Apresentado na Copa, exoesqueleto brasileiro repercute entre deficientes físicos

Projeto de Miguel Nicolelis representou esperança, revolta e confusão

Victor Pinheiro

Juliano Pinto, paraplégico de 29 anos, chutou uma bola com ajuda de um exoesqueleto durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo, dia 12 de junho, na Arena Corinthians, em São Paulo. O projeto faz parte do programa Andar de Novo, coordenado pelo cientista e professor brasileiro Miguel Nicolelis. Se, por um lado, o episódio representou uma esperança de melhoria na qualidade de vida para deficientes físicos; por outro, sofreu muitas críticas.

O programa e o exoesqueleto

O programa Andar de Novo, segundo Nicolelis, consiste em “um consórcio internacional sem fins lucrativos envolvendo universidades e centros de pesquisas do mundo todo”. O projeto tem como objetivo pesquisar melhorias para a vida de quem sofre com paralisia nos membros.

Fruto da pesquisa de Nicolelis, o exoesqueleto, custou cerca de R$33 milhões aos cofres da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). As duas instituições onde o cientista brasileiro leciona, a Universidade Duke, nos Estados Unidos, e o Instituto de Neurociências de Natal – Edmond e Lily Safra são as principais instituições vinculadas ao projeto.

A tecnologia usada na cerimônia de abertura do mundial pesa aproximadamente 70 kg. O usuário da máquina veste uma touca com eletrodos que capta sinais do cérebro. Em seguida, essas mensagens passam para um computador posicionado nas costas do paciente. O aparelho traduz e codifica as mensagens cerebrais e envia ordens para que o exoesqueleto se mova. Uma pele artificial nos pés da pessoa manda sinais de tato, através de vibrações para outro tecido localizado no braço ou no dorso do paciente. Os estímulos servem como resposta para o cérebro e então causam a sensação de tato e movimento das pernas.

A tecnologia desperta esperança em deficientes físicos, como uma possível melhoria na qualidade de vida dessas pessoas. Porém, segundo o professor da Universidade de São Paulo, Luiz de Britto, ainda faltam ajustes para que o projeto de Nicolelis seja uma esperança. “O exoesqueleto poderia representar uma esperança na medida em que for minimizado em termos de peso e desenvolvido mais em termos dos comandos necessários, o que parece ainda incipiente”, disse o professor.  Britto destacou ainda que “é importante lembrar que o sistema nervoso continua a se deteriorar continuamente após lesões centrais e esse problema tem que ser abordado com outras metodologias”. 

Juliano Pinto chuta a bola com ajuda do exoesqueleto durante a abertura da Copa do Mundo. (Créditos: Reprodução/SporTV)

Juliano Pinto chuta a bola com ajuda do exoesqueleto durante a abertura da Copa do Mundo. (Créditos: Reprodução/SporTV)

Paciente

O paciente que participou da apresentação do exoesqueleto, na Arena Corinthians, era Juliano Pinto, de 29 anos. Morador de Gália, interior de São Paulo, o jovem perdeu os movimentos há cerca de sete anos e meio, vítima de um acidente de trânsito que matou seu irmão de 27 anos.

Para Juliano a apresentação do exoesqueleto foi “algo que entrou para a história”, mesmo com a confusa transmissão pelas emissoras de TV. Em entrevista ao jornal Zero Hora o paciente destacou que por mais que a cadeira de rodas ajude na locomoção “poder trocar alguns passos novamente é um grande ganho”. Além disso, durante a entrevista, destacou que a sensação de andar com o exoesqueleto “é uma sensação bem real” e que ficou feliz em representar todos que tem deficiência como ele.

O cadeirante pratica atletismo e sonha em comprar uma nova cadeira de corrida para ele. Além disso, tem a esperança de um dia representar o Brasil nas paraolimpíadas.

Apresentação

Sem a visibilidade esperada e enquanto os dançarinos ainda executavam a coreografia, o paciente usando o exoesqueleto chutou a bola na lateral do campo. Além disso, as emissoras de TV transmitiram apenas sete segundos do ato. O episódio acabou frustrando as expectativas de alguns telespectadores e o público do estádio.

Para Luiz de Britto, a confusa transmissão do ato influenciou negativamente na opinião do público. Explicou também que o paciente não se levantou sozinho e nem caminhou, limitando-se a um pequeno movimento. Mesmo assim o episódio representa “um pequeno passo na direção da meta que se pretende atingir”, concluiu Britto.

Miguel Nicolelis ao lado do exoesqueleto. (Créditos: UOL/Reprodução)

Miguel Nicolelis ao lado do exoesqueleto. (Créditos: Reprodução/UOL)

Críticas

O exoesqueleto e o próprio cientista Miguel Nicolelis foram alvos de críticas. O escritor Marcelo Rubens Paiva e o vocalista da banda Ultraje a Rigor, Roger Moreira, questionaram em redes sociais a originalidade do projeto. Ambos compartilharam, pelo Twitter, alguns vídeos mostrando exoesqueletos de outros pesquisadores. Diogo Mainardi, colunista da revista VEJA, também por meio do Twitter, criticou a exploração dos paraplégicos no projeto, dizendo “Isso não é ciência: é circo dos horrores. Não explore os paraplégicos”.

Já Luiz de Britto afirmou que há vários projetos de exoesqueleto pelo mundo e enfatizou que “a abordagem do professor Nicolelis é diferente apenas na origem dos sinais de comando, que é o próprio cérebro nesse caso”. Para ele, “alguns questionamentos têm certo fundamento e outros, um fundo ético. Mas as críticas, de modo geral, são suplantadas pela importância do tema em si”, disse.

Ainda para o professor, “várias das críticas decorrem da postura do professor Nicolelis de, em certa medida, respeitar pouco a comunidade científica brasileira, pois fez toda a sua carreira fora do país. A comunidade científica brasileira também não o vê como um fruto legitimamente nacional”, finaliza.

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