Genocídio em Ruanda completa 20 anos

Em 100 dias de conflitos, mais de 800 mil pessoas foram mortas

Heloise Montini

O local é bucólico, isolado da cidade e perfeito para um hotel. Nele, há principalmente ativistas, jornalistas e funcionários que seguem sua rotina, até o dia em que extremistas hutus se aproximam da região, determinados a exterminar todos os tutsis que encontrarem. Com cenas fortes, de violência excessiva, o filme Hotel Ruanda retrata alguns dias do terror que Ruanda viveu por três meses.

De pouca importância no cenário econômico mundial, sem grandes reservas minerais e tendo a agricultura como maior fonte de renda, Ruanda, localizada no interior da África, foi palco de um dos maiores genocídios da história da humanidade. Em 100 dias foram mortas mais de 800 mil pessoas.

O conflito entre as etnias tutsis e hutus foi justificado pela morte do então presidente ruandês Juvenal Habyarimana, no dia 6 de abril de 1994, quando o avião em que ele estava foi derrubado, causando a sua morte e a de Cyprien Ntaryamira, presidente do país vizinho Burundi, que também estava no voo. Ambos eram hutus, o que levou a maioria da população, composta por aproximadamente 85% de pessoas pertencentes a essa etnia, a acusar a oposição tutsis do atentado e iniciar a perseguição e o assassinato das inyenzi, as “baratas” tutsis.

Milhares de pessoas fugiram do país durante a guerra civil. Crédito: AFP

Milhares de pessoas fugiram do país durante a guerra civil. (Créditos: AFP)

Além disso, especialistas apontam que a história de conflito no país começou com a colonização belga, quando o governo classificava a população entre tutsis e hutus, segundo os seus traços fenotípicos. Durante seu domínio, os belgas deixaram o governo nas mãos dos tutsis. Na década de 1930, a classificação foi incorporada nos documentos de identidade dos cidadãos, sendo esta medida “uma das origens da política colonial que acirraria os ânimos e as diferenças entre as etnias que compunham o país” informa o doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, César Augusto da Silva. Durante a dominação belga, a minoria tutsis estava no governo. Porém, quando o país conquistou a independência na década de 1960, os hutus assumiram a liderança política e mantiveram as rivalidades de forma intermitente, culminando no genocídio de 1994.

Não houve interferência internacional no país durante o genocídio. Nenhum país reagiu, nem a Organização das Nações Unidas (ONU), que tem por obrigação intervir em casos de violação dos direitos humanos, utilizou seu total poder para impedir que a tragédia acontecesse. Apesar da eminência de uma catástrofe, meses antes da consumação do massacre, a ONU retirou vários militares que atuavam em uma missão de pacificação em Ruanda.

Durante os conflitos, a população utilizava como armas, instrumentos de trabalho como facões. Crédito: AFP

Durante os conflitos, a população utilizava os instrumentos de trabalho como armas. (Créditos: AFP)

“Não está claro porque a ONU não reagiu. Se por uma inação deliberada do Conselho, se por falha de comunicação entre os diversos setores da ONU, se o principio da imparcialidade que balizava as operações de paz prevaleceu ante a ideia de intervir, ou uma conjugação de todos esses fatores”, aponta o doutor em História pela Universidade Estadual Paulista, Sergio Luiz Cruz Aguilar. Ele também comenta que a ONU atuava em muitos trabalhos de paz naquele momento, além das questões referentes à Guerra Fria, que havia acabado de terminar.

Apesar dos debates sobre a guerra civil ruandesa e a criação pela comunidade internacional da Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda (Unamir), que visava a comunicação para por fim ao conflito entre as etnias, não houve intervenção efetiva no país. “Essa falta de medidas para impedir o genocídio ocorreu devido aos interesses internacionais postos em Ruanda”, afirma o doutor em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Danilo Ferreira da Fonseca, já que “a velocidade de intervenções internacionais está atrelada às relações internacionais entre os diferentes Estados”.

O que o mundo aprendeu

“A mensagem passada pelos sobreviventes do massacre foi de que a tragédia em seu país era anunciada e poderia ter sido evitada, caso decisões mais contundentes da comunidade internacional, para enviar suas tropas de operações de paz, tivessem sido tomadas com mais rapidez, de modo a evitar tragédias humanas daquela proporção” explica Carlos Leonardo Bahiense da Silva, doutor em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz.

O atual presidente de Ruanda, Paul Kagame, conseguiu diminuir os conflitos étnicos no país, mas mantém uma postura ditatorial. Crédito: DPA

O atual presidente de Ruanda, Paul Kagame, conseguiu diminuir os conflitos étnicos no país, mas mantém uma postura ditatorial. (Créditos: DPA)

Para os especialistas, Ruanda deixou como exemplo que massacres podem ser evitados e a comunidade internacional deve tomar todas as medidas necessárias para interferir nos Estados e garantir os direitos humanos. O país tem se recuperado da tragédia de 1994 com o auxilio da ONU ao governo. Muitas medidas também foram tomadas a fim de diminuir os embates entre as etnias, como o Tribunal Penal Internacional para Crimes em Ruanda, sediado na Tanzânia, que processa e pune os envolvidos no genocídio. Além disso, foram estabelecidos tribunais no interior do país para julgar os criminosos, chamados Gacacas.

Ruanda é hoje referencia econômica no continente africano, mas o seu crescimento e sua relativa estabilidade são vistos pelos especialistas como falha, já que não advém de uma democracia e sim de uma ditadura do atual presidente Paul Kagame, que matem o país sem conflitos étnicos, mas que persegue opositores e não permite a liberdade de imprensa. “Algumas ações foram tomadas pela Frente Patriótica Ruandesa, que pôs fim aos massacres e assumiu o poder no país. Não apenas os responsáveis foram criminalizados, como as categorias tutsis e hutus foram retiradas dos documentos, de forma a valorizar a nacionalidade ruandesa e afastar os preconceitos étnicos”, conclui o professor.

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