Crônica: A grama do vizinho

Helena Botelho

Engraçado como a gente não perde essa mania de enaltecer a vida dos outros. E as suas conquistas. E as suas qualidades e tudo mais que os envolve e que, vez ou outra, nós também temos – igual ou melhor.

Não adianta, a grama do vizinho sempre parece mais verde. A garota do outro lado da sala parece sempre mais inteligente, os pais do colega de quarto parecem sempre mais legais, o carro do colega do trabalho sempre parece mais limpo. Temos o péssimo hábito de vangloriar o que é alheio e desdenhar o que somos, fazemos ou temos. Quando leio a matéria de um colega, a boca se enche de elogios: “Uau, parabéns”, “Nossa, a matéria ficou ótima”, “Eu nunca lembraria de explorar esse ponto” e por aí vai. Quando a minha matéria é a elogiada da vez, insisto em mostrar o quão ordinária ela parece perto de tantas outras. Ah, até parece, não é nada demais…

Eu não sei em que ponto da vida somos ensinados a olhar a lancheira do amiguinho como a que tem mais comida gostosa. Talvez seja uma falha dos pais durante a infância, ao nos comparar com os irmãos, primos e coleguinhas da escola. Talvez seja uma falha da educação escolar, que raras vezes nos incentiva a ter orgulho do que realizamos. Ou, ainda, talvez seja uma falha pessoal mesmo – uma junção de frustrações que a vida nos joga nas costas. E digo falha porque, ainda que esse tipo de visão que criamos pareça denotar humildade e modéstia, ela acaba por impedir que mostremos ao mundo tudo o que temos de bom, útil, positivo e agradável a oferecer. Imagine, por exemplo, quantos informes publicitários fantásticos seriam veiculados hoje se os publicitários explicitassem todas as suas ideias, sem o medo de que elas parecessem mais fracas do que a sugestão daquele companheiro de seção? Muitos, certamente.

Sucesso nem sempre é o que se vê.  (Créditos: Feel Positive)

Sucesso nem sempre é o que se vê. (Créditos: Feel Positive)

Há, ainda, um agravante nessa questão se pusermos na balança o tempo em que vivemos: a Era Digital. As redes sociais, embora interessantes e importantes em diversas áreas, influenciam demais a nossa vida fora da rede. A tendência é implícita, mas existe: expor na internet apenas o que consideramos bom, isto é, somente os “pontos altos” da nossa vida – declarações relativas à felicidade e a tudo que pode ser considerado agradável na vida de alguém. É criada e divulgada uma imagem idealizada, em que são ocultados os momentos tristes, as frustrações, as perdas e até o que é considerado feio esteticamente. Nisso, as redes sociais se tornaram um mar de ostentação e vaidade.

Tento me desvincular do hábito de vangloriar aquilo que é dos outros. A minha vida sou eu quem faço, afinal. A minha grama pode até ser menos verde que a do vizinho, mas ela é minha. Eu quem tenho que cuidar. Sei que se eu olhar muito o jardim alheio, vou esquecer o meu e não haverá primavera que o salve.

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