Crônica: Sala de Espera

Anna Satie

O movimento na estação que contrasta com a estagnação de quem observa (Foto: Madrabothair)

O movimento na estação que contrasta com a estagnação de quem observa. (Foto: Madrabothair)

A rodoviária no sábado em São Paulo é sempre um caos. Isso somado à minha aparente incapacidade de planejar com antecedência resulta sempre em horas e horas de espera tão agradáveis quanto a ideia de assistir um filme cheio de cenas sensuais com a minha avó. Sentada na minha mochila, já terminei meu livro, enjoei de todas as músicas no meu iPod e nem minha mãe me responde no WhatsApp, então eu brinco daquela coisa em que tento adivinhar o destino de cada pessoa que passa por mim. Fico inventando histórias que talvez digam mais de mim do que do passante.

São sempre os mesmos rostos que eu esqueço assim que entro no ônibus. Sempre a moça trocando mensagens com o namorado, o casal de velhinhos que parece que estiveram juntos a vida toda, o cara discutindo alto com alguém pelo telefone. Sempre tem o moço bonitinho ouvindo música com quem eu nunca tenho coragem de conversar (o de hoje tem os tênis verdes mais legais que eu já vi). É sempre o rapaz que passa correndo porque vai perder a viagem, o faxineiro da estação que passa sem pressa nenhuma. E são sempre as dezenas de faces inertes, à espera.

Um homem me chama a atenção, talvez porque anda de um lado pro outro sem parar, mas principalmente pelo buquê de flores na mão. Disca sem parar um número no celular que eu imagino que seja da pessoa que ele esteja esperando. Eu tento (mas não com muito esforço) não ouvir a sua conversa, mas deduzo pelas palavras e pela expressão dele que ela não vem. Perdeu o ônibus, talvez? Fugiu com o amante? Ganhou ingresso pra Copa em Manaus? Quem sabe… Ele senta lá e aguarda alguma coisa mesmo assim.

Eu tenho a impressão constante de que eu passo mais tempo à espera do que realmente fazendo as coisas. Estou sempre esperando algo: o trem, uma notícia, minha paquera vir falar comigo primeiro, meus amigos me chamarem pra sair, alguma coisa acontecer e mudar completamente a minha vida. Eu tenho a impressão constante que estou sempre à espera de uma condução destinada a um lugar que eu nem quero muito ir.

Complexo de Clementine: sempre ansiosa anchando que não estou vivendo a minha vida ao máximo. (Foto: Eternal Sunshine of the Spotless Mind/OkMovieQuotes)

Complexo de Clementine: sempre ansiosa anchando que não estou vivendo a minha vida ao máximo. (Foto: Eternal Sunshine of the Spotless Mind/OkMovieQuotes)

Faz meses que eu não vejo o sol se pôr na praia e eu sinto saudades da areia nos meus dedos. Cansei de esperar que alguém me chamasse pra ir. Eu não aguento mais a sala de espera. Hoje eu comprei um bilhete só de ida pra ver o mar.

No meu devaneio, nem reparei que tinha quase dado a hora do ônibus. Com a mochila pendurada num ombro só, saio apressada, e no meu caminho até o terminal de embarque, paro no moço ouvindo música pra falar que gosto dos tênis dele. Ele sorri, e eu continuo seguindo para não perder a viagem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s