Novelas com homossexuais: Vai ter beijo sim

Como a televisão interfere na visão dos homossexuais pela sociedade

Bianca Landi

Ao tratar da representação dos homossexuais pelas telenovelas, é importante inicialmente atentar para a abordagem e construção dos personagens, que normalmente possuem forte caráter heteronormativo, enxergando a heterossexualidade como sendo a única orientação sexual aceitável. Esse modelo leva à marginalização de outras orientações, que acabam sendo perseguidas ou ignoradas. Para Larissa Pelúcio, antropóloga com estudos voltados para gênero e sexualidade, a heteronormatividade nas novelas “dá visibilidade e caráter humanizado às relações, tirando [as relações homossexuais] do registro patológico”. Já o ponto negativo “é criar modelos que engessam experiências múltiplas, plurais e históricas, que tem muito mais tensões que aquelas que aparecem na televisão”, diz.

Dessa forma, o que se vê nas novelas são personagens baseados em estereótipos, como gays efeminados ou caricatos e a representação de casais seguindo o padrão “ativo e passivo” ou “feminino e masculino”, ainda que ambos os indivíduos pertençam ao mesmo gênero. É como se fosse necessário o encaixe dos personagens em padrões heterossexuais para maior compreensão ou aceitação do público.

Ademais, o próprio formato da novela brasileira, que é familista, liberal e reprodutor, favorece esse quadro. É o que observa Marcelo Hailer, colunista da Revista Fórum, com mestrado voltado para o tema da heteronormatividade em personagens gays nas telenovelas. Para Laura Suárez, 18 anos, bissexual, apesar da simpatia que Félix conquistou, “a hipocrisia permanece. O público pode até gostar dele, mas quanto a ter um parente gay o discurso muda”. O final do casal formado por Niko e Félix teria sido uma raridade, diz Marcelo, formado pela boa condução do autor em torno dos personagens, o que fez com que um país como o Brasil, extremamente machista e misógino, torcesse por um casal gay.

Thamires Motta, 19 anos, lésbica, desaprova a adoção do padrão heteronormativo para a retratação de personagens. “O papel da televisão brasileira deveria ser rechaçar atitudes violentas que possam desencadear o ódio e a retaliação para com os homossexuais”. Já o colunista Marcelo não é tão otimista quanto a uma conscientização. Para ele, “a TV é um produto comercial e se ela cair na onda de conscientizar vai perder público”. Marcelo não concorda com isso, mas enxerga a TV aberta dessa forma E diz, ainda: “se a TV não conscientiza, ela pode, no limite, despertar o sujeito para o assunto, fazendo com que ele busque se informar mais e rever os seus conceitos”.

Quanto à novela atual, Clara e Marina já possuem torcidas pró e contra a relação que ainda nem se concretizou. Tem quem já tenha simpatizado com o romance e torça a favor dele, e há também quem seja contrário à ideia de uma mãe de família “deixar” o casamento e o filho para ficar com outra mulher. Mas quantos pais de família já abriram mão do casamento para ficar com uma segunda mulher em horário nobre, e nem por isso foram tão duramente criticados? Clara sofre preconceito em dobro por parte da audiência: por ter dúvidas quanto a sua orientação sexual e por ser mulher.

Clara e Marina, o casal em potencial do horário nobre atual. Imagem de divulgação: Rede Globo.

Clara e Marina, o casal em potencial do horário nobre atual. Créditos: Divulgação/Rede Globo

Dentro da realidade vivida na novela, porém, é diferente. “Mostram a Marina e a Clara como se todo mundo aceitasse elas, e na realidade não é bem assim. Existe muito preconceito, e às vezes até de pessoas bem próximas a você” relata Juliana de Oliveira, 21 anos, bissexual. Para ela, a retratação do preconceito aproximaria a representação da realidade vivida pelos homossexuais. Já Lucas Zanetti, 18 anos, gay, acredita que esse aprimoramento poderia se dar através da contratação de atores homossexuais para representar personagens homossexuais. Para ele, “quando cada pessoa representa algo que se identifica, fica mais fácil conhecer os problemas e retrair os estereótipos”. Já para Thamires, a caracterização dos personagens deve acontecer da forma mais natural possível, mostrando que a orientação sexual é uma mera orientação, e não um desvio de caráter ou de comportamento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s