Tabaco: apague esta ideia

Tabagismo é a segunda maior causa de mortes no planeta, mas um terço da população mundial fuma

Bárbara Paro Giovani

Apesar de ser a principal causa de morte evitável no mundo, o cigarro ainda é muito presente no cotidiano das pessoas. Pesquisas comprovam que um terço da população mundial ainda é fumante, aproximadamente 47% de toda a população masculina mundial e 12% da feminina. No Brasil, no ano de 2008, 17,5% da população brasileira com 15 anos ou mais eram usuários de tabaco, percentual equivalente a cerca de 25 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Um número alto, mas que já conseguiu ser bastante reduzido devido à medidas legislativas e de conscientização realizadas por alguns países.

O cigarro industrializado se disseminou pela Europa e pelas Américas especialmente a partir da Primeira Guerra Mundial. Feito por mais de 4800 substâncias, sendo 250 tóxicas e 50 comprovadas como causadoras de câncer, o cigarro é considerado um vício que gera dependência química e psicológica. A nicotina, uma das substâncias presentes, gera uma sensação de prazer e é a principal responsável pela dependência.

Segundo Bruna Melo Martins, terapeuta ocupacional capacitada pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD) para Tratamento do Tabagismo no SUS – Abordagem Intensiva do Fumante, “aos poucos, o cérebro começa a se adaptar e logo a pessoa está precisando fumar mais para obter o mesmo efeito. O cérebro vai ficando cada vez mais dependente quimicamente e a ausência de nicotina faz com que a pessoa se sinta nervosa, ansiosa e de mau humor”.

(Créditos: Reprodução/Campanha Antitabagismo)

Muito além da nicotina

Outras substâncias são altamente prejudiciais à saúde de quem fuma. As principais são: monóxido de carbono, que diminui a atividade do cérebro e priva o coração de oxigênio; a nicotina, que dificulta a circulação sanguínea, podendo levar à Hipertensão Arterial Sistêmica e outras doenças cardiovasculares, além de diminuir o calibre dos brônquios e vias pulmonares; e o alcatrão, que está ligado ao desenvolvimento de células cancerígenas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é considerado a segunda maior causa de morte do mundo, com aproximadamente cinco milhões de vítima a cada ano.

Apesar desses fatores, a propaganda das marcas de cigarro associava o fumar a um hábito elegante e sofisticado de viver e, dependendo do contexto, a uma forma de inserção social, o que aumentava a quantidade de fumantes. A Marlboro, empresa norte-americana com um dos maiores números de vendas de cigarro, se tornou a marca com os principais comerciais tabagistas, mostrando belas paisagens e cowboys (conhecidos como Marlboro man) conduzindo seus cavalos, o que induzia a liberdade de fumar.

Da Fórmula 1 ao boxe, do beisebol ao futebol, todos os grandes eventos esportivos já tiveram ou sentiram, em algum momento, o peso dos investimentos e do poder dos fabricantes de cigarro. As marcas de tabaco investiam fortemente nas esquipes de Fórmula 1 e dominaram as pistas de corrida. Alguns contratos de publicidade determinavam grande participação dos patrocinadores nas decisões da equipe, como aconteceu com a escuderia da Lotus entre 1987 e 1988, patrocinada pela RJ Reynolds Tobacco Company, dona da marca Camel. Algumas marcas de cigarro, para garantir sua presença no evento, dividiram o mesmo carro, como podemos ver na imagem abaixo.

Carro da Ferrari, pilotado por Michael Schumacher (Créditos: Sutton Images/Divulgação)

Carro da Ferrari, pilotado por Michael Schumacher. (Créditos: Sutton Images)

E mais uma vez a Marlboro estava entre as marcas mais bem sucedidas quanto à publicidade. O primeiro carro patrocinado pela marca, com suas cores vermelha e branca, foi o BRM 1972. Outras escuderias que ela patrocinou foram Frank Williams Racing, Alfa Romeo e Mc Laren. A partir de 1997, a empresa passou a patrocinar a Ferrari e o sucesso de Schumacher à frente da equipe ajudou a identificar o vermelho do automóvel aos maços do cigarro.

(Créditos: Divulgação/Photo4)

Marlboro e o patrocínio à McLaren de Ayrton Senna. (Créditos: Divulgação/Photo4)

“A publicidade tem forte influência no consumo. Dados apontam que quanto maior a publicidade de cigarros, maior era a prevalência. Apesar da Indústria do Tabaco dizer que a publicidade serve apenas para que atuais fumantes mudem de marca, os estudos comprovam que, na verdade, eles querem novos fumantes, principalmente adolescentes, para repor os fumantes que deixam de fumar ou morrem”, explica Cristina Perez, Secretária Executiva da Comissão Nacional para Implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco.

Devido a isso, 27 países proibiram a publicidade tabagista e o patrocínio de eventos esportivos por marcas de cigarro.  Entre esses países estão Itália, Finlândia, Portugal, França, Bélgica e Canadá. Para eles, manter as propagandas era possibilitar criar um ambiente de ampla aceitação social, relacionando fumar com atividades prazerosas e saudáveis que legitimavam o consumo de tabaco.

Redução do consumo de cigarros em países selecionados,
após a proibição total de publicidade – 1996
País Data de proibição Queda de consumo até 1996
Noruega 1º de julho de 1975 -26%
Finlândia 1º de março de 1978 -37%
Nova Zelândia 17 de dezembro de 1990 -21%
França 1º janeiro de 1993 -14%

O Brasil também adotou essas medidas, e com isso conseguiu reduzir um terço da quantidade total de fumantes, segundo relatório da Política Internacional do Controle do Tabaco (ITC).

Lei Antifumo

Outra medida legislativa tomada pelo governo brasileiro foi a criação da Lei Antifumo (Lei Federal nº 9.294/96), que entrou em vigor no dia 7 de agosto de 2009, proibindo o fumo em ambientes fechados e de uso coletivo no Estado de São Paulo. Bares, boates, restaurantes, hotéis, escolas, shoppings, supermercados, padarias e farmácias estão entre os lugares em que se é proibido fumar. Em caso de desrespeito à lei, o estabelecimento receberá multa, que será dobrada em caso de reincidência. Um estudo realizado pelo Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, aponta que houve redução de 73% nos níveis de monóxido de carbono nas casas noturnas de São Paulo após apenas seis meses da aplicação da lei.

“Além disso, apesar de a Lei 9.294/96 ter representado grande avanço no controle do tabaco, estudam-se mudanças para maior eficácia da prevenção: uma lei que proíba totalmente o fumo em ambientes fechados de uso coletivo, protegendo, assim, a população dos riscos da exposição à fumaça ambiental do tabaco, já que a lei atualmente vigente permite áreas reservadas ao fumo dentro destes ambientes”, declara a terapeuta Bruna Martins.

Atualmente, fumar já não é visto como um hábito diferenciado e singular de irradiar uma imagem de liberdade e independência. Pelo contrário, cada vez mais é identificado como um problema de saúde pública e, por isso, combatido como uma doença social. Para Cristina Perez, a prevalência de fumantes diminuiu no Brasil devido a um conjunto de medidas adotadas pelo Governo. “Deve-se ter uma Política de Controle do Tabaco abrangente e contínua”, defende ela.

Segundo o INCA, 80% dos fumantes desejam parar, mas somente 3% tem êxito sem ajuda. Para evitar a recaída, o ideal é um acompanhamento médico – para auxílio na parte farmacológica – e psicológico, com apoio em terapia individual ou em grupo.

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