OPAQ confirma retirada de armas químicas da Síria

Ação demorou nove meses para ser concretizada

Mariana Bartolo

No dia 23 de junho, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) confirmou a retirada dos 8% restante de todo o arsenal químico declarado pela Síria. O material deixou o porto de Latakia, localizado na fronteira com a Turquia, em um navio dinamarquês e foi transferido para a embarcação estadunidense Cape Ray, responsável pela destruição do armamento por meio do processo de hidrólise.

O recolhimento e a retirada do material químico integram uma missão conjunta entre a Organização das Nações Unidas e a OPAQ, que pretendia destruir as 1300 toneladas de armas químicas declaradas pelo governo de Bashar al-Assad até o dia 30 de junho deste ano. Entretanto, diversos atrasos por parte do governo sírio adiaram a eliminação do arsenal em 90 dias.

Clóvis Ilha, coronel do Exército Brasileiro e doutor em Química pela Universidade de Brasília, comenta que “os EUA têm experiência nessa tecnologia e recentemente a empregaram para destruição de armas químicas em duas instalações militares localizadas nos estados de Maryland e Arkansas”. Segundo o coronel, parte dos efluentes e resíduos será destruída por incineração em uma instalação industrial alemã, e a outra parte será novamente tratada para ser reutilizada em fins comerciais pacíficos.

Os ataques químicos em agosto de 2013 deixaram 1300 sírios mortos, mas a maioria não estava envolvida com os rebeldes.  Créditos: Bassam Khabieh/Reuters

Os ataques químicos em agosto de 2013 deixaram 1300 sírios mortos, mas a maioria não estava envolvida com os rebeldes. (Créditos: Bassam Khabieh/Reuters)

Em setembro de 2013, a Síria passou a integrar a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas (CPAQ) por meio de um acordo russo-americano. Essa adesão foi uma saída diplomática sugerida pela Rússia para que a Assad conseguisse evitar uma intervenção militar estadunidense no território sírio. O governo se comprometeu a destruir seu arsenal após utilizar o gás sarin e causar a morte de cerca de 1400 pessoas na região de Damasco, no auge da guerra civil síria.

Sérgio Scafi, doutor em Química Analítica pela Universidade Estadual de Campinas, comenta que além das armas químicas, foram destruídos: os equipamentos de produção, mistura e carregamento das armas; as munições e os edifícios relacionados à produção. O pesquisador também explica que “ainda pode haver algumas unidades remanescentes de munições depositadas em outros locais remotos e isolados do país, sem um preciso controle das autoridades ou especialistas”.

Apesar dos atrasos e de possíveis armas não-declaradas, o governo de Bashar al-Assad foi elogiado por seu comprometimento com a missão pelo diretor-geral da OPAQ, Ahmet Üzümcü, e pelo presidente russo Vladimir Putin.

O gás sarin

O sarin é um composto organofosforado, assim como outros agentes químicos utilizados em combate, por exemplo, o tabun, o soman e o VX. Essa substância é um agente neurotóxico capaz de interromper os impulsos nervosos e pode ser absorvida pelo homem por contato com a pele ou olhos, ingestão ou inalação.

No geral, o sarin causa alta mortalidade e recuperação apenas parcial da vítima. Por ser volátil, esse composto não permanece por muito tempo em terrenos ou equipamentos, sendo degradado rapidamente pela radiação ultravioleta presente na luz solar.

O coronel Ilha foi inspetor de armamento químico no Iraque e percebe semelhanças entre o caso iraquiano e o sírio. Para ele, os ex-ditadores Saddam Hussein e Hafez al-Assad, se interessavam pela posse desses armamentos para intimidar seus adversários. “Felizmente, tanto Iraque como Síria são agora Estados-Parte da CPAQ, o que deverá impedir a fabricação, posse e utilização de armas químicas” comenta.

Para Scafi, mesmo após a retirada, outros compostos requerem atenção. “Compostos industriais, como os organofosforados (pesticidas) ou compostos de clorados como o fosgênio, cloro gasoso e cianetos são de fácil obtenção. Fatores econômicos e isolamento também contribuem para a proliferação de recursos de guerra química no Oriente Médio e na Síria”, comenta.

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