Entrevista: Especialista comenta crise política na Espanha e escândalos envolvendo a família real

Irmã do recém-coroado rei Felipe VI, Cristina de Bourbon é acusada de corrupção

Thainá Zanfolin

No dia 25 de junho, a justiça espanhola decidiu manter as acusações de corrupção contra Cristina de Bourbon, filha mais nova do rei Juan Carlos e irmã do rei Felipe VI, que assumiu o trono no dia 19 de junho. Ela teria ajudado o marido, Iñaki Urdangarin, a desviar mais de 6 milhões de euros de verbas públicas do Instituto Noos para uma empresa na qual cada um controla 50% das ações. Com as acusações mantidas, está aberta a possibilidade da princesa ir a julgamento, o que seria o primeiro caso de um membro da família real.

Em entrevista ao WebJornal, o doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca Wladimir Cerveira de Alencar comenta sobre a relação entre a crise política na Espanha, a impopularidade da monarquia e os escândalos da família real. Confira:

1) Quais os efeitos dessa acusação na política da Espanha? Como ela afeta a monarquia e a sua reputação?

Em época de crise econômica as pessoas tendem a ficarem mais sensíveis a desmandos das classes dominantes. O caso da Infanta Cristina é um exemplo destes desmandos de uma classe política favorecida socialmente e que constitucionalmente se vale do seu poder e prestígio social para cometer atos de corrupção. Desde o início da crise financeira europeia, em especial a crise espanhola, a sociedade já começa a demonstrar certo desconforto com as atitudes da Casa Real. Em 2012, o então Rei Juan Carlos foi duramente criticado por ir a Botsuana caçar elefantes, fato que só veio efetivamente a público por conta do tombo e fratura do quadril sofrida pelo rei que, além disso, estava acompanhado apenas de sua suposta amante, ingrediente a mais para aumentar o escândalo. Os gastos exagerados em plena crise chamaram a atenção da sociedade. Posso dizer que a partir daquele momento, uma população que sempre se considerou mais “juan carlista” que monarquista, começou a se questionar da necessidade e interesse nacional em se ter um monarca como chefe de estado.

2) Como essa situação atrapalha o mandato do rei Felipe, que tenta reerguer a popularidade da família real?

O novo Rei Felipe VI tem a vantagem de ser considerado bem preparado, que traz uma nova maneira de ser Rei, passa uma imagem de austeridade e probidade. Ele sempre procurou se distanciar do caso de corrupção que envolve o nome da sua irmã. Claro que neste momento podemos dizer que ele está sendo muito cauteloso em suas ações. Diferentemente de seus antecessores, ele não poderá ser um Rei apenas de nome, deverá ser mais ativo politicamente se deseja fazer perdurar a Casa Real.

Em dezembro de 2011, o casal e mais dez pessoas foram acusadas. Na época, esse foi considerado o principal motivo para a queda da popularidade da família real. Créditos: Europa Press

Em dezembro de 2011, o casal e mais dez pessoas foram acusadas. Na época, esse foi considerado o principal motivo para a queda da popularidade da família real. (Créditos: Europa Press)

3) Essa situação afeta as promessas feitas pelo rei Felipe?

Essa situação faz com que Felipe tenha que agir. Já na coroação, ele fez questão de deixar claro que as coisas serão diferentes na Casa Real. Começou dizendo que será um reinado constitucional (mesmo que isto já esteja explícito na Constituição), prometeu uma Coroa renovada e adequada ao seu tempo. Falou também da necessidade imperativa da Coroa voltar a ganhar a confiança e o respeito dos cidadãos, através de uma conduta íntegra e honesta. Por fim, deixou uma mensagem clara que lutaria por uma Espanha pluricultural, porém única, mandando recado aos independentistas catalãs, por exemplo.

4) Qual a relação da situação da economia da Espanha com a impopularidade da monarquia?

Existe uma relação direta. Antes as extravagâncias, eram percebidas como pequenos mimos e motivos para venda de “revistas de fofocas”. As pessoas se assombram quando percebem o custo de manter a família real, 8,4 milhões de euros livres de impostos ao ano, no meio da maior crise econômica das últimas décadas.

5) Em muitos lugares ocorrem protestos contra a monarquia. Quais são os motivos?

Esses protestos perderam força desde a coroação do novo rei. Pesquisas recentes apontam que mais de 60% dos espanhóis são favoráveis a manutenção da monarquia. Para eles, ela tem vantagens como, por exemplo, o fato de o ex-Rei Juan Carlos I conhecer pessoalmente todos os presidentes dos EUA desde os anos 80. A população acredita que isso pode trazer uma espécie de vantagem competitiva nas negociações internacionais. Fora isso, a alternativa classe política civil está em igual descrédito que a classe política brasileira. Mas esses números podem mudar rapidamente devido ao aumento ou diminuição da crise no país, e da postura que adotará o novo Rei e a Casa Real.

6) Qual seria a melhor forma do novo rei de reerguer a reputação da família real? De que maneira o rei pode contornar esse escândalo envolvendo sua irmã?

Não lhe restará alternativa a não ser buscar ser um Rei mais próximo dos cidadãos, que aceite “cortar a própria carne”, não interferindo na investigação do caso que envolve sua irmã, e que dê demonstrações contínuas de que luta pelos interesses do povo e não de uma pequena classe de privilegiados.

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