Opinião: Quando a depilação feminina é alvo de misoginia

Polêmicas envolvendo escolhas pessoais: eu depilo, tu não depilas… e o problema é todo nosso!

Bianca Landi

A fotógrafa Alexandra Sophie foi duramente criticada pelo seu editorial, que realça os pelos no corpo da modelo. (Foto: Alexandra Sophie - Editorial Winter)

A fotógrafa Alexandra Sophie foi duramente criticada pelo seu editorial, que realça os pelos no corpo da modelo. (Foto: Alexandra Sophie/Editorial Winter)

Um número crescente de mulheres tem aderido aos pelos e isso tem causado estranhamento nas redes sociais e também nos ônibus e vagões de metrô, quando os braços se erguem e os pelos se mostram. A fotógrafa francesa Alexandra Sophie lançou, em 2013, o editorial de moda Winter (Inverno, em português), no qual enfatiza os pelos do corpo da modelo. Em um dos álbuns da página O Machismo Nosso de Cada Dia  no Facebook, uma das referências quando o assunto é feminismo, há fotos enviadas por feministas de todo o Brasil com os pelos de suas axilas à mostra. Tanto no caso do editorial quanto nas fotos da página, os comentários de reação demonstram repugnância, nojo e, por fim, pura misoginia.

Grande parte dessas garotas decidiu parar de se depilar em prol de seus ideais, sendo o feminismo geralmente o maior deles, enquanto outras apenas não se sentiam confortáveis com ceras e lâminas, que muitas vezes causam dores e machucam a pele. Seria então a depilação um hábito higiênico, saudável e puramente estético, ou, mais profundamente, um padrão imposto cultural e socialmente e que pode ser comparado até mesmo às antigas formas de tortura feminina, como espartilhos para afinar a cintura e pés atados para mantê-los pequenos e delicados?

Pelos no corpo feminino são geralmente vistos como desleixo e como algo que compromete a própria higiene da mulher. No corpo masculino, no entanto, os pelos são vistos com total naturalidade. Mas por que a depilação é vista como natural para as mulheres, e para os homens é considerada até mesmo algo errado? Os esforços femininos em prol da estética são vistos como naturais, e, mais do que isso, são ultra-valorizados, entretanto, quando um homem faz o mesmo, é hostilizado. O corpo masculino tem de ser primitivo e legítimo, enquanto o feminino é tratado como objeto de desejo e decoração.

Não é que as feministas queiram abolir a depilação feminina. O real problema está na falta de opção das mulheres com relação ao que fazer diante de seus corpos. Logo cedo elas são ensinadas a terem nojo de coisas que são naturais em seu corpo, como a menstruação, seus odores próprios e, por fim, seus pelos. Mariana Ney Prado tem 19 anos e mora em Pelotas, ela conta que começou a se depilar porque o seu pai fazia questão. “Nosso corpo desperta nojo, e esse nojo tem nome: misoginia. Homens não se depilam e nós, mulheres, somos obrigadas a aceitar isso, mas somos obrigadas também a não aceitar nossos próprios corpos!”, declara.

Hoje, Mariana não se depila mais. Bem como Keity Valença, 29 anos, de São José dos Campos, que afirma: “sou cheirosa e amada como qualquer outra mulher. Sinto-me confortável com meu corpo, e quando as pessoas me apontam no metrô se estou de braços levantados, não me sinto agredida, e até penso que posso ser uma boa influência para outras mulheres que gostariam de assumir suas vontades”. Ela conta que nunca se sentiu confortável com a obrigação de se depilar. “Essa mudança radical em meus hábitos trouxe um olhar carinhoso sobre minha aparência, inclusive com a questão dos meus pelos, que nasciam livres e harmoniosos por todos os cantos”, relata.

Os argumentos principais: A estética e a higiene

Nos anos 70, pelos grandes foram um marco. Inúmeras celebridades que posavam para revistas adultas faziam questão de mantê-los: era moda! Em entrevista ao portal UOL, a historiadora Mary Del Priore, autora do livro “Histórias e Conversas de Mulher”, explica que, há algumas décadas, pelos nas axilas eram vistos como um atrativo para os homens, e, por esse motivo, era preciso tirá-los. A partir dos pelos das axilas era possível identificar a cor dos pelos púbicos, e isso fazia com que os homens tivessem devaneios eróticos.

Quanto à higiene, o ginecologista Jesiel Estêvão explica que “nos pelos ficam bacilos de defesa que protegem a região (da genitália, especificamente) de possíveis agressores, como fungos e bactérias, e mantêm o pH da região”. Com a retirada dos pelos, a pele fica mais exposta e, além disso, com microtraumas, o que favorece a entrada de agentes infecciosos. Segundo a dermatologista Viviana Amaral, com a evolução da espécie, os pelos perderam grande parte de suas funções, o que fez com que eles se tornassem esparsos. Genitálias e axilas, por exemplo, estão entre as áreas que respondem a hormônios sexuais, enquanto que pernas e braços exigem maior proteção. O Dr. Jesiel conclui: “para garantir a proteção, é melhor manter os pelos, já que a maior parte das pessoas que os retiram apresenta quadros de infecção urinária, vaginites, etc”.

Uma pesquisa francesa recentemente publicada no periódico “Sexually Transmitted Infections” apontou que a remoção de pelos pubianos, especialmente quando feita com cera, aumenta o risco de inflamações e DSTs. De acordo com um estudo da Universidade da Califórnia, entre 2002 e 2010 o número de lesões na virilha causadas pela popularização da depilação quintuplicou, alcançando quase 145 mil consultas devido a machucados genitais. Além disso, todos os métodos clássicos para a remoção de pelos (como pinças, ceras e lâminas) podem causar irritação na pele, o que aumenta os riscos de inflamação.

O apoio: Projeto Pelos Pelos

Criado pelo coletivo de arte político-poética Além, o projeto Pelos Pelos é composto por ensaios fotográficos de homens e mulheres nus, que optaram por cultivar os próprios pelos. A ideia é mostrar a naturalidade nessa escolha e expor a existência dessa opção.

Mateus Lima é um dos idealizadores do Pelos Pelos e conta que esse foi o primeiro projeto do coletivo. Próximo de o projeto completar um ano, Mateus diz que é difícil encontrar referências que tratem o assunto com a naturalidade que eles buscam, já que o principal objetivo é “abordar assuntos tabus, tentando levá-los de um jeito agradável às pessoas e posicionando-se ao lado de quem é oprimido”.

Tanto o coletivo quanto o projeto são sustentados pelas premissas do feminismo. “Isso dá sustento, força e maturidade ao trabalho”, afirma Mateus. A exposição nos ensaios gera empoderamento das pessoas fotografadas sobre seus próprios corpos, o que traz efeitos benéficos para a autoestima. “Se expor nesse nível, com nudez, de maneira natural, com os corpos como eles são, exige muita coragem e a transformação é muito grande com relação à aceitação do próprio corpo”, ele comenta.

Intimamente ligado ao movimento feminista, o projeto Pelos Pelos busca expor a opção de deixar de lado a depilação e conviver harmoniosamente com os pelos do corpo. (Foto: Pelos Pelos/Divulgação)

Intimamente ligado ao movimento feminista, o projeto Pelos Pelos busca expor a opção de deixar de lado a depilação e conviver harmoniosamente com os pelos do corpo. (Foto: Projeto Pelos Pelos/Divulgação)

Por fim, é importante ter em mente que o enfrentamento desses padrões acontece não só para contrariar a prática da depilação, mas para gerar uma reflexão sobre a liberdade de escolha com relação ao tema. “Cada um deve analisar seu próprio conforto, no meu caso, vi que depilação é uma tortura desnecessária, que decidi abolir por me respeitar. Gostaria que outras mulheres entendessem que existe essa possibilidade, pois seria mais justo”, testemunha Keity.

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3 Respostas para “Opinião: Quando a depilação feminina é alvo de misoginia

  1. Sou homem. Concordo! por isso parei de fazer musculação. Que me aceitem segundo a minha natureza: sem músculos evidentes!

  2. “Não é que as feministas queiram abolir a depilação feminina.”

    tem sempre que ter alguém se desculpando…sempre quando algo machista é detectado,e que está mais do que óbvio que tem que ser ablido,vem sempre argumentos do “não é bem assim”.Depilação é tortura sim,a autora deve saber bem disso,então por que o medo de dizermos quetem que ser abolida? Será que se não fosse imposição,alguma de nós “escolhereia” isso?
    Percamos antes de tudo o medo,o resto vem naturalmente.

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