Série de quadrinhos “Meninas em Jogo” denuncia turismo sexual no Brasil

A Copa do Mundo terminou, mas o turismo sexual continua sendo um problema social grave no Brasil

Mariana Pellegrini

Com uma denúncia feita em Fortaleza no ano de 2013 sobre o tráfico interno de mulheres — que é mais forte nos municípios praieiros — e seu possível agravamento durante a Copa, a Agência Pública passou a ter um tema para reportagem investigativa. Durante três meses, a repórter Andrea Dip e o quadrinista Alexandre de Maio percorreram estradas do Ceará em busca de informações sobre a exploração de crianças e adolescentes para a “Copa das Copas”. A busca resultou na primeira reportagem em quadrinhos da organização e foi dividida em cinco capítulos.

O turismo sexual faz parte da vida de muitos jovens, principalmente meninas, tanto no Brasil quanto no exterior. Esse tipo de turismo é, inclusive, visto como atração turística em países do Sudeste Asiático e da América Latina. O Brasil tem um dos maiores níveis de exploração sexual infanto-juvenil do mundo, com casos mais concentrados no Nordeste, sendo o estado do Ceará um dos que se destaca.

Capa da HQ sobre a exploração infanto- juvenil e o turismo sexual durante a Copa. (Foto: Divulgação/Agência Pública)

Capa da HQ sobre a exploração infanto- juvenil e o turismo sexual durante a Copa. (Imagem: Agência Pública/Divulgação)

Segundo o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, uma rede de organizações não governamentais, a estimativa é de que existam 500 mil crianças e adolescentes na indústria do sexo no Brasil (dados de 2012). Com a vinda da Copa do Mundo para o país, houve preocupação quanto ao aumento de tal índice. Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo, o mercado da prostituição cresceu em 60% durante o Mundial de futebol.

Os quadrinhos foram feitos com o apoio e recursos financeiros do Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, e a ideia de utilizá-los numa reportagem sobre exploração infanto-juvenil durante o megaevento surgiu para evitar ferir ainda mais as vítimas do abandono (e descaso) da sociedade e do Estado.

Para a publicação, foram entrevistadas ativistas e organizações, pessoas que convivem, fazem denúncias e lutam contra a exploração sexual e querem o seu fim, como o pessoal da Cufa (Central Única de Favelas), da Barraca da Amizade, da Aproce (Associação de Prostitutas do Ceará), do Cedeca (Centro de Defesa da Criança e Adolescente do Ceará), além de meninas que estavam em abrigos.

Não é de hoje que os quadrinhos são utilizados para denúncias sociais e políticas. No Brasil, as histórias em quadrinhos (HQ’s) começaram a ser introduzidas no século XIX. Em 1837, começou a circular o primeiro desenho em formato de charge, com autoria de Manuel de Araújo Porto- Alegre, que no ano de 1844 criou uma revista de humor político. Ao final da década de 1860, desenhos com tema de sátira política e social foram introduzidos nas publicações por Angelo Agostini, podendo citar “As Aventuras de Nhô Quim”, com personagem fixo, que narrava as experiências de um caipira vivendo na cidade grande.

O quadrinho crítica a realidade de meninas que vivem no Estado do Ceará e sofrem com o turismo sexual (Foto: Divulgação/Agência Pública)

O quadrinho crítica a realidade de meninas que vivem no Estado do Ceará e sofrem com o turismo sexual. (Imagem: Agência Pública/Divulgação)

As primeiras HQ’s modernas (marcadas por balões de texto) foram publicadas no final do século XIX. Inicialmente, eram essencialmente humorísticas, basicamente divididas em infantis (sobre travessuras de animais e crianças) e adultas (humor mais grosseiro e críticas de costumes). Com autoria do desenhista Richard Outcault, surgiu no ano de 1895 nos jornais sensacionalistas de Nova York, uma tirinha ilustrada, denominada “Down on Hogan´s Alley”, com personagem fixo (Yellow Kid), ações fragmentadas em quadros e balõezinhos de texto.

A reportagem “Meninas em Jogo” transcendeu limites territoriais: além do Brasil, saiu nos Estados Unidos, no Buzzfeed com mais 200 mil acessos, e também na Itália. Os quadrinhos tiveram grande destaque graças à realização da Copa do Mundo em solo brasileiro. Mesmo após o fim do evento mundial, problemas sociais graves como o turismo sexual continuarão a acontecer no país, e denúncias como a da repórter Andrea Dip e do quadrinista Alexandre de Mai são de grande importância para a erradicação dessas questões.

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