Foto sem make: você se sente à vontade?

Dependência de padrões estéticos é questionada pela campanha #StopTheBeautyMadness

Bianca Landi

No ano de 2004, em dez países, 3.200 mulheres de idade entre 18 a 64 anos foram entrevistadas pela pesquisa “A Real Verdade Sobre a Beleza”, conduzida pela empresa StrategyOne. Apenas 2% das mulheres entrevistadas usaram a palavra “bonita” para descrever sua própria aparência, contra 31% que elegeram o termo “natural” e 29% que escolheram “normal”.

Esses dados, embora antigos, são reflexo do universo criado por revistas e anúncios que mostram um ideal de beleza a ser alcançado, apresentado de maneira muito convidativa e adorável, quando, na verdade, ele não existe. Até mesmo as mais famosas modelos têm que passar por tratamentos de imagem para que as imperfeições de seus corpos sejam corrigidas e disfarçadas.

Com o intuito de questionar a importância da estética nos dias atuais, a escritora britânica Robin Rice criou a campanha #StopTheBeautyMadness (“Parem com a loucura pela beleza”, em português), que, recentemente, alcançou grande repercussão no mundo todo. Por meio de uma série de anúncios com mensagens de impacto, o projeto visa a reflexão sobre conceitos acerca da aparência e mostra, dessa forma, a vida além do padrão da mulher branca, alta, magra e sem curvas que é propagado pela publicidade. Para ela, a importância dos anúncios está em criar empatia. Ao ter contato com eles, as mulheres entendem o que está sendo relatado e, mais do que isso: elas se sentem compreendidas também. A representatividade criada por essas publicidades faz com que elas reconheçam seus próprios problemas por meio da reflexão e, dessa forma, estejam mais conscientes para combatê-los.

Campanha visa a reflexão dos padrões impostos pela sociedade de consumo e atenta para os malefícios para a autoestima. (Créditos: StopTheBeautyMadness)

Campanha visa a reflexão dos padrões impostos pela sociedade de consumo e atenta para os malefícios deles para a autoestima. (Créditos: StopTheBeautyMadness)

É claro que ninguém está livre dos padrões de beleza impostos pela sociedade de consumo, mas as principais vítimas deles são, sem dúvida, as mulheres, que sofrem uma pressão descomunalmente maior sobre a forma como se vestem, se portam, se maquiam – ou se não se maquiam – etc. A consultora de moda Grazy Bernardino relata que, além da publicidade voltada para a mulher, a que tem o homem como público-alvo também influencia o público feminino: “Os editoriais de revistas e sites voltados para o público masculino geralmente mostram mulheres ‘perfeitas’ e isso aumenta ainda mais essa cobrança para a mulher ser linda e atraente. O próprio homem acaba impondo para a mulher e não para si esses padrões, pois não são tão ligados a essa imagem deles mesmos”.

No Brasil, a campanha alcançou grande repercussão com enfoque no abuso de maquiagem devido a uma uma corrente lançada no Reino Unido em 2013, a #NoMakeUpSelfie (#SelfieSemMaquiagem, em português). A empresa de cosméticos Escentual lançou a campanha mundial “Dare To Bare” (“Ouse Se Expor”), visando arrecadar dinheiro e alertar as mulheres sobre a importância de se fazer o exame do câncer de mama. Assim, as participantes da Dare To Bare, além de incentivarem a ideia de deixar a maquiagem de lado, também ajudavam a causa fazendo doações em dinheiro. O resultado foi uma onda de selfies de garotas sem maquiagem no Facebook. Uma vez postadas as fotos, elas desafiavam outras amigas a fazerem o mesmo e, assim, a campanha se alastrou.

No entanto, muitas garotas encararam a selfie sem maquiagem mais como uma punição do que como um desafio. Por que esse tipo de reação? Grazy explica: “Hoje, o acesso à maquiagens e cosméticos é tão fácil e as revistas e programas impõem tanto o uso delas que o não uso é encarado como amedrontador”.

Até que ponto vale a pena se sacrificar para se adequar? (Créditos: StopTheBeautyMadness)

Até que ponto vale a pena se sacrificar para se adequar? (Créditos: StopTheBeautyMadness)

Entre nós

Qual seria, então, o limite do uso adequado e saudável de maquiagens? Para a psicóloga Luciana Kotaka, podemos considerar normal e dentro do controle quando há um consumo equilibrado. “A maquiagem deve ser utilizada somente para realçar a beleza do rosto e não como arma de ataque ou mesmo para promover uma segurança falsa”, ela afirma. Luciana conta também que, devido às grandes taxas de problemas de autoestima nos dias atuais, a psicologia tem se voltado muito para esse tema, objetivando trabalhar a autoimagem e o respeito das mulheres por si mesmas para, dessa forma, resgatar sua autoestima.

Para a publicitária Vanessa Versiani, a dependência de qualquer meio externo – inclusive da maquiagem – diz muito sobre a dificuldade de autoaceitação das mulheres em relação à sua própria imagem. “Ao buscar a reafirmação por meios externos, negamos nosso próprio poder, negamos a possibilidade de sermos felizes como somos”, afirma.

A doutora em Sociologia Marilia Coutinho, autora do recém-lançado livro “Estética e Saúde”, enxerga a campanha como “boba”, e completa: “Não impulsionou em nada a causa maior de empoderar as mulheres a ter autonomia estética. Pode até mesmo ter exercido efeito contrário”. Para ela, “opressão ideológica se combate com educação e comunicação eficiente, com a disponibilização de informação adequada para tomada de decisão”. Já Vanessa acredita que a iniciativa da campanha das selfies sem maquiagem foi válida porque, ao ter início com mulheres famosas que geralmente estão inseridas dentro do modelo aceitável do padrão de beleza, fez com que as pessoas vissem que elas também não são perfeitas, como qualquer outra mulher. A publicitária acredita ainda que, “se a pessoa está pronta para se assumir ou para dar um passo nesse sentido de ter orgulho de sua beleza autêntica, é válido postar essas fotos”. Do contrário, ela alerta, talvez sua autoestima acabe saindo até mais prejudicada por se forçar a fazer algo que ela não se sente à vontade.

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