Crônica: Menino tolo

Leonardo Del Sant

Que me perdoem os contras, mas Brasil é fundamental. Eu sempre choro no último jogo do Brasil de cada Copa. Desde 1998, num fatídico 3×0 contra a França. Naquele dia, eu, no final dos meus três anos de idade, tenho a lembrança de chorar sentado na sarjeta de uma vizinha, apoiado ao poste, debruçado, chorando. Menino tolo. Isso é só futebol. Não. Não é só futebol. Mas eu não tenho a resposta do que mais é.

Cafú e a tão sonhada taça em 2002. (Foto: Pedro Ugarte/UFP)

Cafú e a tão sonhada taça em 2002. (Foto: Pedro Ugarte/AFP)

Em 2002 veio a redenção: O Penta de uma seleção crescente e arrebatadora. A seleção cinco estrelas mostrava o que era recuperação. Um craque. Gênio. De uma lesão que quase o tirou do futebol, para a aniquilação da Alemanha em Yokohama. Ronaldo foi o nome da Copa. Não o único. Marcos (como bom palmeirense que sou). Rivaldo. Cafu. Família Scolari. Penta! Ao sair o segundo gol da final, me deitei no meio da rua. Só o céu me importava. A Copa era nossa novamente. Verde e amarela. Chorei novamente, enquanto todos assistiam ao final do jogo em suas casas. Menino tolo. Acordava na madrugada pra ver os encantos de uma Copa oriental. Mesmo menino que viu Ronaldinho Gaúcho fazer um lindíssimo gol contra a Inglaterra de Beckham em uma quartas-de-final eletrizante, e que, horas depois, vestia a camisa amarela e fazia o penteado do ídolo do time rival para ir à escola. Foi um dia divertido.

E o que não faltou à seleção de 2006, aquela do quadrado mágico: Kaká; Ronaldinho Gaúcho; Ronaldo e Adriano, foi diversão. Um time mais que favorito, inabalável, genial. Sucumbiu pra uma França ascendente, que sempre que pode, apronta. Aprontou mais essa. Ao lado de meu avô, na sala de casa, em um jogo que não esperava menos que uma vitória, uma decepção. Pior que sentir as poucas lágrimas que escorriam buscando meu queixo, foi ver uma seleção saindo de campo tranquila, com um sabor adocicado na boca. Sorrindo e trocando camisas. “Mais um amistoso, vamos pra casa”. Não! Não é assim! Entendo, era um time de ressaca, a maioria já tinha sido campeão há quatro anos. Ainda assim, sempre se espera raça e decepção nos olhos de quem está no campo, representando toda uma nação tida como País do futebol. Menino tolo. Não se ganha sempre. Qual seria a graça, aliás? O que seria da glória da vitória, se ela viesse sempre? Ou até a glória da derrota, se a chance da vitória não existisse? Argelinos, Costarriquenhos e Colombianos, todo o mundo! Só há luta, porque a possibilidade da vitória. Por menor que seja. Por maior que seja a força oposta. Por mais que pese a camisa.

Aos dezesseis, e já sabendo que a próxima Copa seria aqui, solo tupiniquim, veio a Copa mais fria de todas: Na África! Verdadeira terra mãe, de ancestrais, culturas destroçadas que até hoje estão se reconstruindo (as de sorte, pois muitas sumiram misteriosamente, um processo sangrento aí, que os livros só relatam, que são notas de rodapé), se destruindo em guerras civis ou santas, buscando a felicidade de tribos, de seus povos. A África do Sul, que sofreu com a segregação racial do apartheid. Que mostrou pro mundo um ideal de luta. Mandela não esqueceu. O Rugby, branco, campeão do mundo em seu solo negro, 1995. Quinze anos depois outro mundial, agora de futebol. Um Brasil que vinha criticado, mas tinha ganhado tudo no ciclo Dunga dos últimos anos. Não aquela Copa. O melhor e o pior jogo da seleção no torneio. O céu e o inferno. Quartas. Holanda 2×1. Virada. Mal chorei. Apenas lacrimejei. Pensei em seguida: “Quatro anos, só quatro anos e eu verei mais um título do Brasil. Em casa a história será outra, já ganhamos”. Tranquilizei-me com essa inocência. Menino tolo. Tolo. As teorias de conspiração tomam conta do imaginário de parte da torcida. A fé inabalável de que o Brasil ganhará independente do cenário. Ou o pessimismo do torcedor que não vê o título de maneira alguma, passando, claro, pelo torcedor que analisa e não sente uma seleção campeã do mundo na que jogará logo mais contra a grande seleção da Colômbia. Torcedor Brasileiro. Torcedores.

Torcida brasileira espera o Hexa em casa. (Foto: AP Photo/Eduardo Verdugo)

Torcida brasileira espera o Hexa em casa. (Foto: Eduardo Verdugo/AP)

Uma Copa vibrante, emocionante. De surpresas e cenas lindas como nunca se viu em uma Copa só. Intensa! Virá muito mais nesses oito jogos que faltam. Brasil morre nas quartas? Morre na semi? Morre na final? Leva o tão esperado caneco? Torço pra que seja a última opção. Não quero chorar antes do dia 13, de Zagallo. Menino tolo.

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