Obsolescência Programada: o consumismo em tempo planejado

Produtos durando menos do que deveriam e fazendo com que você compre mais em menos tempo: tudo isso tem uma explicação

Yara Lombardi

Quantas vezes já não nos deparamos com a necessidade de trocar de produtos tecnológicos, como celulares e computadores, em um curto espaço de tempo? Isso porque os produtos, por falhas ou por se caracterizarem como “ultrapassados”, já não satisfazem nossas necessidades como consumidores. Tudo isso tem uma explicação e um nome: Obsolescência Programada.

O documentário “Comprar, tirar, comprar”, da diretora Cosima Dannoritzer, mostra como a indústria tem trabalhado nos últimos 100 anos para promover o aumento do consumo com a oferta de produtos de qualidade inferior. (Imagem: Reprodução/Documentário “Comprar, tirar, comprar”)

A Obsolescência Programada surgiu na década de 30 no ambiente empresarial. “Era uma estratégia de motivar e aquecer as vendas no comércio em um período de forte recessão econômica, devido a quebra da bolsa de Nova Iorque. Na sua essência, o conceito implica na diminuição da vida útil dos produtos, o que força o consumidor a mais rapidamente adquirir novos”, explica Fábio Fonseca Figueiredo, economista, doutor em Geografia pela Universidade de Barcelona (Espanha) e professor do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ele cita ainda exemplos triviais da aplicação da Obsolescência Programada no nosso dia a dia, como o aumento do orifício dos tubos de cremes dentais, o que leva ao uso mais rápido desse produto. Entretanto, atualmente, os softwares informáticos são os maiores objetos da Obsolescência. De tempos em tempos, exigem atualizações para versões mais recentes, ainda que as antigas estejam operacionais.

Acerca de como as empresas se beneficiam da prática, Fábio comenta que “a partir da Obsolescência, há, indubitavelmente, um incremento nas vendas, sobretudo para os produtos mais essenciais. Assim, a geladeira da vovó que durava 20 anos, hoje dura, no máximo, 5 anos. O computador comprado há 3 anos já possui um processador mais lento em relação aos novos programas disponíveis no mercado”, completa. Mais do que “filha do consumismo”, a Obsolescência Programada é também filha do capitalismo, que apenas ganha com essa prática, já que com o aumento de vendas e de consumo de produtos, seus lucros também aumentam.

Os papéis de consumidor e empresário na Obsolescência Programada. (Charge: Diego Novaes/2012)

Por outro lado, a natureza é grandemente prejudicada por tal prática. Segundo Maria Beatriz Oliveira da Silva, doutorada em Direito Ambiental pela Universidade de Limoges (França), “muitos são os impactos negativos, pois muitos são os dejetos, ou materiais que deveriam ser reciclados (e não são), que são lançados na natureza gerando poluição do ar, do solo, das águas e dos lençóis freáticos. A Obsolescência Programada acaba sendo um agente catalisador da produção de lixo em escala global”. O descarte é muito rápido e esse lixo vai se acumulando em grande quantidade, saindo do controle do que foi planejado para ser recebido em aterros e/ou lixões. Tais resíduos descartados constituem-se num sério risco para o meio ambiente, pois possuem metais pesados altamente tóxicos, como Mercúrio, Cádmio, Berílio e Chumbo. Além disso, é importante lembrar que a humanidade já está consumindo 30% a mais do que o planeta é capaz de repor e é preciso que haja uma redução em até 40% das emissões de gases de efeito estufa para que a temperatura não suba mais do que 2º C.

Diante de uma situação tão alarmante, mudanças dos padrões de produção e consumo, de forma a diminuir o descarte desnecessário de toneladas de lixo eletrônico e tóxico no planeta, são essenciais para reverter esse quadro. Maria Beatriz afirma que parte da população é conscientizada dos males do descarte rápido e, por assim dizer, compulsório de produtos considerados obsoletos pelo mercado. Mas ela afirma que não bastam apenas atitudes individuais: “Por mais importantes que essas atitudes sejam, do ponto de vista pedagógico, ao demonstrarem que outra forma de vida é possível, mais simples e menos agressiva ao meio ambiente, elas, por si só, não garantem a sustentabilidade desejada, porque esta pressupõe uma batalha política estrutural a ser travada para colocar em xeque todo um projeto de desenvolvimento vinculado a um sistema econômico”. A solução, então, segundo a especialista, seria uma ação efetiva de controle da produção de lixo das massas e, por que não, da política das empresas pelo Estado, afinal é dever dele regularizar, fiscalizar e induzir novos padrões de comportamento.

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