Crônica: Sobre uma breve conversa de bar

Beatriz Kuroki

Já passava das duas, o boteco da esquina estava lotado e o fim de semana ainda se encontrava longe. “Essas pessoas não trabalham?” pensava comigo mesma, sem lembrar que eu também estava ali sentada em um bar esperando meu pedido. E o pior, eu, sim, trabalhava na manhã seguinte. Deveria estar dormindo, mas preferi ficar para bisbilhotar um pouco os problemas e fofocas alheios.

As conversas eram aleatórias. Sobre tudo e sobre todos. Um casal discutia quem era o mais paciente da relação, enquanto dois homens contavam suas histórias dos últimos dez anos. Assim como um grupo de  recentes  adultos beliscava um prato de petiscos e tomava suas cervejas caras, dois amantes não conseguiam controlar seus sentimentos, e o ambiente ao redor deles esquentava.

Disponível em: http://morguefile.com

Uma moça tinha acabado de se sentar ao meu lado, erguia os dedos e delicadamente pedia seu vinho tinto seguido de um copo d’água. Fitei-a por dois segundos antes de perguntar o que alguém estaria fazendo em um bar de esquina bebendo vinho a essas horas, durante a semana. Ela olhou, e com um sorriso de canto, apenas respondeu que era tudo culpa da idade. Da idade. Quantos anos ela teria? No máximo, vinte e cinco. “Desculpa, mas não entendi o que quis dizer” deixei escapar.

Ela permaneceu em silêncio tempo suficiente para eu achar que a estava incomodando. De repente, mil e uma palavras saíram de sua boca. “Tenho 24 anos, me formei há algum tempo. Tecnicamente, sou uma jornalista hoje, tenho diploma e conhecimento. Agora, o emprego ainda está por aí, perdido. Senti que amadureci tanto nesses últimos dois anos, me sinto tão distante daquela menina que os veteranos chamavam de ‘bixete’, mas o sentimento de ser uma eterna criança continua ao mesmo tempo que os sintomas do envelhecimento aparecem.” Respirou fundo.

O que ela queria dizer com “sintomas do envelhecimento”? Raciocinei. Imagino que estava se referindo às responsabilidades e os problemas. Realmente, crescer não é nada fácil, a tão esperada vida de adulto não é tudo aquilo que sonhávamos depois que chegamos a casa dos trinta. Vemos como existem pessoas descartáveis, como a vida tende a nos jogar para um desafio cada vez mais difícil conforme os anos se passam, como aparecem problemas inimagináveis, etc. Mas assim mesmo, considero o amadurecimento do homem uma coisa ótima e maravilhosa.

Felizmente, ele existe. Como é bom formar seus próprios conceitos, como é bom possuir a independência, como é bom ser velho. Sim, velho. Adulto. Tanto faz. O importante não é a idade mental, muito menos a real. O que vale, no fim das contas, são as lições aprendidas nesse meio tempo que estamos na Terra e o quanto conseguimos crescer com o pouco que nos ensinaram.

O garçom trouxe minha bebida. Fui tentar resumir meus devaneios à moça, mas ela havia sumido. Talvez tenha ido resolver a vida que mal começara, ou apenas tenha ido ao banheiro. Deixei quieto e resolvi tomar meu drink em paz.

“Moço, você esqueceu que gosto do meu guaraná com gelo e fatias de laranja?”

Sobre a maturidade? Apenas para os fortes. E sobre ser forte? Somos todos.

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