Cracolândia – Retrato das drogas na capital paulista

Região da capital paulista impactou seu entorno e é alvo de políticas públicas

 Augusto Biason

No início dos anos 1990, o centro da cidade de São Paulo começou a ser tomado por traficantes e usuários de crack. Concentrando-se em grupos para se proteger da polícia, os dependentes começaram a ocupar as ruas e calçadas durante as noites. Era o início da cracolândia. Aos poucos, barracos foram erguidos nas ruas e formaram uma espécie de favela. Localizada no chamado Centro Histórico da capital, a cracolândia provocou uma drástica mudança local. A área, famosa pelos prédios construídos no início do século XX, sempre foi um dos principais pontos turísticos da cidade. Encontram-se ali vários bares, museus, restaurantes e teatros. Porém, com a invasão da droga houve uma deterioração na região, enfraquecendo o comércio e o mercado imobiliário.

O crack, consumido antes por usuários de baixa renda, agora atinge a classe média. Entre os nóias, como são conhecidos, há pessoas de todas as classes sociais. De baixa renda a empresários, oriundos da periferia ou de bairros de alto padrão, algo em comum os une: a dependência química. Segundo o neurocientista Carl Hart, em entrevista concedida ao site americano Democracy Now!, cerca de 15% a 20% dos usuários de crack são viciados na droga. Em seu estudo, ele afirma que a droga não é a causa dos problemas nas comunidades. “O problema era a política antidrogas, a falta de empregos – um leque variado de coisas. E as drogas eram apenas um componente que não contribuía tanto quanto os outros que citei anteriormente”.

Braços Abertos

Prefeito Haddad em conversa com os participantes do programa Braços Abertos. Créditos: Fabio Arantes/Secom-PMSP

A cracolândia, vista como um símbolo de marginalização urbana, não é encarada com bons olhos pelo poder público. As autoridades tentam por meio de operações políticas, policiais e sociais dar um fim ao consumo deliberado na região. Entretanto, até hoje, pouca evolução nesse quesito foi percebida, resultado de ações falhas dos governos. Entre estas destacam-se a chamada Operação Sufoco, realizada pelo Governo do Estado, e o programa Braços Abertos, promovido pela Prefeitura de São Paulo.

Com início em janeiro de 2012, a Operação Sufoco tinha como objetivo a repressão e apreensão de traficantes que atuassem na área. Mas o que aconteceu foi uma ação de dispersão dos usuários, já que era uma operação estritamente policial e sem acompanhamento de profissionais da saúde e assistentes sociais. A violência policial e a falta de políticas públicas visando os dependentes tornaram-se alvos de queixas de abuso. Denúncias foram realizadas pelo Tribunal de Justiça, Ministério Público, governo federal, partidos de oposição, entidades defensoras de direitos humanos, imprensa e manifestantes civis. Devido a esses entraves a operação foi considerada mais um fracasso das políticas de combate às drogas.

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Foto: Fábio Braga/Folhapress

Já o programa Braços Abertos, iniciado em janeiro de 2014, chegou com um viés mais humanitário, visando uma real recuperação dos dependentes. Assistentes sociais, antes de a ação ter início, perguntaram aos moradores da região o que era necessário para que largassem o vício. A resposta foi moradia e trabalho. A prefeitura, então, de forma pioneira, disponibilizou os dois: emprego como varredores de praças, com carga horária de quatro horas e remuneração de R$ 15,00 por dia, além de hotel dedicado exclusivamente aos usuários e acompanhamento psicológico. Segundo levantamentos da própria prefeitura, o consumo de droga vem caindo de forma sistemática entre os participantes do programa.

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