queria ver. Quando eu fiquei sabendo que eu ia tocar, fiquei super feliz e, ao mesmo tempo, “Nossa, tenho que trabalhar muito”. Era em maio [o Festival] e foi em dezembro [de 2011] que fui convidado. Eu não tinha banda, só tinha o Guinho, que é o baterista que toca comigo. Eu falei assim: “Bom, eu vou fazer um show, eu não posso ter só cinco músicas”, tive que começar a compor. Aí já entrou a Som Livre com uma proposta de contrato. Meu irmão me ajudou nessa, ele é meu empresário. Tive que começar a fazer o “Claridão” e foi tudo muito conturbado. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Meu avô morreu nessa época, eu sempre fui muito apegado a ele. Ele sempre foi meu patrocinador, meus pais também, mas ele foi aquele cara que falou “Estuda violino mesmo” e me deu o primeiro violino bom. 2012 foi um ano muito louco pra mim. Não foi à toa que eu quis fazer uma música com esse nome: 2012. A música meio que fala de fim de mundo. Eu estava vivendo esse caos na época.

Como foi essa mudança de gravar de forma independente para uma grande gravadora?

Foi uma coisa muito natural, porque quando a Som Livre veio me procurar, veio por causa da repercussão do EP. Na época, eu estava engatinhando, mas eu já tinha uma cara. Tinha muitas críticas boas na internet, tinha respaldo. Eles não vieram com papo de gravadora de “Ah, você vai ter de se vestir assim, vai ter de ser assim, você vai ter de malhar e ficar forte”, sabe?! Eu podia ser quem eu quisesse. Eles não me obrigaram a gravar em estúdio. Eles tinham um estúdio na época e me deixaram gravar em casa. Falavam “Se você apresentar um trabalho com a mesma qualidade que você já apresentou antes, pode gravar onde você quiser”. Eles dão esse respaldo da distribuição, investiram uma grana no começo pra comprar instrumentos novos pra fazer show. Então pra mim foi ótimo.

O que mudou do SILVA de “Claridão” para o SILVA de “Vista pro Mar”?

É muito engraçado isso. A música que eu estou ouvindo no carro reflete exatamente o que eu estou sentindo. Meus amigos falam “Ih, você tá de mau humor hoje, né?!”, quando eu estou ouvindo algo mais dark, pesado. No “Claridão”, eu estava numa fase super conturbada pessoalmente. Então, acho que o disco tem uma coisa mais melancólica, bem angustiada. Já o “Vista Pro Mar” foi em um momento que eu estava mais calmo. A morte do meu avô já tinha passado, já era acostumado com o meio musical, com o palco, com essa correria, então eu estava curtindo, sentindo necessidade, até nos shows mesmo, de fazer músicas que fossem um pouco mais felizes, que trouxessem uma vibe mais leve, sabe?! Acho que essa é a diferença. “Vista pro Mar” sou eu já num momento mais confortável com o que estou fazendo. No “Claridão”, eu estava naquele susto.

Você utiliza bastante recurso da música eletrônica e isso não é comum aqui no Brasil. Por que esse uso e por que você acha que não é tão comum assim?

O país ficou conhecido com essa coisa do banquinho, do violão, do João Gilberto. Adoro tudo o que essas pessoas trouxeram para a música, mas, ao mesmo tempo, acho que a gente ficou um pouco atrás (na música eletrônica). Eu lembro que os sintetizadores, quando vinham nos anos oitenta para o Brasil, eram caríssimos. Minha mãe disse que o primeiro teclado que ela ganhou era um presente igual a você ganhar um carro, sabe?! Era muito caro. Geralmente, é quem vai viajar pra fora que consegue comprar. Tem isso de não ser da nossa cultura e do preço ser muito alto, mas eu acho que é uma tendência as pessoas começarem a utilizar desses recursos eletrônicos, porque você pode não ter um teclado, um violão, um piano, mas você tem ali seu laptop, você consegue produzir coisas com aquilo. Acho isso incrível. É um privilégio o que a nossa geração tem e eu acho que não tem como fugir disso. Vai acabar vindo pra música brasileira com mais força em algum momento.

Também tem bastante preconceito de que DJ não é músico, né?!

Exatamente, tem muito disso. A cultura de Club aqui não é muito grande. [Em] gênero de música eletrônica, tipo House e Techno, a gente não tem tanta história. Tem algumas coisas super interessantes, como no final dos anos 90 e também o Gui Boratto, que não é um dos meus favoritos, mas acho incrível que ele conseguiu fazer um Techno que a galera realmente respeita, sabe?! Eu torço para que isso seja mais comum aqui no Brasil.

Nesse ano você tocou em outro festival, o Lollapalooza. Qual foi a diferença em relação ao Sonár?

Foi completamente diferente, primeiro pelo momento: o Sonár foi o primeiro show que fiz com o Hugo e era só eu e ele no palco, foi meio assustador. E o Sonár tem uma linha mais experimental, né?! Tinha um cara que se apresentou depois da gente que tocava Metal, com vários amplificadores de guitarra fazendo Noise Music, só ruido de guitarra, pesadão. Já o Lollapalooza é um festival de música Indie e Pop. Foi uma sensação muito diferente. O público do Sonár é aquele público que fica assim “Hmm, deixa eu ver o que é que esse cara tem a me dizer” e o público do Lollapalooza é um público que, quem conhece, vai cantar junto, é mais festivo.

Pra finalizar, quais serão os seus próximos passos?

Então, eu vou pro Japão agora em outubro, que era meu sonho do sonho do sonho. Aí eu me inscrevi para aquela Red Bull Music Academy e eles me chamaram. Vou ficar 20 dias lá e vai ter gente de todo canto e lugar do mundo. Um produtor do Kanye West e uma galera do Hip Hop vão. Acho que vai ser uma experiência importante, vai abrir muito a minha cabeça. Eu estava cheio de ideias e, quando foi chegando perto dessa viagem, fiquei assim “Não, deixa eu diminuir o ritmo, deixa eu ver o que eu vou ver lá primeiro”. Deve ser um lugar muito louco lá, né?! Eu nunca fui, não tenho nenhum amigo próximo que foi também pra me dizer, então acho que vai ser legal.

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