É hora de aprender outro idioma

Cada vez mais os brasileiros procuram outras línguas, seja por razões culturais, econômicas ou profissionais

Paulo Palma Beraldo

O mundo está cada vez mais globalizado. Falar um segundo idioma é um requisito básico de muitas empresas e um importante diferencial no currículo. A reportagem a seguir falará um pouco mais sobre o que se passa no nosso cérebro quando aprendemos uma nova língua e trará alguns números sobre alguns idiomas estudados no país.

Existem aproximadamente 7.000 línguas, mas apenas uma minoria delas é falada. Algumas línguas têm uma grande população nativa, como o chinês, espanhol, híndi, inglês e russo. O nosso português, por exemplo, é a sexta mais falada do planeta, com aproximadamente 270 milhões de falantes. No Brasil, as línguas mais estudadas são inglês, espanhol, francês, italiano e alemão.

Mas… o que ocorre no seu cérebro quando você começa a estudar um novo idioma? Leonor Bezerra Guerra, médica especializada em neuropsicologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que aprender uma segunda língua significa formar novas redes neurais relacionadas a novos conhecimentos. Ocorrem mecanismos cerebrais diferentes, pois a pessoa se depara com situações, sons, palavras e construções desconhecidas até então. “Aprender uma segunda língua é saudável do ponto de vista cerebral porque estimula novas sinapses (conexões entre neurônios) e mantêm sinapses que já temos ativadas, consolidando memórias relacionadas à linguagem”.

Segundo a pesquisadora, durante o aprendizado de uma nova língua, utilizamos as mesmas áreas cerebrais que aprenderam a língua nativa. “Em nosso cérebro temos arquivos relacionados ao significado das diversas coisas, pessoas, ambientes, situações que constituem nossas vidas. Relacionamos esses significados a um conjunto de sons e símbolos gráficos que aprendemos quando desenvolvemos a linguagem na língua nativa”.

Ao aprendermos uma segunda língua, acrescentamos novos conjuntos de sons e símbolos gráficos à nossa rede neural que continua se conectando com a rede de significados. “Ocorre uma reorganização das conexões entre neurônios. O cérebro relacionava o significado de “cachorro” às palavras “cachorro”, “cão”, “totó”, mas agora passa a relacioná-la também à palavra “dog” (inglês), “chien” (francês) ou “perro” (espanhol). É como se o indivíduo estivesse aprendendo uma nova palavra para significados que ele já tem no próprio cérebro”.

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Francês é estudado no Brasil por mais de 150 mil. (Créditos: Paulo Palma Beraldo)

“Aprendizagem tem que ser significativa e relevante”

Para aprender algo, o cérebro gasta energia fazendo novas sinapses e reorganizando sua estrutura. Se a pessoa não ver relevância e importância naquilo que é aprendido, o sistema nervoso não gastará energia para incorporar novas redes neurais. Ou seja: não há aprendizado.

Segundo Leonor Guerra, um adulto já tem um repertório de comportamentos grande que o faz viver bem e, por isso, tem mais resistência a aprender novas coisas, a menos que elas tenham impacto na sua vida. “Além disso, do ponto de vista metabólico, a neuroplasticidade no adulto é menor que na criança. Ela sempre existe em todas as pessoas mas sua intensidade se modifica ao longo da vida.”

Leonor diz que as crianças têm menos resistência. Com poucos estímulos a criança aprende rapidamente e tende a formar redes neurais que persistem por mais tempo, caso os comportamentos relacionados a essas redes sejam importantes para a sua vida. “Como ainda não tem um repertório tão vasto como o adulto, ela tende a ter menos resistência a novas aprendizagens pois precisa aprender novos comportamentos para melhorar sua chance de adaptação ao ambiente”.

Outro aspecto é o aparelho fonoarticulatório, formado por pregas vocais, musculatura da boca, etc. Na criança, ele é mais plástico e maleável do que no adulto. “Com o passar do tempo, a partir de quando nascemos, deixamos de perceber alguns sons porque nosso cérebro vai restringindo o repertório de sons àqueles que usamos, com os quais convivemos. Ao aprender uma segunda língua, nem sempre o adulto consegue perceber com clareza toda a composição sonora de uma palavra ou não consegue mobilizar seu aparelho fonoarticulatório para pronunciá-la”.

Existe bloqueio?

Do ponto de vista neurológico, só existe bloqueio no aprendizado de uma língua se a pessoa tiver algum transtorno como dislexia ou seqüela de problemas neurológicos como meningite. Mas seria uma dificuldade para situações da vida, não apenas para o aprendizado de línguas. “Excluindo situações assim, o indivíduo não aprende porque não tem motivação suficiente. Ou o que ele já sabe da língua “dá para o gasto” ou seja, é suficiente para o que ele precisa.”

Como se resolve o aparente “bloqueio”? Leonor Guerra diz que criar situações motivadoras, interessantes e contextualizadas, que envolvam os alunos podem ser uma boa ideia. “O maior fator motivador de aprendizagem em geral, e isso vale também para outra língua, é a necessidade que o indivíduo tem de aprendê-la. Além disso, emoção sempre estimula aprendizagem. Por isso situações de socialização na aprendizagem de uma segunda língua são fundamentais”, explica a pesquisadora.

Inglês

A língua inglesa é falada por aproximadamente 430 milhões de nativos e outros 950 milhões de estrangeiros. Os países onde mais se fala inglês são Estados Unidos, Índia, Paquistão, Reino Unido, Bangladesh, Canadá e Filipinas. No Brasil, assim como em países como Alemanha, ele é obrigatório nas escolas.

A pesquisa “Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil”, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Data Popular para o British Council, teve como objetivo “entender o interesse da classe média em aprender inglês”. A pesquisa buscou compreender o cenário e as práticas mais comuns no mercado brasileiro de aprendizagem de inglês. O foco foi a classe média e a baixa classe alta. Segundo o documento, não foram estudados outros grupos sociais.

O estudo levantou que, no Brasil, 5,1% da população de 16 anos ou mais afirma possuir algum conhecimento do idioma inglês. De acordo com o censo de 2010, esse valor corresponde a aproximadamente sete milhões de pessoas. Mas há diferença entre as faixas da idade. Entre os que tem de 16 a 24 anos, o conhecimento na língua chega a 10,3%.

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Inglês é a língua mais estudada do planeta e é falado por mais de 1 bilhão de pessoas. (Créditos: Paulo Palma Beraldo)

De acordo com Ana Signorini, coordenadora de mídia e relações públicas do British Council, a pesquisa encomendada entrevistou 720 pessoas de 18 a 55 anos, das classes média e baixa classe alta de todas as regiões do Brasil. “Por isso, não temos dados suficientes para emitir um parecer geral. O que podemos dizer é que, nestas classes, independentemente da idade, existe um foco muito grande no uso do inglês para crescimento profissional”, relata.

Uma das conclusões da pesquisa é de que o curso deve ter um custo acessível, aulas faladas em inglês, duração de cerca de dois anos, atividades extra-classe e conteúdo instrumental, além de turmas não muito grandes, com no máximo 14 alunos.

“A falta de um ensino básico de qualidade, somada ao baixo acesso a cursos privados de inglês, faz com que o mercado de trabalho tenha dificuldade em encontrar profissionais com proficiência na língua”, destaca a pesquisa. Entre os que declaram saber o idioma, 47% dizem ter conhecimento básico, 32% estão no nível intermediário, enquanto 16% afirmam estar no nível avançado. Cinco por cento não souberam informar.

Expectativas e obstáculos

O estudo do British Council informa que ampliar o conhecimento e ascender no mercado de trabalho são as principais metas; respostas podem variar, mas o objetivo em comum é claro: tornar-se um melhor profissional e ganhar mais.

No entanto, alguns desafios para o estudo de um novo idioma podem aparecer, como a dificuldade em encontrar tempo hábil e a falta de dinheiro para arcar com os custos de um curso. Em geral, só há tempo para cursos de idiomas nos finais de semana. Outros declaram ter abandonado as aulas pelo preço elevado, avaliação negativa do ensino e dificuldades em comparecer. Quanto mais elevada a idade, menor o tempo disponível, aponta a pesquisa.

Outros argumentam que o curso é muito longo. Para 88% dos que pretendem iniciar um curso de inglês, este deveria ter no máximo dois anos. Por outro lado, nem todos acreditam em cursos que prometem ensinar conversação em seis meses. O estudo ressalta ainda que o inglês concorre com outros gastos em educação, como cursos de aperfeiçoamento, MBA ou mesmo uma graduação, que são encarados como mais importantes para uma promoção salarial.

O que aprender?

As maiores dificuldades encontradas no aprendizado são a compreensão e a fala. Muitos preferem a conversação, sem preocupar-se muito com a gramática. Para estes, discutir situações do dia a dia profissional e temas atuais é fundamental nas aulas. A escrita e a leitura podem contar com ferramentas auxiliares como tradutores online e dicionários, o que não ocorre com a compreensão oral.

“Os métodos de ensino favoritos estimulam constantemente a conversação: a preferência declarada é por aulas em inglês, que ‘forcem’ o desenvolvimento das habilidades do aluno. Essas conversas, na visão dos entrevistados, podem ser estimuladas antes mesmo de um aprofundamento sobre as regras gramaticais da língua”, ressalta o documento.

Razões para escolher uma escola

Para os entrevistados da pesquisa, o horário de funcionamento é o principal. Muitos trabalham de dia durante a semana e à noite devem dar atenção para a família. Para estes, a flexibilidade dos horários é o fator mais importante.

O documento do British Council revela que os objetivos das empresas e do público pede por cursos eficientes e rápidos, com foco na fala e compreensão oral, além do ensino de termos específicos de cada área de atuação. A maioria dos estudantes de inglês (46%) prefere a escola perto de casa, enquanto 31% aponta a proximidade do trabalho como mais importante. O restante cita localização próxima à faculdade (11%), a uma estação de metrô (6%) ou em um shopping (5%).

E o professor?

Horários flexíveis e disponibilidade para atividades extras são qualidades mais valorizadas nos professores de inglês. Outros aspectos citados são o nível de exigência do professor, ter morado no exterior e ser formado pela própria escola.

Espanhol

Uma das línguas mais importantes do planeta, o espanhol é falado em grandes países como México, Colômbia, Espanha, Argentina, Chile, Uruguai, Peru e Venezuela. Segundo relatório do Instituto Cervantes de 2012, mais de 495 milhões de pessoas falam o espanhol. Cerca de 18 milhões de pessoas estudam o espanhol no mundo. A Lei 11.161, conhecida como Lei do Espanhol, promulgada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005 determinou que as escolas oferecessem o espanhol no horário regular de aula. Isso aumentou a procura pela língua no Brasil.

Alemão

Mais de 100 milhões de pessoas têm o alemão como língua nativa, nascidos em países como Alemanha, Áustria e Suíça.  Atualmente 14 milhões de pessoas aprendem alemão como língua estrangeira. Segundo Eva Fiedler Carvalho, diretora de cooperação pedagógica do Instituto Goëthe do Brasil, o alemão é uma língua central na Europa e sua procura tem crescido nos últimos anos. Ela afirma que aproximadamente 140.000 brasileiros estudam alemão.

O Instituto Goethe possui seis unidades espalhadas pelo Brasil e ensina alemão para cerca de oito mil brasileiros. Em países como França, Polônia, Suécia, Itália e Holanda, entre outros, algumas crianças podem aprender o alemão nas escolas.

Eva Fiedler conta que o programa Ciência sem Fronteiras ajudou a aumentar o interesse pela língua no país. “O grupo principal é o de estudantes universitários. Além de se aprofundarem no estudo da língua por ser importante em diversas áreas como Literatura, Música e Filosofia, os estudantes acreditam que podem, desta forma, se qualificar melhor para o mercado de trabalho”, destaca.

Francês

No planeta, 220 milhões de pessoas falam francês, espalhados por países como França, Canadá, Argélia, Marrocos, Tunísia, República do Congo, Bélgica, Suíça, Costa do Marfim, Senegal, Camarões entre outros.

Caroline Vabret, representante do Consulado da França, conta que no Brasil existem cerca de 220 mil pessoas capazes de falar francês.  A Aliança Francesa do Brasil é a maior do mundo e conta com 45 centros de ensino espalhados pelo país, onde 38 mil pessoas aprendem a língua atualmente. Mais de 65% são mulheres. Sobre a faixa etária, 40% têm entre 18 e 26 anos. Outros 30% estão na faixa dos 27 e 36 anos. A motivação de mais da metade dos estudantes é o prazer no aprendizado da língua, conta Caroline Vabret.

No ensino básico, 156.000 alunos estão estudando francês. “Muitos alunos estudam porque o consideram como a língua da cultura. Esse é o caso, principalmente, da maioria dos que procuram aulas particulares”, explica Caroline Vabret.

Vabret ressalta que no meio universitário, os alunos brasileiros que aprendem francês planejam muitas vezes algum tipo de viagem para a França. A França é o terceiro país de destino – atrás de EUA, Reino Unido e empatado com o Canadá – de estudantes do programa Ciências sem Fronteiras. “No âmbito desse programa, as universidades francesas receberam, desde dezembro de 2011, 8% dos estudantes brasileiros”.

Italiano

De acordo com Leonardo Guerrieri, responsável pelo Departamento Cultural da Embaixada Italiana, aproximadamente 400 mil pessoas estudaram italiano nos últimos 20 anos. “Registramos um interesse crescente para a língua italiana. O italiano vai perdendo sua característica de língua étnica, ligada aos processos migratórios no Brasil. Está se configurando como um idioma acadêmico, em especial em áreas de estudo como letras, direito, arquitetura, engenharia, design, agropecuária e novas tecnologias” , diz. Leonardo Guerrieri afirma ainda que atualmente um dos perfis mais interessantes de quem procura estudar italiano são alunos de graduação e pós-graduação.

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