MASP recebe peça “Caros Ouvintes”

Obra, que retrata a decadência das radionovelas no fim da década de 60, estará em cartaz até dezembro

Ana Flávia Cézar 

A peça “Caros Ouvintes”, do diretor Otávio Martins, estreou no último dia 16 de agosto e continuará em cartaz até 14 de dezembro, no Auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP). A obra, recheada de comédia, drama e saudosismo, retrata a insegurança de um grupo de artistas que faziam sucesso na era do rádio e se vêem inseguros diante da modernidade, representada pela chegada da televisão ao Brasil.

A peça mostra o último dia de gravação da radionovela “Espelhos da Paixão”. A luta sindical, num contexto de Ditadura Militar, e o papel da publicidade servem de pano de fundo para o desenvolvimento dos dramas pessoais dos atores. De um lado temos Conceição (Natallia Rodrigues), a mocinha da radionovela, eufórica pela proposta que recebeu para participar de uma novela de televisão no Rio de Janeiro. De outro, temos o ex-galã Péricles Gonçalves (Eduardo Semerjian) que, apesar da voz poderosa e apropriada para o rádio, é careca, velho e usa peruca; portanto, nunca teria espaço no novo veículo de comunicação como um artista. Retratar os aspectos políticos do período como a questão da ditadura e a implementação do AI5, e culturais, como a emancipação feminina e a homossexualidade, não é o objetivo da obra, mas, como lembra Otávio Marins, “falar da ditadura em uma peça que se passa na década de 60 é inevitável”.

Além de Conceição e Péricles, outros personagens colorem o roteiro: o sonoplasta Eurico (Alex Gruli), em crise por não saber fazer nada além de seu trabalho na rádio; o diretor Vicente (Petrônio Gontijo); o locutor Wilson (Rodrigo Lopez), preocupado com o desaparecimento de seu colega, que se juntou ao sindicato; o publicitário Vespúcio (Alexandre Slaviero), anunciador dos novos tempos e da glória da televisão; a cantora decadente Leonor Praxades (Amanda Acosta) e a idosa Ermelinda Penteado (Agnes Zuliani), ex-musa do rádio que preza pelos valores familiares e detesta comunistas. A peça, apesar de retratar os anos 60, conduz a uma reflexão atual sobre as tecnologias e a modernidade, e estabelece um paralelo entre rádio, televisão, jornalismo impresso e digital nos dias de hoje.

Cartaz de divulgação da peça ((Foto: Divulgação)

Cartaz de divulgação da peça. (Imagem: Reprodução)

A sociedade passou a ser influenciada pelos rádios populares a partir da década de 1930. Era costume nacional todas as famílias se sentarem ao redor de seus aparelhos de rádio para ouvir as notícias do país, as radionovelas ou as músicas da moda.

Tal lembrança é viva na mente de Ivete Martins, de 75 anos. “A gente sentava em volta do rádio e tentava ficar o mais perto possível dele, porque não via o ator. Era preciso muita concentração para identificar os personagens”, e completa: “Agora na televisão é muito melhor. Você vê o artista e já sabe o nome e o papel dele na novela. Antes tinha que identificar pela voz”.

Com a chegada da televisão, que por algum tempo foi item de luxo graças ao preço alto, o rádio continuou popular entre as massas e camadas de menor poder aquisitivo, principalmente para o público mais distante dos centros urbanos. Ivete conta que ela e sua família tiveram sua primeira televisão ao mudarem-se para a cidade, em 1964. “A vizinhança toda aparecia em casa para assistir a novela, que era em preto e branco, e às vezes a imagem falhava. A televisão veio por encomenda de São Paulo”. Porém, ela também ressalta a passividade do aparelho como ponto negativo: “É muito melhor ter a imagem hoje em dia. Mas antes, quando só tinha rádio, a gente ouvia lavando roupa, arrumando a casa. Hoje, a gente senta em frente da TV e não faz mais nada”.

Porém, o que era novidade na década de 60, hoje enfrenta o mesmo dilema do rádio. A televisão e o jornalismo impressos se vêem acuados com o advento da era digital e buscam maneiras de se adaptar às mudanças.

Elenco da peça "Caros Ouvintes" (Foto: Divulgação)

Elenco da peça “Caros Ouvintes”. (Foto: Divulgação)

Vanja Mara, de 43 anos, vê com bons olhos essa evolução: “A notícia hoje é muito mais acessível. Está muito mais à mão. Quando só havia o jornal impresso, nem todos assinavam. Era só quem tinha mais dinheiro. Hoje basta abrir uma página na internet e você já tem a notícia. Além da rapidez da informação”. Contudo, ela também afirma que “a quantidade de notícia que surge hoje e nem sempre é checada traz algumas consequências desastrosas e às vezes a gente lê algo e fica pensando se é verdade ou não. E isso não é tão frequente no jornal impresso, que a gente confia mais. O ruim do impresso é mesmo o seu custo e o formato, com aquelas páginas e páginas grandes”.

Há, contudo, espaço para otimismo ao olhar para as novas tecnologias. O rádio não se extinguiu com o surgimento da televisão, assim como o jornalismo digital não colocará fim à televisão ou mesmo ao jornalismo impresso. A tecnologia se adapta, se modifica e se moderniza, sempre.

Não perca!

Peça “Caros Ouvintes”

Quando: De 16 de agosto a 14 de dezembro. Sextas às 18h e 21h | Sábados às 21h | Domingo às 19h30

Onde: Auditório do MASP – Avenida Paulista, 1.578, Cerqueira César

Quanto: Sextas R$ 30 (18h) e R$ 40 (21h)
Sábados R$ 50
Domingos R$ 40

Vendas: (11) 4003.1212 (ou pelo site)

Capacidade: 374 lugares

Duração:90 minutos

Recomendação: crianças a partir de 12 anos

Assista ao vídeo-convite do elenco aqui.

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