Protestos nos Estados Unidos questionam o racismo e a violência policial

Manifestações foram incentivadas pela morte de um jovem negro por um policial branco

Julia Gonçalves

No dia 15 de agosto, a polícia dos Estados Unidos divulgou o nome do responsável pela morte do jovem Michael Brown. Ele era negro e tinha 18 anos quando foi baleado por um policial branco na cidade de Ferguson. De acordo com a polícia, Michael era suspeito de ter roubado uma caixa de charutos em uma loja de conveniências. O policial autor dos disparos foi Darren Wilson que tem seis anos de experiência na corporação e não possui registros disciplinares por conduta indevida.

De acordo com a polícia de St. Louis, a origem do tiroteio foi o confronto físico entre Michael e Darren: o jovem teria empurrado o policial, o agredido fisicamente e tentado roubar sua arma. Um tiro teria sido disparado de dentro do carro e os outros, a 10 metros do veículo. Entretanto, a autópsia contratada pela família do rapaz revelou que ao todo foram seis disparos, sendo o último na cabeça. Testemunhas afirmaram que o jovem estava caminhando desarmado em direção à casa de sua avó e quando levou os tiros estava de mãos levantadas.

Na primeira noite de manifestações, os policiais confrontaram os manifestantes e utilizaram gás lacrimogênio. Créditos: David Carson, dcarson@post-dispatch.com

Na primeira noite de protestos, os policiais confrontaram os manifestantes e utilizaram gás lacrimogênio. (Créditos: David Carson)

Devido às controvérsias, o Departamento Federal de Justiça e o FBI iniciaram uma investigação sobre o caso. O policial foi suspenso desde que o seu nome foi divulgado e uma subdivisão da organização racista estadunidense, Ku Klux Klan, tem arrecadado fundos em seu favor. A morte do jovem desencadeou uma série de protestos diários contra o racismo e a violência policial, em Ferguson. As manifestações passaram de pacíficas para violentas, devido à falta de esclarecimentos da polícia sobre o ocorrido e à intensa intervenção policial nas manifestações.

Wanderson da Silva Chaves, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, comenta que o governo do estado de Missouri e as autoridades policiais se negaram a esclarecer o caso ou assumir as responsabilidades, o que fez com que os protestos crescessem. Segundo o pesquisador, a polícia estava “fortemente armada, utilizando carros, caminhões e helicópteros blindados, e acompanhada de unidades especiais de atiradores da SWAT” e que a “polícia local investiu contra a multidão utilizando força física, gás lacrimogêneo e balas de borracha de forma desproporcional e abusiva”.

No dia 16 de agosto, o governador Jay Nixon declarou estado de exceção e toque de recolher, mas a medida foi ineficaz e as manifestações continuaram. Para tentar controlar a violência, o governador convocou a Guarda Nacional no dia 18, mas três dias depois ordenou a sua retirada.

Os manifestantes acusam a polícia de ter agido de maneira racista ao atirar em Michael Brown. “O questionamento da motivação racial na conduta policial é um tema constante entre os ativistas contra o racismo e é embasado nas diferenças gritantes nos números de prisões e condenações entre brancos e negros.”, explica Fernanda Rebelato, pesquisadora do Observatório Político dos Estados Unidos.

“O acontecimento em Ferguson seria, portanto, uma confirmação concreta da inclinação racista. Reavivou então o debate de que negros, mesmo desarmados e com atitude pacífica, são majoritariamente vistos como criminosos pela força polícia”, afirma Rebelato. Depois de uma semana, os protestos voltaram a ser pacíficos e a violência foi controlada.

De acordo com Sabrina Evangelista Medeiros, doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e professora do Inter-American Defense College da OEA, “o problema racial aparece explicitamente no caso, que não é incomum. Ou seja, uma polícia de brancos feita para negros”. Em Ferguson, os negros representam 63% da população, mas correspondem a 86% das paradas policiais, 92% das buscas policiais e aproximadamente 93% das prisões, segundo dados do Escritório do procurador-geral de Missouri.

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